Coisa mais linda - Plataforma Media

Coisa mais linda

Há tanto do Rio de Janeiro dos anos 60 no Brasil de hoje que a série parece, por vezes, um espelho. Coisa Mais Linda deveria ser obrigatória.   

Tom Jobim pediu-a em casamento. Ela, fiel ao primeiro amor, rejeitou o homem que a colocou nas bocas do Mundo. “Ele era um homem lindo. Eu, logicamente, balancei. Meu coração palpitou, bateu mais forte, mas eu já tinha namorado. Naquela época traição era uma coisa muito drástica”.

Heloísa Pinheiro foi a musa de Jobim e Vinicius de Moraes, é de Vinicius a letra da música, ela é “a” Garota de Ipanema.

O “naquela época” referido por Helô Pinheiro, como é conhecida, em entrevista ao G1 em 2015, é o Rio de Janeiro dos anos 60, 1962, mais precisamente. Recentemente, numa espécie de nave do tempo chamada Netflix mergulhei nesse Rio.

Seria bom se todos os homens vissem Coisa Mais Linda e refletissem. Seria bom se todas as mulheres vissem Coisa Mais Linda e se inspirassem

Coisa Mais Linda foi batizada com o trecho da canção de Jobim e Vinicius e é uma viagem lindíssima, fotografia brilhante, e um ótimo exercício de espelho aos dias de hoje, apesar de se passar nos tais anos 60. Criada por Heather Roth e Giuliano Cedroni a série escancara a sociedade carioca e brasileira da altura, contrapondo tantas vezes a luz dourada da cidade à crueldade do machismo, do racismo ou da violência doméstica. É um elogio merecido e belo à luta das mulheres por várias coisas que não deveriam merecer tão árduo combate.

Somadas as duas temporadas, entramos na vida de cinco mulheres – Maria Luiza, Adélia, Thereza, Lígia e Ivone – e passamos com elas pelo duro caminho da afirmação pelo talento, trabalho, dedicação, paixão e competência, sofremos com a violência física e psicológica, elogiamos a liberdade de verdadeiramente amar, a coragem de enfrentar o racismo, a dureza de um aborto. Talvez o resumo seja mesmo: acompanhamos a luta permanente contra um Mundo profundamente machista e preconceituoso.

Na história do marido que assassinou a mulher a tiros e sai pelo próprio pé do tribunal assistimos a um julgamento que tenta, e consegue perante o juiz, colocar a culpa da morte na mulher. No caso do marido que abandonou a mulher percebemos como, por lei, apenas com a autorização dele ela poderia ter um negócio próprio. E na cena em que a mãe, negra, de uma criança, negra, vai ter com o pai dessa criança, branco, à praia e é atacada por um casal, branco, racista, ouvimos os mesmos argumentos que vemos hoje serem orgulhosamente utilizados por alguns autointitulados “cidadãos de bem”.

Dos mais pequenos detalhes às histórias de cada protagonista está lá quase tudo, marcas indeléveis que sobreviveram a mais de meio século e que parece que ganharam a dolorosa vivacidade de uma ferida aberta nos dias que correm.     

Seria bom se todos os homens vissem Coisa Mais Linda e refletissem. Seria bom se todas as mulheres vissem Coisa Mais Linda e se inspirassem.  

*Jornalista

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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