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O Boi e a cidade

Carol Law

Com o início do Ano do Boi, este volta a receber as atenções das gentes. Atualmente, Macau é conhecida como um centro internacional do jogo, sendo o turismo e os casinos os pilares económicos mais importantes da cidade. À primeira vista, a ligação ao Boi não é óbvia, mas, olhando a história, pode descobrir-se uma constante presença deste animal na vida de Macau. Com o começar de um ano novo, a escolha foi passear pelas ruas da cidade à procura das marcas do Boi!

Hospital de S. Rafael – a chegada da varíola bovina à China

O vírus da varíola foi erradicado em 1980, mas ao longo de alguns séculos atingiu duramente diferentes zonas do mundo, tornando-se em meados do século XVIII numa das grandes pandemias. O médico inglês Edward Jenner (1749-1823) percebeu, através da ordenha das vacas, que a varíola bovina poderia ajudar a prevenir o vírus em humanos através da inoculação do vírus vaccinia (varíola bovina), descobrindo assim a “vacina” (há quem afirme que “vacina” deriva da palavra em Latim para esse animal, vacca). A prática então descoberta alastrou-se pela Europa e respetivas colónias. Em 1805, Pedro Huet, um comerciante português muito conhecido em Macau, terá sido o portador, com origem em Manila, do vírus da varíola bovina, alertando então a administração portuguesa em Macau da situação. Desde então passou a existir no Hospital de S. Rafael da Santa Casa da Misericórdia, na cidade, uma sala destinada à vacinação, onde pacientes eram observados por um médico todas as manhãs.

Macau terá sido assim a porta de entrada deste vírus no país. De acordo com o escrito “Entrada do vírus da varíola bovina na China: O papel de vários governos e países neste processo”, por Dong Shaoxin, Qiu He (natural do distrito de Nanhai), aprendeu com médicos estrangeiros os procedimentos da vacinação contra o vírus da varíola e o próprio, após a realização de vários testes, trouxe essa prática para a China continental, escrevendo um livro sobre o método de aplicação da vacina. Quando uma empresa estrangeira tomou conhecimento de que Qiu He conhecia esta solução, ofereceu-lhe a vacina inglesa, para que o mesmo a administrasse em todas as crianças de Macau no Pagode Sam Cai Vu Cun.

Também se diz que nos templos Lin Fung, Pau Kung e Lin Kai se celebra a “Deusa Dou Mou”, conhecida como “Deusa das Vacinas”. No templo Lin Kai, a figura de Dou Mou segura numa criança com a mão esquerda e medicamentos com a mão direita. Lê-se: “Dou Mou, protetora dos infantes”. Segundo o mesmo documento, “Dou” significa varíola, doença para a qual não existia cura na altura, levando a que a proteção da população dependesse da deusa.

Antigo Estábulo Municipal de Gado Bovino – Edifício Patrimonial

Normalmente conhecido como “estábulo”, esta é uma propriedade pública na Colina de Mong Há. Segundo descrição do Instituto Cultural (IC), a colina estava coberta por túmulos e só depois de 1847 é que a administração portuguesa de Macau começou a abrir ruas no local. O sistema de produção de carnes da cidade existia desde meados do século XIX. Em 1911, a autoridade sobre os mercados passou para o Leal Senado (atual Instituto para os Assuntos Municipais), e um ano depois, em 1912, foi dada autorização para construir um estábulo e outras instalações num terreno da Avenida do Almirante Lacerda.

No passado, grande parte da carne e peixe da cidade provinha de importação por via marítima, com o matadouro municipal localizado no lado oposto da cidade. Os mercadores de carne tinham de transportar os animais desde o porto até ao estábulo. Após o período de isolamento necessário, os animais eram transportados diariamente até ao matadouro. Era por isso comum, na altura, ver animais a passear pela avenida. O IC, ao referir-se à história do edifício, indica que, embora o estábulo estivesse perto de uma zona industrial e longe do matadouro, a localização era favorável devido ao ambiente pouco húmido, boa circulação de ar e distância de qualquer zona residencial.

