Responsáveis timorenses preocupados com comportamento de Xanana

Responsáveis timorenses preocupados com comportamento de Xanana

Vários responsáveis timorenses manifestaram hoje preocupação com o comportamento do líder histórico Xanana Gusmão, depois de imagens divulgadas nas redes sociais em que aparece sem máscara e em grandes concentrações de pessoas

Durante as últimas semanas, o antigo Presidente timorense tem sido filmado em várias ocasiões em bairros de Díli, onde está em vigor uma cerca sanitária e confinamento domiciliário obrigatório.

Os vídeos mais recentes, divulgados no domingo por dois jornalistas timorenses, tornaram-se virais, com centenas de partilhas tanto no Facebook como no WhatsApp, suscitando um artigo crítico no jornal Tempo Timor.

“Xanana Gusmão ‘goza’ com a PNTL [Polícia Nacional de Timor-Leste] e contra o confinamento obrigatório”, refere o título da notícia, que lembra que a polícia timorense tem detido várias pessoas, timorenses e estrangeiros, pelo não cumprimento das medidas do confinamento domiciliário obrigatório.

Até ao momento, não foi possível à Lusa obter um comentário de Xanana Gusmão.

Sobre os vídeos, o ministro da Presidência do Conselho de Ministros, Fidelis Magalhães, disse à Lusa que o combate deve ser de todos e que, no caso de Timor-Leste, e dadas as fraquezas do sistema de saúde, as melhores medidas são as preventivas.

“Em todo o lado do mundo temos medidas, temos níveis de cumprimento há sempre pessoas que discordam das medidas e atuam e agem de forma diferente. O Governo faz todo o esforço para que as regras sejam cumpridas pelos cidadãos”, frisou.

Para Magalhães, todos devem assumir a sua responsabilidade: “os líderes nacionais [timorenses] devem saber que têm a sua parte de responsabilidade, sem precisar de uma intervenção de uma outra entidade. São líderes que devem saber o que seria melhor para o cidadão”.

O responsável lembrou que o país está a enfrentar “uma situação bastante difícil”, que o problema é comum a vários países e o combate tem de ser feito “em conjunto” por todos os cidadãos.

“A preocupação é não só travar de forma imediata o vírus, mas temos que pensar na capacidade que temos e evitar inundar o SNS [Serviço Nacional de Saúde timorense] que continua a ser frágil. O maior esforço possível é evitar o aumento da infeção para depois não quebrar o sistema de saúde”, disse.

“Há muitos países com sistemas mais desenvolvidos que estão a enfrentar esse desafio. Nós, com poucos recursos, a melhor aposta é mesmo nas medidas preventivas”, disse.

Também o “número dois” da Sala de Situação do Centro Integrado de Gestão de Crise (CIGC) timorense, comodoro Pedro Klamar Fuik, disse que é importante garantir o cumprimento das medidas, ainda que seja necessário garantir proximidade e apoio aos cidadãos.

“O Estado, consoante o seu mandato para preservar a existência ou salvaguardar a continuação do bem-estar dos cidadãos, inclusivamente da sua saúde, tem que estabelecer as regras necessárias”, sublinhou.

Xanana Gusmão, “como cidadão, como fundador da nação, como pai deste país, naturalmente que tem outra forma de ver, como abraçar esta situação”, talvez “num manifesto de carinho” para a população que está a atravessar condições difíceis, considerou.

“Mas consoante as regas estabelecidas pelo Estado, isso é contraditório, porque não permite aglomeração das pessoas. Nesta situação, como cidadão, vejo as coisas nos dois sentidos, dependendo da consciência de cada um”, afirmou.

“A saúde pública depende da consciência de toda a gente, independente de quem quer que seja. A saúde publica pertence a todos. É uma questão de ver as vantagens em conjugar essa energia. A população precisa de carinho, mas também precisa de cumprir as regras, combinar todos os recursos para enfrentar este caso nacional”, considerou.

José Ramos-Horta, também líder histórico timorense, disse à Lusa que as imagens podem ter “impacto na medida em que é a figura mais influente no país. Muita gente acredita piamente no que ele diz e no que ele faz. E obviamente pode influenciar o comportamento dos cidadãos”.

“Há evidência das consequências desta pandemia no mundo. Preocupa-me que Xanana, pela sua idade e pela sua indispensabilidade para este país, se exponha ao risco de vir a ser contagiado”, considerou o antigo Presidente timorense.

Ramos-Horta, que normalmente passa grande parte do seu tempo em contacto direto com a população, disse estar agora a sair de casa “muito raramente” apenas para compras ou para alguma “visita indispensável (…) mantendo sempre o distanciamento físico e exigindo que todos usem máscara”.

Timor-Leste tem atualmente 206 casos ativos da covid-19, o número mais elevado desde o início da pandemia.

No domingo, em que se assinalou o aniversário da primeira infeção no país, as autoridades anunciaram 55 novos casos em 24 horas, dos quais 43 em Díli.

O país tem atualmente quatro cercas sanitárias em vigor e confinamento obrigatório nos municípios de Dili, Baucau e Viqueque.

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 2.710.382 mortos no mundo, resultantes de mais de 122,7 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Em Portugal, morreram 16.768 pessoas dos 817.530 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China. 

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