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Memórias de uma família

Entre as décadas de 20 e 30 do século passado, os senhores da guerra, de diferentes fações, viveram anos de caos. A terra era estéril e as pessoas morriam de fome em todos os lugares…

Nessa altura, o Japão já cobiçava, há muito tempo, a chamada “terra que Deus deu ao povo Yamato”, a região nordeste da China. Políticos ambiciosos, representados por Tōmiya Kaneo, viam o Japão como “bambu num vaso” qie não podia sobreviver para sempre, pelo que tiveram de olhar para o exterior.

A 18 de setembro de 1931, o exército jáponês1931, invadiu o quartel na cidade de Shenyang e as três províncias as do nordeste caíram nas mãos do inimigo.

Fugir

Em 1932, o exército japonês, Kwantung, formulou o “Programa Principal de Emigração Manchuriano” e o regimento “Pioneiro”, bem armado, espalhou-se por todo o território do nordeste da China como uma peste. Na realidade, o “Pioneiro” era somente para matar e ocupar.

Em 1938, num inverno rigoroso, Keino Setsu, nascida em Hokkaido, Japão, veio ao município de Fangzheng, província de Heilongjiang, para montar e dirigir um negócio de madeira, liderado pelo marido.

Em poucos anos, dezenas de milhares de mulheres japonesas seguiram os maridos até à China. Eles tomaram posse de florestas e minas de carvão, cultivaram as terras que pertenciam ao povo chinês. Muitos acabaram por procriar, como previsto pelos políticos militares japoneses. O povo japonês foi envolvido nesta “vitória” gloriosa , considerando este lugar como um novo mundo livre da Etnia Yamato.

Em Agosto de 1945, o Japão rendeu-se incondicionalmente. A maioria dos imigrantes ansiava voltar à pátria, deixando este solo fértil que já não lhes pertencia. No entanto, a situação social estava muito agitada e o governo japonês ignorou esses deserdados. Mas muitos acabaram por abandonar as mulheres e os filhos para regressarem ao Japão. O marido de Keino Setsu foi um deles.

Keino Setsu não teve outra escolha senão carregar o filho, Nakata Masaichi nos braços e fugir do município de Fangzheng até ao município de Yilan, Harbin, a jusante do rio Songhua, esfomeada e com frio. À beira do desespero, encontrou Jiang Zhen, um combatente do exército unido anti-japonês do nordeste.

Esquerda: Nakata Masaichi;  Direita: o seu amigo ex-membro do regimento “Pioneiro” 

Regressar

Como membro da equipa anti-japonesa, Jiang Zhen sentia ódio pelos japoneses, mas perante uma mãe e um bebé que estavam a morrer à fome, não os podia deixar.

Na Primavera de 1946, acabaram por se casar. No mesmo ano nasceu a filha Jiang Xiulan. A partir daí, Keino Setsu enraizou-se no município de Yilan e nunca mais voltou ao Japão até ao ano da morte, em 1976.

O marido de Jiang Xiulan, Liu Zhongsheng relembra. “Ela era muito teimosa desde criança. A mãe pediu-lhe para que mudasse o nome para Nakata Xiulan ou Keino Xiulan, mas ela rejeitou”. “O meu pai era um combatente anti-japonês. Quer a minha mãe fosse ou não japonesa eu sou chinêsa”, terá dito.

O meio-irmão de Jiang Xiulan, Nakata Masaichi, não nasceu no Japão, mas ainda está profundamente ligado à Etnia Yamato. Em 1979, graças aos esforços do Governo chinês e da Associação de Amizade Japão-China, Nakata juntou-se à nacionalidade japonesa e regressou ao Japão com a mulher e o filho e trabalhou numa fábrica de processamento de peixe, em Namerkawa.

Embora na pátria, as diferenças linguísticas e culturais impedem-no de se integrar verdadeiramente na sociedade japonesa. Aos olhos de muitos nativos, estes órfãos de regresso já não sáo compatriotas, mas “chineses”. O conflito com o filho, Nakata Sakae, fez com que já não quisesse continuar a viver no Japão.

Em 2004, Nakata Masaichi regressou à China sozinho, com pesar, e passou os últimos anos na cidade de Dalian, onde morreu em Outubro deste ano.

No Inverno de 1979, Liu Zhongsheng escreveu um poema que intitulado “Adeus Nakata Masaichi”. “É difícil soltar as nossas mãos apertadas e despedir-se na ponte, As aves voam com o vento, O céu e o mar são imensos, As ondas turquesas a sair apressadamente do vale, As luzes incontáveis das casas vêm à vista, Só posso mandar-te até aqui, A lua e as montanhas irão enviá-lo de volta para a terra natal…”

As montanhas e rios da China tinham-no visto regressar na companhia de uma lua brilhante à terra natal na meia-idade, e acolheram de volta um idoso grisalho vinte e cinco anos depois.

Pecado e Punição

Keino Setsu teve sorte. O povo chinês e muitos outros foram queimados e saqueados pelos japoneses. Massacrados pelos militares extremistas do “Regimento Pioneiro”. Bebés e crianças abandonados, japoneses que morreram à fome na beira da estrada… Todas as pessoas no que anseiam pela paz, mas são feridas pela guerra perguntam porquê?

Entre Agosto de 1945 e Maio de 1947, o Governo chinês prendeu 2.357 criminosos de guerra japoneses. Destes, 549 foram condenados à morte ou a prisão perpétua.

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