A cidade e as árvores

A cidade e as árvores

Este ano marca o 40º aniversário da iniciativa Semana Verde em Macau. Com o tema “Transmissão do amor pela arborização para a construção de uma bela cidade”, o Instituto para os Assuntos Municipais está a preparar uma série de atividades, incluindo plantação de árvores e workshops. Ao longo destes 40 anos Macau tem evoluído em matéria de sensibilidade ecológica e proteção do ambiente. Muitos acreditam que, além do simples gesto de plantar uma árvore nos parques ou pelas diferentes zonas e ruas da cidade, o Governo deve também dedicar-se ao planeamento e gestão da proteção ambiental de todo o território. O PLATAFORMA foi ouvir o que pensam cidadãos sobre como construir uma cidade verde.

Queenie: Espero ver novas árvores a crescer no bairro

Queenie é residente na zona norte da cidade. Com uma filha, afirma que não é verdade que seja fácil estar em contacto com a natureza em Macau, apesar da reduzida dimensão do território. Por ser uma península e com forte densidade populacional isso limita o espaço da cidade, fazendo com que os residentes sejam obrigados a visitar as ilhas, da Taipa e Coloane, para ver e desfrutar da floresta e da montanha. Admite sentir que o Governo planeia e gere quase toda a transformação ecológica da cidade, havendo neste aspeto uma participação muito reduzida da população. Mas entende que cada vez mais pessoas se preocupam com a proteção ambiental e a plantação de árvores, embora existam poucas iniciativas nestes domínios. O Governo deveria assim oferecer aos residentes mais oportunidades para participar nessa transformação ecológica. E deixa uma pergunta em tom de exemplo: “Não poderia uma parte do canídromo ser alocada para a plantação de árvores em ações viradas para a população? Haverá mais espaços para as pessoas participarem na transformação verde da cidade?”

Queenie sente também que, hoje em dia, a transformação mais óbvia está à vista de todos, com a cor das plantas a mudarem constantemente. “Ora são vermelhas, ora são verdes”, diz. “Num ambiente verdadeiramente natural, estaríamos a falar de árvores. A mesma árvore estaria sempre lá, independentemente de ser primavera, verão, outono ou inverno. Tal como os residentes”, assinala.

Acredita que se os residentes de Macau pudessem participar na transformação verde da comunidade, designadamente através de ações de plantação de árvores ou de planeamento, iriam desenvolver um afeto por “essa reflorestação”. Iriam assistir ao crescimento das árvores, em vez de verem os vazos a serem substituídos constantemente.

“Um dos conceitos da transformação verde dita que, mesmo que não plantemos com as próprias mãos, podemos ver as árvores a crescer connosco. Vemos estas plantas a florescer, a murchar. Antigamente, as pessoas costumavam contar histórias à sombra de uma figueira. Diferentes árvores ou plantas eram apreciadas por pessoas diferentes, em vez de repararmos apenas nas diferentes cores das flores que estão dispostas pelas ruas”, atira.

Ron Lam U Tou: Devemos planear a transformação verde

O IAM, no comunicado oficial à imprensa sobre a Semana Verde deste ano, refere que “para criar uma cidade verde, o Instituto para os Assuntos Municipais está disposto a investir no desenvolvimento da paisagem verde, criando mais espaços naturais e controlando a evolução sustentável da biodiversidade. De acordo com as variadas condições de cada zona, serão plantadas uma variedade de espécies nos terrenos disponíveis para esse fim. Este ano está prevista a plantação e a replantação de cerca de 3.200 árvores em zonas urbanas, a reflorestação de um hectare com cerca de 1.000 rebentos, outros 15 hectares de zonas montanhosas serão preenchidos com cerca de 15.000 árvores, outras 300 serão plantadas ao longo da zona costeira e, finalmente, será aumentada a cobertura florestal do Jardim Luís de Camões, do Parque Central e do Parque Municipal do Monte da Guia, cobrindo um total de 4.400 metros quadrados.”

