“Procuro olhar para os emigrantes e comunidades, incluindo os de Macau, e perceber que mais-valias trazem” - Plataforma Media

“Procuro olhar para os emigrantes e comunidades, incluindo os de Macau, e perceber que mais-valias trazem”

A geografia lusófona volta a ser o tema do mais recente livro do historiador Daniel Bastos. “Comunidades, Emigração e Lusofonia” reúne cerca de centena e meia de crónicas que o português publicou nos últimos anos. Bastos – também consultor do Museu das Migrações e das Comunidades, e da rede museológica virtual das comunidades portuguesas -, acaba de publicar a segunda edição depois de esgotar a primeira. Ao PLATAFORMA, o escritor e professor defende que na Lusofonia não há primeiros e segundos. “Todos os membros a encaram como um espaço de oportunidades”, afirma

  • Porquê a publicação deste livro agora?

Daniel Bastos – O intuito é dar a conhecer outra versão da emigração portuguesa além da de sucesso, muito badalada, a dos empresários portugueses que constroem verdadeiros impérios. Quis dar visibilidade ao que se agudizou com a pandemia: encerramento de associações; desemprego e precariedade a que muitos portugueses ficaram sujeitos; histórias de emigrantes dos anos 60 que ficaram em situações de fragilidade por doença e falta de retaguarda familiar, etc. A comunidade portuguesa na Venezuela é um bom exemplo. Parte significativa do meio milhão que lá está, atravessa carências de caráter alimentar devido à hiperinflação. Quis promover e dignificar as comunidades portuguesas, às vezes esquecidas no território nacional.

  • É autor de outros livros que retratam a história da emigração portuguesa. Há um perfil?

D. B.- Não há propriamente um perfil. O que estava associado aos anos 60/70, alterou-se completamente nas últimas décadas. O que há de facto é uma constância nos motivos que levam à saída, muito provocada pelas crises económicas e falta de rendimentos. É um país com crises cíclicas e estruturantes, que impedem os que querem de permanecer.

  • Mas, houve mudanças.

D. B. – Nos últimos anos, enraizou-se a ideia de que só os jovens e gente qualificada emigram. Em parte é verdade, fruto do 25 de Abril e da crescente escolaridade. No entanto, continuam a sair portugueses que não têm esse nível de qualificações, e que são tão ou mais importantes. Continua a haver quem saia para trabalhar na construção civil, restauração e agricultura.

  • No que respeita à Ásia, e especifica- mente a Macau, há um perfil?

D. B. – Não tenho dados, mas tenho a noção de que a comunidade portuguesa em Macau é diferente. Há muitos portugueses ligados ao ensino e outras áreas, diferente do perfil que nos anos 60/70 emigrou para a Europa.

  • Como explica que Portugal não consiga criar condições para manter quem quer ficar?

D. B. – É uma consequência das necessidades estruturais do país, e das opções dos agentes políticos e económicos. Contudo, e embora inseridos na União Europeia, a nossa economia não se compara às restantes. Importa também ressalvar que Portugal já não é só um país tradicionalmente de emigração.

  • Mas, também de imigração?

D. B. – Nas últimas décadas, o país também tem tido a capacidade de atrair imigrantes. Basta ver a presença da comunidade brasileira em Portugal. Temos mais de 200 mil. É a comunidade maior e que dá um contributo muito importante em áreas que Portugal tem de prestar atenção como o envelhecimento da população, a sustentabilidade da segurança social e a renovação das gerações. Enquanto país, temos de procurar ter a capacidade de manter o máximo possível os jovens que queiram ficar – sobretudo a população ativa que é a que mais emigra -, mas também de atrair os que de fora olham para Portugal como um país de oportunidades.

  • Também se tem verificado uma significativa imigração chinesa. O que atrai esta comunidade?

D. B. – No que respeita ao mundo lusófono, incluindo o Brasil, a questão linguística tem obviamente influência. Claro que esta imigração também é motivada pela instabilidade económica e política que atravessam, e a insegurança. Ao nível dos imigrantes asiáticos, nota-se um aumento. O caso dos nepaleses é flagrante cuja mão-de-obra é fundamental por exemplo na zona do Alentejo para a agricultura. É um recurso importante que vários empresários portugueses têm aproveitado, até pela escassez de mão-de-obra local que prefere outros destinos, como a Suíça, por ser mais bem remunerada. Aliás, este volume de imigração conduziu inclusive e em boa hora a que se descobrisse que havia situações de exploração.

