A economia mundial está de candeias às avessas, muitos são os países em crise e outros em recuperação, como é o caso de Portugal. Um aliado em potência poderia ser a China. Ou melhor, um aliado ainda mais concreto e “realista”.
“Um governo à direita é totalmente diferente de um à esquerda, as oportunidades são outras, e têm de procurar as melhores. Têm de ser mais flexíveis numa altura em que a economia parece recuperar, mas precisa de um empurrão. China aliada? Poderia ser. Aliás, até é, são vários os negócios entre os países, mas precisa de ser uma parceria mais realista”, começa por dizer ao PLATAFORMA o economista José Diogo Gonçalves, destacando depois o que poderia ser feito para que esta parceria seja mais concreta.
“A economia chinesa também sofreu nos últimos anos e está a recompor-se, mas mais rápido que as outras. E se Portugal quer crescer, tem de aliar-se a economias que estão a recuperar mais rapidamente. Evidentemente que um país como Portugal não pode estar limitado a acordos apenas com um país, ou poucos países, tem de ser algo mais abrangente, mas no caso da China direi que as coisas têm de ser mais sérias. Portugal tem de abrir-se a novos projetos com a China, tal como a China tem oportunidade também de fazer com outros projetos portugueses. Tem de existir uma maior abertura política e económica entre os dois países. Não são só palavras de elogio, como Marcelo Rebelo de Sousa dirigiu à China e posteriormente Xi Jinping fez no sentido inverso. Tem mesmo de existir um trabalho sério entre os dois países. Portugal precisa de economias fortes do seu lado”, referiu.
A economia chinesa também sofreu nos últimos anos e está a recompor-se, mas mais rápido que as outras.
E se Portugal quer crescer, tem de aliar-se a economias que estão a recuperar mais
rapidamente
José Diogo Gonçalves, economista
De facto, por ocasião do 45.º aniversário das relações diplomáticas entre Portugal e China, em fevereiro último, os dois presidentes trocaram mensagens de felicitações. À imagem do economista José Diogo Gonçalves, também Pedro Caldeira, professor catedrático de Ciência Política, diz que as palavras não bastam e que o papel de um novo governo terá de ser diferente, se quiser que uma parceria entre Portugal e China seja eficaz.
“Uma coisa é uma relação diplomática, outra uma política e económica. É óbvio que a China tem outros interesses, Portugal não é um parceiro estratégico, nem tem de o ser, dada a nossa dimensão. Mas o contrário tem de ser repensado, Portugal e este novo governo têm de olhar para a China como um parceiro político e económico que tem de ser usado como deve ser, não pode ser apenas uma relação diplomática no papel”, diz Pedro Caldeira, dando Macau como exemplo nesta relação.
“Macau há muito que deveria ter um papel bem diferente nesta relação entre Portugal e a China. Há quem trabalhe para que a relação seja melhor, nomeadamente associações e empresários, mas a verdade é que os governos não trabalham ainda bem nesse sentido. Macau seria o parceiro ideal de Portugal na sua relação com a China, mas parece que falta afinar muita coisa no meio desta relação. Falta que Portugal faça o seu papel como deve ser, falta mostrar à China o potencial que temos no nosso país, não somos apenas um país com sol e para férias, temos muitas outras coisas, temos grande potencial”, disse, salientando depois alguns dos tais potenciais do povo português.
Do ponto de vista tecnológico estamos a trabalhar muito bem, temos startups a trabalharem com os melhores países do mundo, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. Por que não trabalhar na China? Este é apenas um exemplo de tudo o que de bom se tem feito em Portugal nos últimos tempos
Pedro Caldeira, cientista político
“Do ponto de vista tecnológico estamos a trabalhar muito bem, temos startups a trabalharem com os melhores países do mundo, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. Por que não trabalhar na China? Este é apenas um exemplo de tudo o que de bom se tem feito em Portugal nos últimos tempos. Temos exportado este know-how para muitos países, muitos têm vindo aprender connosco, mas falta envolver países com potencial económico mais forte, como é o caso da China”, referiu Pedro Caldeira.
José Diogo Gonçalves afina pelo mesmo diapasão. “Há que tentar descobrir o que poderá interessar a um país como a China. Luís Montenegro e o seu governo têm de olhar para trás e ver o que correu menos bem e aquilo que poderá correr melhor. Ver o que poderá agradar mais a parceiros chineses, assim como os portugueses têm de perceber o que podem fazer para agradar a um mercado como o da China. É verdade é que por lá há já muitos parceiros, todos querem ser aliados da China, mas há sempre espaço para parceiros que façam a diferença, que tenham visões mais à frente, e é isso que os portugueses, juntamente com o governo, têm de fazer. O mais importante de tudo é perceber que para crescermos temos de estar alinhavados com outras economias fortes, como a chinesa e tenho a certeza que este governo de direita vai olhar para isso”, concluiu.