Ron Lam U Tou, membro do Conselho Consultivo para os Assuntos Municipais, afirma que à medida que os recursos do Governo vão crescendo, a população sente que a organização de atividades, como festivais de flores, tem um efeito positivo na comunidade. Porém, concorda que uma avaliação aos últimos 40 anos da organização da Semana Verde de Macau indica que o planeamento virado para a transformação verdade da cidade ainda não está adequado às necessidades. Por exemplo, na Europa ou em cidades da China continental, é possível encontrar muitos espaços ou avenidas com árvores que ajudam a reduzir os níveis de calor urbano, oferecendo ainda uma sensação de vida à cidade. Porém, Macau não ofereceu à área da reflorestação da cidade a importância necessária. “É preciso começar pelo planeamento, para assegurar que Macau seja uma cidade cheia de espaços verdes”, reconhece.

Recorda que participa na Semana Verde desde criança e que, apesar de na altura as decorações do evento não serem da dimensão das atuais, ainda se podiam ver na cidade muitas árvores e espaços verdes, criando um ambiente muito mais agradável.

Por exemplo, existe na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção um parque de estacionamento e na fase de planeamento foi reservado terreno suficiente para que as árvores do local pudessem crescer livremente, possibilitando que hoje em dia seja um espaço verde e confortável, assinala.

Já no Parque Central da Taipa não acontece o mesmo. “Não é que o Conselho não queira plantar mais árvores. O problema é que não existe solo suficiente para essa finalidade. Com o planeamento do parque com estacionamento subterrâneo, o departamento de urbanização teve a reflorestação em mente, integrando-a no design”, lembra.

“O problema é não estarmos a adotar um pensamento inovador, precisamos de procurar ferramentas científicas para resolver os conflitos entre o desenvolvimento e a transformação verde da cidade, tal como a maneira correta de plantar mais árvores. Mesmo com pequenas decorações verdes pela cidade, o efeito ecológico nunca será equivalente ao de plantar algumas grandes árvores”, conclui.

Leong Chi-man: planeamento precisa da ciência

Leong Chi-man, o ecologista de Macau que descobriu uma nova espécie de formigas na cidade, afirma que este processo de transformação verde da cidade não se limita à plantação de árvores ao longo das estradas.

“É também muito importante haver um planeamento científico para proceder à arborização dos espaços montanhosos”, aponta.

Acrescenta que a diversidade de insetos depende das plantas e ambiente existentes. Ou seja, se as árvores forem substituídas por plantas de decoração, os insetos que nelas habitam também serão afetados. Estas plantas decorativas não são propriamente adequadas para os animais. As borboletas também têm preferências específicas para as plantas de que se alimentam. Se for substituída toda a florestação de uma montanha em simultâneo, a biodiversidade do local irá muito provavelmente ser afetada”, assegura.

Não deixa também de chamar à atenção por muitos estudos apontarem que podem ser criados microambientes durante o planeamento de zonas florestais, através de pedras ou madeira morta, possibilitando que algumas espécies continuem a habitar a região e a promover a respetiva saúde ecológica.

O ecologista salienta que as autoridades desenvolveram até uma forma de preservar as folhas mortas, podendo ser ainda mais benéficas visto que, com base nos estudos académicos existentes, as madeiras mortas devem ser colocadas em locais específicos. “Por exemplo, podemos usar madeira morta para criar uma espécie de caixa, depois preenchida com folhas caídas. Estas não serão facilmente levadas pelo vento, além de reduzirem a necessidade de limpeza das florestas”, afirma.

Visto que o cimento não é hidrofóbico e absorve o calor, este tipo de pavimento em zonas florestais irá afetar severamente o sistema de águas naturais da região e levar a que vários animais morram com o calor. Por isso Leong Chi-man defende que o Governo deve educar melhor a população sobre como proteger devidamente as florestas e as montanhas. “Estes espaços florestais são insubstituíveis. São precisas centenas de anos para que estes seres vivos cheguem à forma que assumem atualmente. A natureza é por isso a maior preciosidade que a humanidade possui”, conclui.

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