“Se conseguir travar a guerra com diálogo, ganhará pontos aos EUA no mundo da geopolítica”

por Gonçalo Lopes
Gonçalo Francisco

Volodymyr Zelensky e Xi Jinping, presidentes da Ucrânia e China, respetivamente, falaram pelo telefone na semana passada. O principal (e possivelmente) assunto discutido foi a guerra, a invasão russa à Ucrânia. O líder chinês garantiu ao seu homólogo que está pela paz, apesar da estreita relação com Vladimir Putin, o homem que ordenou esta guerra, que implodiu em 2022. Xi Jinping poderá agora ter um papel determinante no desfecho deste conflito, mas as suas ações poderão ir muito mais longe, nomeadamente reparar a imagem da China pelo mundo fora.

Até ao momento, Xi Jinping nunca tomou partidos desta guerra, nem sequer a apelidou de guerra. Sempre mencionou a necessidade da paz, é certo, mas nunca criticou, por exemplo, as opções que Vladimir Putin tomou no último ano. Tudo isto tem levado a críticas por parte das principais nações mundiais, quase todas elas do lado da Ucrânia. Agora, contudo, tudo poderá mudar.

“É uma conversa que peca por tardia. Xi Jinping já deveria ter tomado esta posição há muitos meses, muita coisa poderia ter sido evitada. A China sabe-o, tem um papel muito importante na política mundial, nas decisões mundiais, a todos os níveis. É tarde, sim, mas é verdade também que continua a ser, provavelmente, a nação que mais facilmente poderá levar a um entendimento entre a Ucrânia e a Rússia”, começa por revelar ao PLATAFORMA Carlos Rodrigues, especialista português em Ciência Política.

Em março último, Xi Jinping esteve em visita oficial à Rússia, onde se reuniu com Vladimir Putin. Entre muitos acordos assinados, o Presidente da China apresentou a Putin um plano de paz para a guerra na Ucrânia que tem 12 pontos e sugere negociações de paz e respeito à soberania nacional, embora não contenha propostas específicas.

Este plano, diz Carlos Rodrigues, foi o “pontapé de saída” chinês. “A China não quis tomar partido cedo na guerra e embora também não o tenha feito até ao momento, Xi Jinping também sabe que a guerra prejudica economicamente o seu país. São economias distintas, mas a China também sai prejudicada, ainda para mais sendo o país que mais tempo esteve fechado durante a pandemia de Covid-19. Nesse sentido, e com o prolongar da guerra, o líder chinês, e toda a sua estrutura do Partido Comunista, percebeu que tinha de tomar medidas. Ninguém é parvo ao ponto de pensar que Xi Jinping foi à Rússia apenas para assinar acordos comerciais ou eventualmente para se colocar do lado de Vladimir Putin. Xi Jinping foi à Rússia para demonstrar ao seu homólogo russo que a guerra dura há já bastante tempo, daí o seu plano de paz”, salienta o especialista, dando a sua visão desta visita.

A imagem que temos dos EUA é uma nação aliada que fornece armas, que continua a instigar o confronto. A China poderá fazer o contrário, apelar apenas ao diálogo, pois jamais irá fornecer armas à Rússia, ou à Ucrânia

“Certamente explicou a Putin tudo o que pode acontecer daqui para a frente, as sanções económicas vão piorar, vão prejudicar até os seus países aliados ou aqueles que nunca tomaram partido, como a China, as economias vão fcar mais fracas, etc. Difcilmente Xi Jinping fez um ultimato a Putin, nada disso, mas provavelmente Putin fcou a saber que a posição da China poderá um dia mudar e isso será trágico para a economia russa”, diz Carlos Rodrigues.

E o que esperar agora deste telefonema entre Xi Jinping e Volodymyr Zelensky? “Creio que a breve trecho não haverá grandes desenvolvimentos. Mas é óbvio que a guerra só acabará com diálogo e a China aqui será determinante, quiçá a única nação capaz de parar a guerra, intermediando, pode ser com outros países, claro, mas a China terá sempre de estar envolvida. Até porque, neste momento, também quer estar. Sabe que a imagem da China pelo mundo fora não é das mais positivas e se conseguir acabar com a guerra, tudo poderá mudar”, refere, comparando o papel da China e o dos EUA.

“Os EUA, até pela política histórica, sempre se iria colocar do lado da Ucrânia. A imagem que temos dos EUA é uma nação aliada que fornece armas, que continua a instigar o confronto. A China poderá fazer o contrário, apelar apenas ao diálogo, pois jamais irá fornecer armas à Rússia, ou à Ucrânia. Se conseguir travar a guerra com diálogo, ganhará pontos aos EUA no mundo da geopolítica, não tenho dúvidas. É uma arma poderosa que a China tem nas mãos, resta saber se a usará, se continuará a insistir tanto com a Rússia, como com a Ucrânia”, afrma Carlos Rodrigues, antes de concluir com a sua visão de como a guerra poderá acabar via diálogo.

“A China apresentou um plano de paz aos dois países, mas não pode estar sozinha nisto, para a guerra acabar mais cedo. Há orgulhos políticos, sempre houve, mas a China deveria chamar para a mesa das negociações outros países. A ideia que Lula da Silva deu é muito boa, a criação de um grupo de paz, de países. Penso que isso seria o ideal.”

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