Em 1924 o estábulo foi reconstruído e tomou então a forma atual. Dois edifícios paralelos com telhados em cor de terracota e paredes amarelas, mostrando uma arquitetura portuguesa eclética. A construção também está de acordo com os requisitos do “Decreto para Construção Higiénica de Propriedade Privada e Municipal de Macau” que entrou em vigor em 1912, em termos de altura, pisos, estábulos, sistema de alimentação do gado e esgotos. Em outubro de 1987, devido aos equipamentos já obsoletos, o Governo português de Macau decidiu mudar as instalações para a Ilha Verde, convertendo parte do edifício original num espaço cultural, agora conhecido como Armazém do Boi, destinado a acolher espetáculos e exposições. No ano de 2017, o Antigo Estábulo Municipal de Gado Bovino foi considerado “Edifício de Interesse Arquitetónico”.

Fábrica de Panchões onde também se criava gado

Costuma dizer-se que Macau era uma pequena terra piscatória, mas a cidade abrigava também muitos agricultores. Segundo testemunhos, era comum entre residentes das ilhas da Taipa e Coloane criarem gado e trabalharem o campo. A “História Oral da Taipa e Coloane – Registo industrial” conta que, além da fábrica de artilharia, residentes trabalhavam na agricultura para ajudar a sustentar as famílias. Alguns plantavam milho-miúdo, outros vegetais, batata-doce, etc. Outras famílias criavam gado para ajudar nos trabalhos do campo. Muitos residentes recordam a existência de gado na Povoação de Ká Hó. Há relatos que indicam a presença dos conhecidos búfalos asiáticos para ajudar a lavrar o campo, existindo por isso estábulos juntos às casas para recolha do gado. Este era alimentado por erva (palha) colhida e seca ao longo do ano.

Havia também criação de bovinos na Fábrica de Panchões Iec Long. De acordo escritos de Albert Lai Hung Kin sobre a antiga Taipa, desde a abertura que a fábrica tinha também um propósito agrícola. A Taipa era na altura uma zona muito pobre, fazendo com que todo o tipo de animais – suínos, bovinos, ovinos ou avícolas – fosse demasiado caro e com valor muito acima das posses da maioria da população. Isso levou a fábrica a virar-se também para a criação de animais devido ao elevado valor de mercado. Isso mesmo escreve Albert Lai Hung Kin quando cita um antigo funcionário da fábrica que se recorda de ver a zona do Jardim da Cidade das Flores carregada de gado. Uma panorâmica aérea da Taipa mostra que a agricultura na ilha era prática comum e tinha alguma dimensão. O gado, os legumes e os frutos eram uma importante fonte de rendimentos, com a subsistência da população muito dependente destes negócios durante a invasão japonesa da China, num período em que a fábrica de panchões atravessou grandes dificuldades. Desde o fim do conflito que deixou de haver gado em Iec Long, mas os estábulos ainda lá estão.

Durante os anos 70 e 80, com a abertura da Ponte Governador Nobre de Carvalho, a Taipa assistiu a outras grandes mudanças. Vários residentes recordam a demolição ou renovação de uma grande quantidade de habitações e campos em diferentes zonas da ilha, como a Povoação de Cheok Ká, incluindo projetos que afetaram severamente o ecossistema das águas da região, dificultando ainda mais o trabalho agrícola. Este impacto levou a que muitos residentes abandonassem o local na procura de outros empregos, não deixando qualquer vestígio da atividade agrícola. O professor Cheng Wai Meng, em “Registos Históricos da Taipa e Coloane”, menciona também que a agricultura e indústria de criação de gado na região entrou em declínio com a urbanização de Macau nos anos 80. Os terrenos de cultivo diminuíram em 1985 com a proibição do abate de animais pelo governo português em Macau e com a dissolução dos Serviços Florestais e Agrícolas de Macau. As quintas foram transformadas em parques e a agricultura começou a desaparecer das ilhas.

Embora estes vestígios pareçam ser algo apenas do passado, são uma parte inegável de Macau, refletem o estatuto internacional que a cidade possuiu ao longo dos séculos e a direção que a urbanização tomou. Só depois de se conhecer o passado se pode olhar para o futuro. É por isso importante retirar sabedoria da história e refletir sobre o rumo para o futuro. Para trazer alguma sorte para o Ano do Boi.

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