Timor-Leste vive pior semana desde início da pandemia

Timor-Leste vive pior semana desde início da pandemia

Timor-Leste está a viver a pior semana da pandemia da covid-19 desde que começou há um ano, com o maior número de casos ativos (76) e pelo menos 14 focos da doença em Díli.

Desde segunda-feira o município está em confinamento obrigatório e a Sala de Situação do Centro Integrado de Gestão de Crise (CIGC) e o Governo têm liderado uma resposta em contrarrelógio de identificação de casos – 47 numa semana – e de rastreio de contactos.

Uma situação dificultada pelos inúmeros contactos que muitos dos casos positivos têm, especialmente por vários serem funcionários públicos, mas também pelas condições de vida de muitos dos habitante, com um grande número de pessoas a viver em casas ou ‘comunidades’ e bairros onde o distanciamento social e as condições de higiene, sobretudo o acesso a água, são deficitárias ou, em alguns casos, inexistentes.

As equipas de vigilância epidemiológica e do Laboratório Nacional foram reforçadas, mas não chegam para as encomendas, como explicaram à Lusa enfermeiros envolvidos no processo, conseguindo ainda assim recolher entre 400 e 700 amostras por dia.

Ao mesmo tempo, responsáveis de saúde estão a responder a vários temas urgentes e a planear o que deve ser feito a seguir, com reuniões sucessivas hoje e nos últimos dias.

O resultado será uma apresentação a fazer segunda-feira ao Conselho de Ministros que, em termos gerais, e segundo fontes do CIGC, defenderá a extensão do atual confinamento obrigatório e cerca sanitária e, eventualmente, outras medidas a adotar a curto e médio prazo.

A decisão é do Governo, mas fontes do CIGC ouvidas pela Lusa admitem que é “inevitável” prolongar o confinamento, com propostas em cima da mesa que vão de mais uma semana até mais de três semanas.

O aumento de casos coloca, entre outras, a questão do isolamento profilático de doentes infetados. Para já os locais atualmente geridos pelo Governo são suficientes, e numa segunda fase poderá recorrer a hotéis, mas são necessárias soluções se os números aumentarem.

Fortalecer os recursos médicos, de consumíveis e de capacidade de resposta no terreno, é outra das dores de cabeça, especialmente porque, na prática, hoje, em Díli, e apesar da situação ser muito mais grave que em março de 2020, o medo parece ser menor.

O contraste com a situação de há um ano é evidente no comportamento dos habitantes de Díli, afetado tanto por perceções de risco como por questões e ‘nuances’ mais profundas que incluem a ideia de que o ‘Lulik’, o sagrado em Timor-Leste, protege o país.

Ideia que se consolidou porque, felizmente, o país não teve até agora qualquer caso moderado, grave ou óbito, devido à doença – pelo menos que as autoridades tenham registado – e porque os casos identificados até aqui foram, maioritariamente, entre pessoas vindas do exterior e em quarentena. Quase todos assintomáticos ou com sintomas ligeiros.

No final de março de 2020, quando o país entrou pela primeira vez num período de 30 dias de estado de emergência – está hoje no 11º período – e havia apenas um caso, Díli ficou praticamente deserta e mesmo sem confinamento a maior parte das lojas fecharam e a população ‘desapareceu’, ou para os distritos ou ficando em casa.

A capital, em alguns momentos, chegava a parecer uma cidade-fantasma, cenário que, ironicamente contrasta com a situação atual onde tudo indica haver transmissão comunitária e há quase 50 casos confirmados em Díli só numa semana.

O movimento em Díli está mais reduzido, mas há trânsito, pessoas aglomeradas em vários locais, muitos sem máscara, e evidentes violações ao confinamento obrigatório.

O medo de não ter condições económicas para viver – muitos vivem de dia para dia com algum dinheiro que ganham em quiosques, vendas ambulantes ou outras – potencialmente fala mais alto do que o medo da covid-19.

As carências crónicas de recursos humanos, técnicos e logísticos do país – ainda que ligeiramente melhoradas em alguns aspetos nos últimos meses – continuam a evidenciar-se, agravadas pelas restrições do confinamento e por permanecerem dúvidas e contradições nas medidas em vigor.

Por resolver de forma definitiva e ‘normalizada’ está a questão de abastecimento de produtos frescos a Díli e a saída de Díli de outros produtos (a maioria importados através do Porto de Díli ou em armazéns de fornecedores na capital) para outros municípios.

Dúvidas sobre as autorizações, sobre a operacionalidade dos movimentos nos dois sentidos evidenciaram-se durante toda a semana, apesar de serem apontadas soluções como transbordo ou troca de motorista e ajudantes nas zonas de limites da cerca.

Até agora o Governo ainda só criou um corredor de circulação, de e para oeste da capital, mas há que definir esses corredores para sul e para leste e, igualmente, um marítimo para assegurar fornecimentos essenciais ao enclave de Oecusse e à ilha de Ataúro.

Cronicamente deficitária em termos de fornecimentos da capital, Ataúro já estava com dificuldades, por exemplo, no acesso a combustível, com o fornecimento elétrico reduzido a três ou quatro horas e sem calendário para quando novo abastecimento será realizado.

Apesar de vários despachos do Governo, algumas medidas estão a causar confusões entre os cidadãos e as empresas, já que o decreto que define que lojas podem estar abertas e como, apenas foi publicado na sexta-feira, quatro dias depois do início do confinamento.

Os mercados municipais, por exemplo, onde as condições sanitárias são deficitárias – grande aglomeração de pessoas, uso inadequado de máscaras e higienização das mãos – podem operar num horário mais reduzido, mas restaurantes, incluindo de hotéis, não podem servir refeições, mesmo que respeitando critérios sanitários mais apertados, ficando limitados a ‘take-away’ ou entregas.

No despacho também se refere que os bancos podem estar abertos ao público, decisão que vai contra a ordem dada no início da semana pelo Banco Central de Timor-Leste (BCTL), que determinou o fecho do atendimento ao público.

A situação limita o acesso de muita população, que necessita do atendimento ao público, para receber pensões por exemplo, mas não tem cartões de multibanco, bem como de empresas que precisam de pagar taxas, por exemplo, para desalfandegar produtos.

Oficialmente as Alfândegas anunciaram que os importadores poderiam deixar uma garantia para levantar contentores, mas importadores ouvidos pela Lusa dizem que, em várias ocasiões, não há funcionários disponíveis nos serviços.

Nenhum dos documentos, por exemplo, define em termos numéricos, o que significa “aglomeração”, e há interpretações diversas sobre aspetos como o exercício individual – atividade desportivas coletivas estão expressamente proibidas.

Ajustes a uma realidade que dura há menos de uma semana, sem fim à vista e que o Governo deve decidir ampliar na próxima semana.

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