Pescadores querem levar turistas a mergulhar com tartarugas

Pescadores querem levar turistas a mergulhar com tartarugas

O objetivo é que esta atividade possa transformar-se numa alternativa de sustento para os pescadores locais “quando o mar não estiver para peixe”. Ambientalistas defendem ainda que o turismo pode ajudar a preservar os animais

As tartarugas e os seus mergulhos com os turistas mudaram nos últimos anos a localidade piscatória de São Pedro, na ilha cabo-verdiana de São Vicente. Uma atividade que os pescadores querem desenvolver, após a paragem forçada pela pandemia.

O presidente da Associação de Pescadores de São Pedro, Luís Andrade, recordou em entrevista à Lusa, que as tartarugas que transformaram as águas azul-turquesa da vila moradas permanentes, acabaram por levar o turismo até aquela localidade e, até à pandemia de covid-19, o número de visitantes para mergulhar com a tartarugas crescia num ritmo acelerado.

Após uma paragem de mais de um ano, com o regresso dos turistas locais e internacionais à praia, Luís Andrade defende que é altura de organizar o negócio do mergulho com as tartarugas, para que seja mais sustentável e os moradores de São Pedro beneficiem de igual forma.

“São poucos os pescadores que conseguem ganhar com o serviço de transporte de turistas para o mar, para mergulharem com as tartarugas. Temos recebido reclamações de alguns pescadores sobre a falta de organização e já que todos nós trabalhamos na sensibilização para a proteção das tartarugas, deveríamos ser também todos beneficiados”, explicou Luís Andrade, que assegura que o negócio tem sido rentável para os poucos que têm explorado aquele serviço.

Garantiu, ainda, que a associação está a estudar formas para que todos os pescadores e a comunidade de São Pedro possam tirar mais dividendos de um serviço turístico que chega a render até 50 euros.

“Os turistas nacionais pagam 1.500 escudos [13,5 euros], por pessoa, para serem levados de bote até ao local onde podem ter contacto com as tartarugas, e os internacionais chegam a pagar até 50 euros, por exemplo nos hotéis que oferecem serviços de mergulho. Há necessidade de criar um roteiro, gerido por exemplo pela associação dos pescadores, com mais ofertas turísticas criadas pelos moradores”, sugeriu.

Para o dirigente, esta atividade pode transformar-se numa alternativa de sustento para os pescadores locais “quando o mar não estiver para peixe”.

Mas não são só os turistas que aparecem naquele mar paradisíaco, por causa das tartarugas. O aparecimento de tubarões naquela baía tornou-se constante, mas nada que alarme.

“Estamos em mar aberto e há sempre a presença de tubarões. Sabemos que onde há tartarugas, há tubarões, porque fazem parte da sua dieta, mas os que têm aparecido são os de casa, não incomodam ninguém e não atacam”, garante Luís Andrade.

Na década de oitenta o consumo das tartarugas quase fez desaparecer a espécie de São Pedro. No entanto, com a proibição do consumo e campanhas de sensibilização da importância destas espécies, as tartarugas voltaram à praia com algum apoio humano.

“Passámos a alimentá-las com isca, a cuidar dos ninhos e a protegê-las, quando vimos já eram muitos na praia”, explicou.

Com a permanência das tartarugas e os atrativos desta extensa praia de areia branca, vizinha do Aeroporto Internacional Cesária Évora, a associação de pescadores defende que têm possibilidade de transformar a localidade num grande destino turístico nacional.

Cabo Verde tornou-se em 2020 no segundo ponto mais importante de desova de tartarugas marinhas, com um número recorde de ninhos de quase 200.000, segundo números divulgados em março passado pelo ministro do Ambiente, Gilberto Silva.

De acordo com o responsável governamental, Cabo Verde viu o total de 10.725 ninhos de tartarugas identificados no arquipélago em 2015 aumentar para 198.787 ninhos em 2020, “quase 19 vezes mais”.

“Cabo Verde passou a ser o segundo ponto mais importante da desova de tartarugas marinhas no mundo”, afirmou o governante.

“Com a educação ambiental, vigia de mais de 180 quilómetros de praias e aplicação da nova legislação que criminaliza a caça e o consumo das tartarugas, a taxa de captura diminuiu significativamente, de 8,25 por cento em 2015 para 1,54 por cento em 2020”, acrescentou.

Turismo pode ajudar a preservar tartarugas

A organização ambientalista Biosfera também apoia as atividades turísticas de observação das tartarugas em São Pedro, disponibilizando um manual para que as atividades sejam desenvolvidas de forma segura, mas pedem regulamentação para replicar este projeto.

De acordo com o presidente da Biosfera, Tommy Melo, a comunidade daquela vila piscatória conseguiu aproveitar a oportunidade da presença das tartarugas na zona e, sendo “pioneira, garantiu a conquista de turistas bem como uma preservação da espécie bem-sucedida”.

As espécies identificadas pela organização naquelas águas são provenientes de diferentes locais da costa africana e utilizam as águas de Cabo Verde para amadurecerem e depois se reproduzirem, antes da viagem de regresso. Nesse sentido, a Biosfera tem tentado que a prática de mergulho com as tartarugas se torne uma atividade  sustentável noutras regiões do arquipélago.

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