Ser ou não ser patriota

por Gonçalo Lopes
Guilherme Rego

A necessidade de ser patriota é uma mensagem cada vez mais incutida na génese do discurso político em Macau. Esta identidade política tem sido reforçada e parece já colher os frutos. Lealdade à pátria e a Macau é entendida pelos residentes, quer da Função Pública como do privado, como a característica mais importante para o exercício de cargos de chefia públicos. Sim, à frente de requisitos como, por exemplo, boa gestão do erário público ou habilitações profissionais e académicas. Para se ter melhor noção, num inquérito com 26 competências e qualidades, os residentes consideraram como menos importante o “bom desempenho no trabalho”; “capacidade de organização e coordenação”; “longa experiência profissional na área em causa” e, por fim, “possuir habilitações académicas a nível de licenciatura ou superior”.

O estudo, conduzido pela Comissão da Juventude da Federação dos Funcionários Públicos não é vinculativo, mas sim uma amostra da mentalidade que impera e se propaga na Região. Esta mensagem constante de patriotismo acima de tudo é, porém, perigosa. Reforça a inércia dos cargos, desresponsabiliza a importância da boa execução das tarefas e desígnios. Não sou só eu que o digo; o próprio estudo comprova-o, tendo em conta a ordem das prioridades elencadas pelos residentes. Dramatizando um pouco, tudo estará bem desde que o patriotismo seja reconhecido. Nasce uma mentalidade de que o realmente importa é o manifesto em alto e bom som do apoio às decisões dos governos. E que a discordância é problemática e um fator de exclusão da esfera política. Perde-se a pluralidade de opiniões, do espírito crítico e da representatividade que a população espera e merece. “A lealdade demonstrada para com o país não se coaduna com a ideia do afastamento da população, da indiferença perante o seu sofrimento, pelo contrário, há que manter o espírito primordial de servir a população”, atentam os autores do estudo, talvez preocupados com o rumo que Macau segue.

É preciso reforçar que a crítica não tem automaticamente uma conotação negativa. Pode ser positiva ou construtiva, com intenção de melhorar processos, mecanismos, e de apelo a mudanças. Não é necessariamente motivada para incitar à rebelião, secessão, entre outros. Para mudar o que está mal, é necessário identificar os problemas. Só depois é que é possível contorná-los. E do lado do Governo, tem de se ter essa mesma sensibilidade para perceber que não está em causa um atentado à pátria, mas sim um pedido para melhorar o serviço prestado à população.

Ser patriota é amar o seu país e servi-lo da melhor maneira possível. A questão é como cada um entende que deve servir a pátria. Certamente cada um tem uma ideia diferente das responsabilidades e deveres inseparáveis desse exercício. Agora que ser patriota é vital para a condução política em Macau, a sua indefinição é um problema. A abstração dos requisitos sujeita a vida política e pessoal de um indivíduo à interpretação subjetiva de um comité. Se alguém se considera patriota e quiser concorrer à Assembleia Legislativa; como justificar o não patriotismo do candidato com base na lei? Não há definição legal do conceito e, portanto, há uma lacuna num sistema político que se quer “governado por patriotas”, mas que não divulga como identifica essa competência, ou a falta dela.

*Diretor-executivo do PLATAFORMA

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