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Antes de mediar a paz, uma contraofensiva ucraniana

Guilherme Rego

A China tem as “qualificações necessárias” para mediar a paz na Ucrânia, defende Ip Kuai Peng, ex-investigador do Instituto dos Negócios Estrangeiros da China. A especialista em relações internacionais, Priscilla Roberts, afirma que “a perspetiva de uma paz imediata parece fraca”, agora que uma contraofensiva militar ucraniana tenta reforçar a sua posição na mesa de negociações

A China tem sido apontada por vários como o único país capaz de atuar como mediador neutro nas negociações de paz, dado o bom relacionamento que tem tanto com a Rússia, como com a Ucrânia. Ip Kuai Peng, docente da Universidade da Cidade de Macau, explica que esse contexto “confere a Pequim o espaço diplomático e qualificações necessárias” para ouvir ambos os lados.

A relação com a Rússia é “caracterizada pela confiança estratégica e boa vizinhança”. Com a Ucrânia, são 31 anos de desenvolvimento relacional, que culminaram no “nível de parceria estratégica”. Além disso, a China é hoje o maior parceiro comercial do país.

O académico, que também já serviu como investigador no Instituto dos Negócios Estrangeiros da China, assinala que “ao contrário de outros países que tratam a crise de forma parcial e tendenciosa, a China tem vindo a empurrar as duas partes para a paz, mantendo uma posição equilibrada e imparcial”.

O primeiro passo oficial da China para travar a guerra na Ucrânia deu-se a 24 de fevereiro, quando apelou a um cessar-fogo e apresentou uma proposta de paz com 12 pontos. A proposta foi aplaudida pelo Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.

“Acho que, no geral, o facto de a China ter começado a falar em paz na Ucrânia não é mau”, disse numa conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro de Espanha. E embora a embaixada ucraniana na China tenha reconhecido esse “bom sinal”, pediu mais ao gigante asiático. “Neste momento, podemos dizer que não está a falar com a Ucrânia.”

Esse pedido foi aceite. A 26 de abril, o Presidente chinês, Xi Jinping, falou ao telefone com o seu homólogo ucraniano. Xi prometeu a Zelensky que não iria “ficar de braços cruzados”, nem “procurar lucrar com a guerra”. Por outro lado, anunciou a nomeação de um representante especial para os assuntos da Eurásia na Ucrânia “para ter uma comunicação profunda com todas as partes sobre a solução política da crise”.

Porém, este telefonema veio 426 dias depois da guerra ter começado, o que leva o Ocidente a desconfiar das reais intenções da China.

Pressão a Moscovo

Priscilla Roberts, especialista em relações internacionais, ainda vê a China mais próxima da Rússia, dadas “as várias chamadas telefónicas com Putin e a visita pessoal a Moscovo”. Mas essa proximidade pode até ser o que realmente faz da China o mediador perfeito. “Tem havido muita discussão sobre se aliança ocidental algum dia pressionaria a Ucrânia a negociar. Menos discutido, mas provavelmente mais importante, é quem poderia forçar a Rússia a fazer concessões significativas”, escreve Gideon Rachman, colunista-chefe de relações internacionais do Financial Times.

Roberts reconhece essa capacidade à China. É um país “bem colocado para mediar as negociações de paz”, porque goza da “proximidade geográfica e alinhamento político com a Rússia”. Por outro lado, vê uma Rússia cada vez mais dependente da China em termos económicos, “especialmente desde a invasão”. A académica esclarece, referindo que as sanções económicas do Ocidente fazem com que a energia vendida à China seja a grande fonte de rendimento russa. “Sem os fundos resultantes dessas vendas, o esforço de guerra russo pode colapsar.”