  • E a comunidade chinesa?

D. B. – A comunidade chinesa está muito inserida sobretudo nas áreas da restauração e da hotelaria. A qualidade de vida, o clima, a pacatez e a oportunidade de trabalhar nestas áreas ligadas ao comércio, os acordos e as boas relações entre Portugal e China têm contribuído para a presença crescente. Também veem Portugal como uma via de entrada para a Europa.

  • É uma comunidade com um perfil distinto, por exemplo por raramente trabalhar para terceiros e criar os próprios postos de trabalho.

D. B. – Apesar desses espaços serem propriedades de chineses, acabam por criar postos de emprego a nacionais. Em Portugal, julgo não haver uma postura de condenação por haver investimento e não se sentir que há retorno. No geral, com exceção dessas situações de exploração que mencionei, somos um país que sabe acolher. Apesar do discurso carregado de xenofobia também se sentir em Portugal, creio que a sociedade em geral reconhece o contributo das comunidades imigrantes.

  • No que respeita aos portugueses em Macau, tem-se registado uma saída abrupta nos últimos dois anos. Como avalia este êxodo?

D. B. – Tenho acompanhado esse fenómeno. Não tenho grandes dados, mas creio dever-se à influência do que se passou em Hong Kong e a pandemia não ajudou. A forma de ataque ao vírus foi mais agressiva, e se calhar com uma certa lógica. Aqui fomos mais brandos e pagamos com os números. Mas, enquanto que aqui já ninguém usa máscara – para o bem e para o mal -, na China ainda continuam com os grandes confinamentos.

  • Num resumo sobre o livro, refere-se que “emanando do legado histórico português, antevê os emigrantes como argonautas indispensáveis ao desígnio nacional de desbravar os mares desconhecidos do futuro”. Não é uma visão um pouco anacrónica?

D. B. – O que pretendo é olhar para os nossos emigrantes como se fossem os descobridores da atualidade – e com isto não estou a branquear nada do processo português de colonialismo e de exploração, pelo contrário. O que procuro é olhar para os emigrantes e comunidades que estão espalhados, incluindo os de Macau, e perceber as mais-valias que trazem. Por exemplo, olho para Macau e um dos aspetos que mais me chama a atenção, apesar das dificuldades que atravessa, é a Livraria Portuguesa.

Apresentação do novo livro de Daniel Bastos no Porto.
  • A que se refere?

D. B. – Porque não há livrarias noutras comunidades, incluindo nas que são mais numerosas como acontece nos Estados Unidos, no Canadá e até em Bruxelas, onde já houve. Os nossos emigrantes e comunidades são os embaixadores mais genuínos que temos. Portugal é pequeno, mas se pensamos nas comunidades, são cerca de sete milhões de portugueses espalhados pelo mundo. Ganhamos ainda mais escala com o mundo lusófono. Basta pensar que o secretário-geral das Nações Unidas é português.

  • Encara “a Lusofonia como um espaço indispensável para a afirmação de Portugal”. Há primeiros e segundos?

D. B. – Acho que todos os membros encaram a Lusofonia como um espaço de oportunidades. Portugal deve caminhar para uma maior otimização desse contexto e do que oferece. Entre outras prioridades, deve trabalhar-se para a livre circulação de pessoas e mercadorias. Se não tivermos a capacidade de aproveitar estas oportunidades, vamos ficando cada vez mais para trás. Devemos olhar para o passado, respeitá-lo sem intenções de o mudar e com espírito crítico, mas pegar nessa História, projetar o futuro e ter uma voz ativa.

  • Há quase uma década que a China insiste que um dos desígnios de Macau é ser o intermediário entre o Continente e os países lusófonos. Como avalia esta aposta?

D. B. – É inteligente. Macau sempre se posicionou como a ponte entre o Ocidente e o Oriente. O número crescente de jovens chineses que aprendem português demonstra que há oportunidades tangíveis.

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