Início » Uma questão de propósito

Uma questão de propósito

João MeloJoão Melo*

Sempre fui um ávido consumidor de ficção e divulgação científica. Há décadas que sonho com a conquista do Espaço, e antes de ter filhos via-me disponível para embarcar numa aventura espacial, expandindo os meus horizontes de conhecimento, contribuindo para os da humanidade.

Mais tarde o progressivo esfriar do meu devaneio não se deveu à idade nem à questão parental, mas ao propósito. Tive o primeiro vislumbre de propósito quando com 15 anos fazia campismo selvagem na Praia da Ilha do Pessegueiro no sudoeste alentejano. Um dia mirava a ilha e pensei porque raio não haveria eu de lá ir? Entre o pessoal que ia conhecendo contavam-se lendas acerca do castelo em ruínas, fantasiava-se sobre um túnel secreto que ligaria a ilha ao continente, tudo muito ao género d’Os Cinco da Enyd Blyton. O único problema é que havia um mar a separar, todavia para um imbecil de 15 anos isso não é um problema, é um desafio. Esperei a maré baixa e parti a nado, munido apenas de uns calções de banho. Após uma travessia complicada cheguei, sondei a ilha, e finalmente fiquei no sítio mais alto a admirar o oceano sem obstáculos visuais, de costas para os frouxos na praia. Aí o silêncio e a solidão fizeram-me meditar: será isto o que Neil Armstrong sentiu? Sim, conquistei a Lua, e depois? A vacuidade do desígnio ficou clara, ressaltando a elementar bazófia masculina. Ou seja, fui à procura de glória e encontrei auto-conhecimento. A corrida à Lua aconteceu mais ou menos nos mesmos moldes, uma fanfarronice juvenil entre duas super-potências; o intuito científico era reduzido em função dos altos custos, e uma vez que os recursos lunares são praticamente inexistentes nunca mais houve vontade de regressar com missões tripuladas.

Passados 50 anos fala-se amiúde em pôr um humano em Marte. Entusiasmam-me as contínuas expedições ao planeta vermelho mas há uma pergunta que não vejo cabalmente respondida em lado nenhum: porquê ir a Marte? Pesquisando nos sites da ESA, NASA, declarações de cientistas e empreendedores, todos falam em finalidade científica, destino da humanidade, etc, etc. Não embarco no coro do “há tanto para fazer na Terra porquê esbanjar dinheiro a ir a Marte?”, no entanto o meu ideal de demanda pelo saber vacila quando recordo que o principal modelo económico da História é o capitalismo. Muito bem, entendo a dificuldade em financiar obras a fundo perdido, só que o motor do apregoado conhecimento científico é o facto de Marte ser economicamente apelativo, daí cada vez mais nações e empresas privadas mostrarem interesse numa nova corrida ao ouro. É simples, verificaram que o investimento compensa, e o capitalismo depende de um crescimento cada vez maior, ano após ano a predar a Terra cujos recursos são finitos. O modo de funcionamento capitalista tem grande responsabilidade no actual desequilíbrio ambiental e humano, bem como no insuficiente progresso, por exemplo, da cura do cancro. Afinal qual é a vantagem de sobrecarregar o planeta com mais uns milhões de pessoas saudáveis se estas enquanto não morrem geram um considerável rendimento à indústria da saúde? Durante o processo ainda nos condicionam à sua agenda: as empresas ficam com o lucro, os Estados com a factura financeira e social. Perfeito. 

Se o paradigma não se alterar e chegarmos a colonizar Marte, fá-lo-emos porque alguns precisam do Espaço e das oportunidades de negócios que a expansão oferece. O padrão repete-se: a Era dos Descobrimentos seguia os mesmos modelos da conquista espacial, tentando explorar e controlar um mercado global. Pelo caminho certamente tropeçaremos em descobertas científicas, a guerra também as proporciona, e o mais provável no século XXI é que elas nos sejam vendidas; não interessa se são ou não realmente necessárias para as nossas vidas, a dinâmica do lucro determinará a sua importância. Portanto não avançamos para saber e sim para ganhar. Não há incompatibilidade, uma coisa não impede a outra, somente gostaria de imaginar que o propósito humano não é sermos uma espécie de vírus. Apraz-me a conquista do Espaço, contudo se se basear na lógica habitual continuaremos a buscar evolução pelos motivos errados.

*Músico e embaixador do Plataforma

Contact Us

Generalist media, focusing on the relationship between Portuguese-speaking countries and China.

Plataforma Studio

Newsletter

Subscribe Plataforma Newsletter to keep up with everything!