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“Não temos obras-primas de arquitetura verde em Macau”

Nuno Soares e o seu estúdio Urban Practice receberam o prémio de arquitetura verde pioneira, no 6º Japan International Pioneer Design Award, pela conceção de uma casa de banho pública em Toi San. Em entrevista ao nosso jornal, explica que o Governo de Macau tem o poder de “inspirar” a mudança, com “a indústria a seguir o exemplo”

Carol Law

– Qual foi a inspiração para o design da casa de banho pública em Toi San?

Nuno Soares – A casa de banho pública está localizada num pequeno jardim na zona de Toi San, por isso, antes de iniciar o projeto, tentámos compreender, como sempre fazemos, o contexto mais amplo do local. Ao analisar a evolução histórica da zona de Toi San, percebemos que era uma zona de hortas e inspirámo-nos na história do local para desenvolver um conceito arquitetónico. O que acabámos por ter foi um conceito radical de mais de 100 por cento de cobertura verde, ou seja, o edifício acaba por ter mais áreas verdes do que se fosse apenas um pedaço de relva no chão. Em suma, é uma espécie de projeto holístico em que temos uma integração com o local, uma reutilização de uma estrutura existente e um novo conceito para fazer edifícios que não sejam apenas uma contribuição, mas que podem ser um protótipo para o futuro, que pode ser um pouco mais inovador e ambicioso.

– No Japão houve um projeto semelhante chamado “The Tokyo Toilet”. Que benefícios traz à população?

N.S. – Ainda bem que menciona o projeto “The Tokyo Toilet”. Foi uma inspiração para todos nós arquitetos, que trabalhamos neste tipo de projetos. Alguns dos melhores arquitetos do Japão foram convidados a desenhar casas de banho públicas muito invulgares e futuristas em toda a cidade e, por isso, algumas dessas casas de banho tornaram-se pontos de referência e as pessoas acabaram por ir às casas de banho e descobrir o bairro. Foi um grande sucesso em Tóquio, porque abriu os bairros que não eram visitados. É claro que este projeto foi uma inspiração para nós e uma referência. Por isso, estou muito contente por termos recebido este prémio de design do Japão, porque é um lugar onde existem padrões muito elevados em termos de design e de design ecológico e sustentável.

A arquitetura continua a ter um impacto negativo em termos de emissões de carbono e de consumo de
energia, mas tem o poder de fazer o inverso

– Como olha para o desenvolvimento da arquitetura verde em Macau?

N.S. – Ainda está a dar os primeiros passos, pelo que não temos obras-primas de arquitetura verde em Macau. Há várias iniciativas do Governo, de promotores privados e de diferentes equipas de arquitetos, mas muitas vezes estamos preocupados em construir rapidamente edifícios que sejam eficientes e rentáveis. Tudo isso é importante. Porém, é igualmente importante olhar para o futuro e ter maior ambição em termos de qualidade, em termos de qualidade de vida e de um impacto positivo no ambiente. Neste momento, a arquitetura continua a ter um impacto negativo em termos de emissões de carbono e de consumo de energia, mas tem o poder de fazer o inverso. Se projetarmos os edifícios de forma cuidadosa e sensata, não só não prejudicam o ambiente, como podem até melhorá-lo. Penso que o Governo, que é um promotor de muitos projetos públicos em toda a cidade, deveria ter isto mais em consideração e ter um critério de avaliação dos projetos que valorizasse também as estratégias verdes e sustentáveis desses edifícios. Participamos em vários concursos e, normalmente, isso não faz parte dos critérios de avaliação. Se isso não for valorizado, é claro que os arquitetos, os promotores e os participantes nesses concursos serão desencorajados a fazê-lo. Por isso, penso que é importante que deixemos de ser eficientes e rápidos e passemos a ser excelentes, para criarmos realmente uma arquitetura em Macau que possa servir a próxima geração.

Se o Governo der o primeiro passo e encorajar a arquitetura verde, toda a indústria seguirá o exemplo

– Precisamos de leis ou políticas que facilitem essa implementação?

