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“Foi nesta cidade fora do vulgar que decorreu a vida e a história de uma comunidade também fora do vulgar”

Plataforma - Macau

“Os Retornados de Xangai”, de António Caeiro, conta a história dos portugueses originários de Macau que se instalam na cidade no século XIX, constituindo aquela que chegou a ser a segunda maior comunidade estrangeira na Paris do Oriente. “A história é surpreendentemente desconhecida”, diz. O livro, que acaba de sair, pretende acabar com o silêncio sobre aqueles que foram os primeiros retornados portugueses

Como nasce a comunidade?

António Caeiro – É uma história surpreendentemente desconhecida. Chega em meados do século XIX, logo a seguir à Guerra do Ópio, e parte um século depois, após a proclamação da República Popular da China, em 1949. Depois dos ingleses, os primeiros estrangeiros a estabelecerem-se em Xangai foram os portugueses de Macau.

Era representativa?

A.C. – Até ao final do século XIX foi a segunda maior comunidade estrangeira de Xangai, logo a seguir aos ingleses. Durante o século XX, e no que respeita aos europeus, os portugueses só foram ultrapassados pelos russos brancos, fugidos da Revolução Bolchevique. Estamos a falar de três, quatro mil pessoas nascidas e criadas em Xangai.

Em que áreas se destacam?

A.C. – Havia muitos tipógrafos, um ofício no qual os portugueses davam cartas no Extremo-Oriente no século XIX e primeira metade do XX. Havia quase um monopólio de tipógrafos portugueses nos vários portos da China. Também havia secretários, intérpretes e contabilistas. Houve uma altura em que o Hong Kong Shanghai Bank, um
dos grandes bancos do mundo, só contratava portugueses. Em finais do século XIX, empregava cerca de cem.

Estavam estabelecidos e integrados, portanto.

A.C. – Depois da Guerra Civil chinesa, quando as empresas estrangeiras começam a sair do país, vão desaparecendo os postos de trabalho e assim os portugueses. Muitos ficaram em campos de refugiados em Macau. Grande parte já não tinha propriamente metrópole para onde regressar e Macau era demasiado pequena para os acolher. Acabam por se dispersar. Foram para a Austrália, Estados Unidos, Canadá. Alguns vieram para Portugal. Nesse aspeto, é uma comunidade singular.

Macau é a origem?

A.C. – A origem remota de quase todos é Macau, onde estavam desde o século XVII, XVIII. Muitos há várias gerações. Mas, a cidade era muito pequena. Os poucos empregos que havia eram na função pública e militares. Entretanto Hong Kong, em pequena escala, e Xangai, em grande escala, emergem como centros económicos. Xangai tornou-se rapidamente o maior porto do Extremo Oriente. Estes portugueses de Macau emigram e estabelecem-se. Tinham uma ligação a Macau e a Portugal bastante mítica, mas estavam integrados na sociedade xangainense, que nos anos 20, 30 era considerada a Paris do Oriente. Em 1930, o censo apurou 48 nacionalidades. Ainda não se falava de globalização. Os portugueses eram os sextos, a seguir aos japoneses, ingleses, russos, americanos e indianos.

Como permaneceu a comunidade desconhecida?

A.C. – Para mim também é surpreendente. Durante grande parte do século XX, vigorava a censura em Portugal e tão importante como impedir vozes dissonantes, era ocultar a verdadeira realidade. Para dar um exemplo, em 1927 há uma intervenção multinacional em Xangai porque se temia que houvesse uma guerra e que as concessões estrangeiras
fossem atacadas pelo novo Exército nacionalista chinês, comandado então por Chiang Kai-shek que viria depois a ser presidente. Portugal também participou. Nos jornais da altura, não há uma linha sobre isto.

Houve intenção de ocultar esta parte da História?

A.C. – Não creio. A comunidade até era bastante patriótica, mas o Império não fazia parte da vida quotidiana. Xangai era longe, e tinha um estatuto demasiado ambíguo e complexo. Nos anos 30, havia basicamente duas concessões estrangeiras: uma administrada pelos franceses e outra pelos ingleses, e os portugueses gozavam de direitos de
extraterritorialidade.

Ou seja, a relação com Portugal era inexistente.

A.C. – Havia uma ligação no sentido em que por exemplo existia um Consulado que esteve aberto até 1952, três anos já sob o regime da República Popular da China – e era importante, com um diplomata de carreira à frente. A outra relação com Portugal prendia-se com os direitos de extraterritorialidade, que levou à criação de um tribunal consular. Os casos mais graves eram julgados em Macau e, em última instância, remitidos para o Tribunal Superior em Goa, mas os portugueses estavam fora da alçada
dos tribunais chineses.