Reafirmação internacional

Ainda assim, para se confirmar este papel de mediador que se atribui à China, a especialista considera que terá de haver um distanciamento face às posições mais extremas de Moscovo, até para sarar a relação com o Ocidente. “Parece haver margem para isso. A China nunca reconheceu formalmente a anexação da Crimeia pela Rússia e, recentemente, votou a favor de uma resolução da ONU que incluía um parágrafo que se referia explicitamente à agressão da Rússia contra a Ucrânia. Os diplomatas chineses parecem estar cada vez mais preocupados com o facto de uma inclinação demasiado forte para a posição russa tornar as relações tensas com o Ocidente ainda mais acrimoniosas, ao mesmo tempo que pouco contribui para a segurança da própria China.”

Ip Kuai Peng reconhece que a guerra acabou por aumentar a distância entre a China e o Ocidente. “Alguns países e meios de comunicação ocidentais criticaram e até difamaram maliciosamente as relações entre a China e a Rússia.”

A proposta chinesa para a paz, embora um “bom sinal” para os ucranianos, não foi bem recebida pela União Europeia e NATO. A presidente da Comissão Europeia e o secretário-geral da NATO consideraram que Pequim “não tem credibilidade”, pois “tomou partido” e assinou uma “parceria ilimitada” com Moscovo.

“Uma guerra prolongada está a tornar-se um peso estratégico para Pequim. Em vez de enfraquecer o sistema de aliança liderado por Washington, a guerra aproximou as democracias dos EUA, da Europa e da Ásia”, escreve Rachman. Fazer parte da solução é, portanto, “uma oportunidade para a China melhorar as relações com outros países”, salienta Roberts. Ao mesmo tempo, é uma oportunidade para convidar outros países a fazerem parte da solução. A especialista defende que a paz só será alcançada se a China “trabalhar em parceria com outras nações e organizações internacionais”.

O colunista do Financial Times lembra que a China “passou décadas a ampliar a sua influência na Europa”, mas a sua parceria com a Rússia “convenceu muitos europeus que Pequim é hoje uma ameaça”. Algo que merece maior atenção, já que “a UE é o maior mercado de exportação da China”, aponta.

Nuances geopolíticas

Ip destaca que a China parte para estas negociações de paz com uma experiência bem sucedida. “A reconciliação entre a Arábia Saudita e o Irão, sob a mediação da China, não só trouxe grandes benefícios para a manutenção da paz e estabilidade no Médio Oriente, como também constituiu um exemplo de resolução de divergências e diferenças entre países através do diálogo e consulta.”

Segundo Rachman, até a atitude norte-americana perante a iniciativa de paz chinesa mudou. “Dada a crescente rivalidade entre Washington e Pequim, poderíamos esperar que os EUA tivessem uma visão negativa do envolvimento da China na Ucrânia (…). O Governo de Biden decidiu não descartar a iniciativa de paz chinesa de imediato, mas sim tentar moldá-la. Os americanos entendem os perigos de parecerem ‘antipaz’. Mas não é só isso. Os EUA também estão cada vez mais interessados em encontrar uma maneira de acabar com a guerra da Ucrânia. Washington sabe que quanto mais tempo o conflito durar mais difícil será manter o consenso ocidental de despejar milhões na Ucrânia em apoio militar e económico.”

Antes da paz, uma contraofensiva

Não obstante, “a perspetiva de uma paz imediata parece fraca. É altamente improvável”, considera Roberts. O ministro da Defesa da Ucrânia, Oleksii Reznikov, confirmou a 7 de maio, em Atenas, que o exército ucraniano está a preparar-se para uma contra-ofensiva contra as forças russas, embora não tenha revelado detalhes sobre a operação.

“A Ucrânia está prestes a lançar uma nova ofensiva na Primavera, na esperança de expulsar a Rússia de grande parte dos territórios ocupados. Enquanto isso, a Rússia tenciona manter e anexar formalmente o máximo de território ucraniano que puder”, analisa Roberts.

“O resultado mais provável é que a Ucrânia fortaleça a sua posição no campo de batalha antes das negociações de paz”, entende Rachman. Roberts tem outra visão, e que revela o quão difícil poderá ser o processo de paz. “Para que a guerra termine, ou um dos lados é tão bem sucedido que o outro conclui que a vitória era impossível; ou ambos convencem-se que a guerra está num impasse e nenhum deles pode vencer.”

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