N.S. – Penso que no Plano Director de Macau já existem várias ideias que promovem a arquitetura verde. Nos novos edifícios há uma instrução de ter entre 30 a 35 por cento de cobertura verde nos telhados. Portanto, penso que as directrizes em Macau já incorporam algumas destas preocupações. Mas não podemos ficar à espera que o Plano Director entre em ação. Fazemos projetos todos os dias, o Governo atribui projetos todas as semanas. Penso que nos que já foram atribuídos, ou estão para ser no curto prazo, estas considerações já deveriam ter sido incorporadas. Se o Governo der o primeiro passo e encorajar a arquitetura verde, toda a indústria seguirá o exemplo e dará resposta a essa procura. É muito mais fácil para o Governo promover esta mudança do que para os investidores privados, que estão mais preocupados com os seus próprios interesses, enquanto o Governo precisa de se preocupar com os interesses comuns. E esta arquitetura verde de que estamos a falar não se trata apenas de fazer edifícios verdes e bonitos, trata-se de criar edifícios que sejam sustentáveis por largos anos. É também uma questão de defesa do ambiente; inspirar as pessoas a prestar mais atenção à proteção ambiental e a gostar de a proteger. Essa ambição está na mente de todos, mas não está no programa de construção e dos concursos. Se começarmos a sensibilizar para este facto e a converter realmente estas intenções ou ambições globais em programas claros, então seremos capazes de conceber uma cidade com edifícios mais ecológicos, que respondam melhor às necessidades físicas e psicológicas da população.

Não vemos muitos edifícios que tenham a ambição e a qualidade arquitetónica que vemos nos projetos de
licenciatura. Temos um mercado difícil para os jovens arquitetos

– É também o coordenador do Departamento de Arquitetura e Design da USJ. Quais são alguns dos desafios e oportunidades que os jovens arquitetos locais enfrentam?

N.S. – Quando vamos a exposições, vemos o imenso potencial dos licenciados em arquitetura e dos jovens arquitetos de Macau. Porém, na cidade não vemos muitos edifícios construídos por jovens arquitetos, edifícios que tenham a ambição e a qualidade arquitetónica que vemos nos projetos de licenciatura. Temos um mercado difícil para os jovens arquitetos começarem a praticar e a implementar as suas ideias. Normalmente, em todo o mundo, a forma mais fácil de começar é através de concursos de design e, muitas vezes, de concursos de design dirigidos a jovens arquitetos, e nós não temos esses concursos de design em Macau. Por isso, é muito difícil para um jovem arquiteto criar o seu próprio estúdio, participar em concursos públicos, porque estes têm requisitos que são extremamente difíceis de cumprir e porque, em muitos casos, nem sequer são concursos abertos, são para convidados e, obviamente, os jovens arquitetos não são escolhidos. Por isso, penso que é muito importante compreender que temos uma escola de arquitetura em Macau, e que temos jovens arquitetos que ganham todos os anos prémios internacionais de design com os seus projetos de licenciatura. Temos bons jovens arquitetos em Macau, mas precisamos de lhes dar um palco onde possam brilhar, e um desses palcos pode ser pequenos projetos públicos como este, como as casas de banho públicas. Em termos de complexidade, são relativamente fáceis de compreender, em termos de risco também não comportam muito, e são perfeitos para os jovens serem inovadores, aprenderem as regras da profissão e darem o seu contributo à cidade. Por isso, penso que é importante, a vários níveis, encorajar a participação da nova geração nos domínios da arquitetura em Macau.

– É também o vice-presidente da Associação de Arquitectos de Macau (AAM). Pode partilhar connosco alguns dos planos para o futuro?

N.S. – Sou responsável pela juventude e assuntos internacionais, pelo que lido diretamente com estas questões de que estamos a falar. Temos dois programas na AAM dirigidos a jovens arquitetos que considero muito bem sucedidos e nos quais queremos continuar a investir. Um deles é o “AAM go to school”, um projeto em que os nossos membros mais jovens participam num workshop com estudantes de escolas secundárias de Macau. Vamos lá durante meio dia, temos um local e desenvolvemos um pequeno pavilhão para esse local com os alunos dessa instituição. A ideia é explicar que a arquitetura tem o potencial de melhorar o espaço público, que a arquitetura é algo que se faz em colaboração e, assim, aumentar a sensibilização para a arquitetura e inspirar a geração mais jovem a pensar na arquitetura como um utilizador e também a prosseguir estudos em arquitetura, porque, obviamente, precisamos de uma nova geração de arquitetos empenhados. O outro programa que temos para os jovens arquitetos é um concurso que realizamos todos os anos ou de dois em dois anos. É um programa de conceção tão realista quanto possível e no qual apenas podem participar jovens arquitetos. Trata-se, portanto, de uma discriminação positiva para lhes dar um palco e para mostrarem o seu talento. Penso que todos estes concursos tiveram muitos participantes e projetos muito interessantes, o que nos diz que existe uma comunidade de jovens arquitetos empenhados em Macau que, sempre que têm uma oportunidade, estão dispostos a participar e a dar o seu contributo para melhorar a cidade onde se encontram. Estes são dois dos programas em que estamos a investir e que são muito importantes para nós. Penso que isto pode realmente trazer uma mudança positiva na arquitetura em Macau.

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