Era um grupo homogéneo?

A.C. – Havia de tudo. Havia uma pequena elite que tinha negócios próprios ligados à importação e exportação, e com os filhos na universidade. Mas a maioria eram empregados de escritório das grandes empresas estrangeiras. Falavam sobretudo em inglês. O português é que iam esquecendo. Isso também é singular. Era talvez a única comunidade que recorria a uma língua estrangeira para falar entre si.

O que quer dizer quando afirma que “não tinham metrópole para onde voltar”?

A.C. – Chamo-lhes retornados, mas a expressão não é minha, é do professor Jorge Forjaz. Ao contrário dos que vieram de África em ‘75 – que estavam nesses países há muito pouco tempo e vinham a Portugal -, os de Xangai estavam fora há mais de um século, nunca tinham ido ao país, não se escreviam com ninguém de cá e não sabiam sequer quem teria sido o primeiro antepassado a ir para o Oriente. A relação com o país era mítica.

Acabaram por se dispersar.

A.C. – Foram para todos os lados. O cônsul-geral de Portugal em Xangai chegou a propor que fossem colocados nas colónias africanas, assim como os jornais de Macau porque a região não podia acolher tanta gente. Estamos a falar de várias centenas. À medida que se iam abrindo quotas de emigração noutros países, iam partindo. Em finais dos anos 50, havia muito poucos refugiados de Xangai em Macau.

Volto à ideia, tendo em conta que a maioria não volta a Portugal porquê apelidá-los de ‘retornados’?

A.C. – Para eles o único retorno era Macau, mas que acaba por ser o início de uma nova diáspora tal como aconteceu com a emigração para a China. Digo que é o início de uma nova diáspora porque não tinham para onde regressar. Nem a palavra ‘retornados’ fazia parte do nosso vocabulário quando os primeiros chegaram.

Realça que a comunidade viveu “os efeitos da Guerra do Ópio, a queda de uma monarquia multimilenar, a ocupação japonesa, uma longa guerra civil, que terminou com a vitória do Partido Comunista em 1949, e que a seguir volta a partir”. De que forma estes momentos históricos levam a alterações no grupo?

A.C. – A China estava em convulsão, mas Xangai teve sempre um estatuto especial. Mesmo aquando da ocupação japonesa em ‘37-, as concessões internacionais escaparam e tudo continuou mais ou menos na mesma. A grande mudança foi em dezembro de 1941 – quando os japoneses bombardeiam o Pearl Harbor, é declarada guerra e o Japão ocupa as concessões internacionais em Xangai.

O que sucede aos portugueses?

A.C. – Não foram muito incomodados porque Portugal era neutral, ainda que não escondesse a simpatia pelos países do Eixo. Muitos saíram. No entanto, e mesmo antes do fim da guerra, vários regressam. Xangai era Xangai e a China, em ‘45, era um dos grandes do mundo. Havia um sentimento de expectativa e de esperança que durou pouco porque recomeça a guerra civil. Em finais de ‘48, a derrota dos nacionalistas e o avanço dos comunistas fez com que os portugueses voltassem a partir.

Diz que “contribuíram para transformar a cidade numa grande metrópole internacional e que ajudaram a perpetuar o fascínio em torno da mítica Xangai dos anos 20 e 30”. Como?

A.C. – Uma das figuras que destaco é China Machado – a primeira não caucasiana a figurar nas capas de revistas de moda e a triunfar nas passerelles internacionais. A identidade híbrida destas pessoas remete para esse passado mítico de Xangai, e de como era a cidade nos anos 20 e 30.

Tem vários livros publicados, maioritariamente sobre a China. Vai continuar a ser tema?

A.C. – Não tenho nada em concreto, mas tenho pressentimentos. Tendo vivido lá 20 anos e sendo um país cada vez mais relevante é natural que venha a acontecer. O conhecimento sobre o país não é muito apesar de gerações de diplomatas. Vários realçam isso. O testemunho de um deles, Luís Esteve Fernandes, destacado para Pequim em 1925, dizia: “Em Portugal, aludia-se à China como uma coisa irreal embelezada pela distância que ninguém prestava atenção”. Hoje não diria que a China é embelezada. Pelo contrário. Mas o conhecimento efetivo também deixa muito a desejar. Ainda agora se continuam a citar mais sinólogos estrangeiros sobre a China do que autores chineses.

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