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Projeto luso-timorense para salvar o café mundial

António Sampaio

Investigadores e técnicos portugueses e timorenses estão a trabalhar para identificar variedades de plantas de café que possam, como ocorreu no início do século XX, aumentar a produção e combater o maior problema do setor: a ferrugem alaranjada

“O objetivo é identificar plantas promissoras de plantações existentes que, estando ao lado de outras com sintomas graves da doença e que produzem pouco, se mostram saudáveis e produtivas”, explicou à Lusa Hugo Trindade, coordenador da Quinta Portugal, projeto financiado pela cooperação portuguesa e que lidera o projeto.

As plantas mais promissoras serão marcadas, isoladas e depois verificadas, procurando identificar se se mantém produtivas e saudáveis.

Caso isso ocorra, estima Trindade, não só a produção timorense pode aumentar significativamente, duplicando em cinco anos, como pode encontrar-se uma nova solução para um problema global.

Os trabalhos vão ser desenvolvidos no âmbito de um novo protocolo de cooperação técnico-científica no setor agrícola, assinado esta semana pelo embaixador de Portugal, José Pedro Machado Vieira, e pelo ministro da Agricultura e Pescas timorense, Pedro dos Reis.

O protocolo envolve a Quinta Portugal, que nasceu em 2000 e é o maior projeto de cooperação bilateral portuguesa no setor da agricultura em Timor-Leste, sendo atualmente financiado pelo Camões, IP e implementado em parceria com o MAP, e ainda o Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro (CIFC) do Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa.

Na prática, pretende “reatar e aprofundar o trabalho, iniciado entre 2009 e 2012, de caracterização e estudo das raças de ferrugem do cafeeiro existentes em Timor-Leste e a identificação de plantas promissoras para a criação de novas variedades de cafeeiro Arábica resistentes à doença”.

A história remonta ao início do século XX e a investigações levadas a cabo pelo Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro (CIFC), na altura integrado na entretanto extinta Junta de Investigações Científicas do Ultramar e posteriormente no Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa.

Essas primeiras investigações procuraram responder ao maior problema que afeta a produção mundial de café, a ferrugem alaranjada, a doença mais importante do cafeeiro Arábica, que pode causar perdas de produção superiores a 30%.

Causada pelo fungo ‘Hemileia vastatrix’, a doença infeta as folhas do cafeeiro, formando pústulas de soros uredospóricos de cor alaranjada, o que pode provocar a queda prematura das folhas e enfraquecer a planta.

Especialistas notam que as raças fisiológicas da doença identificadas em Timor-Leste estão caracterizadas pelo CIFC como “das mais virulentas de todo o mundo”.

Em 1927, a descoberta numa plantação em Timor-Leste, na região de Ermera, a sul de Díli, levaria a uma das maiores revoluções nos programas mundiais de melhoramento genético do cafeeiro arábica.

A planta, um híbrido natural entre Arábica e Robusta, com resistência à ferrugem, mas com muito pouca produção, acabaria por se tornar a variedade dominante em Timor-Leste e, depois do seu estudo pelo CIFC a partir de 1957, chegaria a todo o mundo.

Foram feitos cruzamentos entre vários híbridos resistentes e cafeeiros de diferentes variedades comerciais, tais como a Caturra (proveniente do Brasil) e Villa Sarchi (proveniente da Costa Rica) que deram origem a populações de cafeeiros, conhecidas internacionalmente por “Catimor” e “Sarchimor”, que apresentam elevada resistência à ferrugem, excelente produção e boa qualidade de bebida.

Atualmente, cerca de 99% das variedades de cafeeiros tipo Arábica, com resistência à ferrugem, cultivadas em todo o mundo, têm como progenitor resistente o Híbrido de Timor (HDT).

“O Híbrido resolveu um problema grande em todo o mundo. Os outros países desenvolveram programas e melhoraram as suas produções usando o híbrido como progenitor, o que deu um gene de resistência”, explicou Trindade.

“Mas em Timor-Leste os trabalhos de melhoramento nunca foram desenvolvidos e ainda que o potencial do híbrido se mantenha, é necessário é que o país desenvolva e faça esse melhoramento”, explicou.

O objetivo é ajudar a encontrar uma variedade que tenha o híbrido como progenitor, o que dá o gene da resistência, mas depois adotar melhorias na produção, na gestão das próprias plantações.

“No início do século XX os cafezais estavam muito atacados e surpreendentemente em Ermera viu-se que havia uma planta ao lado de outras infetadas, que continuava saudável. Responsáveis da plantação começaram a fazer viveiros dessas sementes, 30 anos depois começaram a distribuir e hoje em dia a grande maioria das plantas que existem em Timor-Leste são derivadas do híbrido”, explica.

Noutros países, houve cruzamento desse híbrido com outras variedades mais produtivas, e em Timor-Leste, se uma nova variedade for encontrada e se houver melhorias na gestão das plantações, a produção pode aumentar significativamente.

“É como se fosse um híbrido 2.0. Se aconteceu uma vez pode ter acontecido mais vezes e isso pode ser útil para outros países. Os cafeeiros já não são resistentes a todas as raças da ferrugem e há três raças, identificadas em Timor-Leste com a cooperação portuguesa, que são tão virulentas que podiam dar cabo do café mundial”, admite Hugo Trindade.

A descoberta de novas variedades resistentes em Timor-Leste pode ajudar, tal como o fez no passado, a reescrever a história da produção mundial, o que se afigura de especial importância perante a crescente preocupação com a perda de resistência à doença.

Christophe Montagnon, diretor científico da World Coffee Research (WRC), uma das principais organizações de investigação sobre café, alertou em 2018 para o facto de o café mundial estar a perder rapidamente a sua resistência à doença da ferrugem.

Algumas variedades até aqui consideradas resistentes podem perder essa capacidade dentro de cinco a dez anos.

A nova fase de investigação, envolvendo técnicos timorenses do Ministério da Agricultura e Pescas, em colaboração como o CIFC e a Quinta Portugal, pretende conhecer melhor a doença e as principais raças existentes no território de Timor-Leste e, além disso, ajudar a identificar plantas produtivas e resistentes à doença.

Estas melhorias, a par da adoção de melhores técnicas de gestão das plantações (podas, adubações, etc) são consideradas “estratégias fundamentais para o desenvolvimento da cafeicultura em Timor-Leste”, explicam os responsáveis do projeto.

Melhorias essenciais para um país em que uma fatia significativa das famílias que dependem diretamente da produção do café continuam a viver no limiar da pobreza.

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