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“É natural que o renminbi ganhe cada vez mais peso nas reservas em moedas estrangeiras de muitos países”

Nelson Moura

Em entrevista ao PLATAFORMA, o diretor de Análise e Pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China, Tulio Cariello, destaca que tipo de empresas brasileiras podem vencer na Grande Baía. Ao mesmo tempo, vaticina um aumento do uso do renminbi nas transações entre os dois países

O Presidente Lula começou o seu mandato com uma visita oficial à China. Que importância coloca nesta visita, no que concerne o reatar das normais relações diplomáticas entre os dois países?

Tulio Cariello – Creio que o principal resultado da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China foi na área política. Após quatro anos de relativo afastamento das relações bilaterais durante o governo Bolsonaro, a viagem de Lula, que levou consigo diversas autoridades de Estado, como ministros e parlamentares, foi um símbolo importante da reaproximação entre os dois países, que incluiu a intenção de Brasília de aprofundar a parceria estratégica estabelecida com Pequim há cerca de três décadas.

Essa reaproximação é de suma importância para o Brasil, uma vez que a China é um tema incontornável na política externa nacional, sendo o principal destino das exportações brasileiras desde 2009 e um importante investidor externo, com cerca de 70 mil milhões de dólares americanos aportados no país nos últimos 15 anos.

Além disso, Brasil e China são as duas maiores nações em desenvolvimento do mundo, são parceiros em importantes foros multilaterais, como o BRICS, e têm quase meio século de relações diplomáticas estáveis, sem grandes controvérsias e com um aparato institucional sofisticado, que inclui mecanismos de diálogo permanente com poucos paralelos nas relações do Brasil com outros países, como é o caso da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação.

Durante essa visita os dois países assinaram 15 acordos que fomentam a cooperação em diversas áreas, como comércio e indústria, comunicação, inovação, pesquisa e tecnologia. Quais os acordos que gostaria de destacar dessa série?

T. C. – Houve acordos e memorandos de entendimento em áreas como facilitação comercial, meio ambiente, pesquisa e desenvolvimento, agropecuária, desenvolvimento social e combate à fome e à pobreza em áreas rurais, o que demostra a grande diversidade de temas presentes na agenda bilateral.

Entre eles, destacaria os acordos em cooperação espacial e economia digital, áreas muito promissoras e com grande sinergia entre os dois países. Mencionaria também a declaração conjunta sobre combate às mudanças climáticas, que mostra o compromisso de ambos os países com a sustentabilidade e a preservação ambiental.

Nessa área, há muitas oportunidades de trocas bilaterais, tendo em vista o protagonismo histórico do Brasil nas discussões globais sobre mudanças climáticas e os recentes avanços em agricultura e pecuária de baixo carbono, combinados com os grandes saltos tecnológicos da China em setores como energias limpas — sobretudo solar e eólica —, veículos elétricos, indústrias verdes, cidades inteligentes, conectividade no campo, etc.

Que áreas a CEBC gostaria de ver mais exploradas na relação entre os dois países?

T. C. – Recentemente, o Conselho empresarial Brasil-China publicou o documento intitulado “Sustentabilidade e Tecnologia como Bases para Cooperação Brasil-China”. Nesse sentido, acreditamos que os dois temas abrem novas avenidas de cooperação com a China e devem estar no centro da estratégia brasileira para o país asiático.

Ambos estão conectados com a agenda do Século XXI e têm o potencial de sofisticar a estrutura produtiva brasileira e alinhar as prioridades do país, em particular do agronegócio, com o combate ao aquecimento global.

Que potencial vê na Área da Grande Baía para empresas e empresários brasileiros? Que papel pensa que Macau e o Fórum Macau podem ter na ligação empresarial entre o Brasil e a China?

T. C. – A Área da Grande Baía é uma região urbana de grande dinamismo económico, com avançada infraestrutura de transportes e comunicações e um mercado consumidor pujante, o que naturalmente atrai o interesse de empresas de todo o mundo.

Creio que há oportunidades para os empresários brasileiros em nichos em que já somos competitivos, como moda e vestuário, cosméticos e produtos alimentícios de maior valor agregado. Macau, em particular, pode ter um papel importante no diálogo entre as pessoas dos dois países, uma vez que há um crescente interesse de jovens chineses pela Lusofonia. Na área cultural, isso é muito positivo no sentido de ampliar o alcance de produções cinematográficas e musicais do Brasil, podendo a região ser um centro irradiador da brasilidade na China.

Os dois países deram recentemente os primeiros passos para estabelecer o comércio bilateral em moedas locais, excluindo o dólar. Vê isto também como um passo importante para o comércio bilateral Brasil-China?

T. C. – O comércio em moedas locais não é um tema novo no debate entre os dois países. Os avanços nas discussões para o estabelecimento de acordos nessa área pode trazer vantagens pontuais para empresas dos dois países, como a redução de custos de transação. Ainda assim, a curto prazo, não há perspetivas para a substituição do dólar no comércio bilateral de forma disseminada, uma vez que a moeda americana continuará dominando o comércio internacional.

Por outro lado, pensando no longo prazo, a China tem se afirmado como a principal nação comerciante do mundo, então é natural que o renminbi ganhe cada vez mais peso nas reservas em moedas estrangeiras de muitos países.

Acredito que acordos para a substituição do dólar nas transações Brasil-China não terá grandes efeitos imediatos, mas têm sua importância ao “preparar o terreno” para um futuro que se encaminha para um comércio global cada vez mais dependente da China.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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