Questão alimentar dá à China posição importante ao nível global - Plataforma Media

Questão alimentar dá à China posição importante ao nível global

A China tornou-se no maior importador mundial de alimentos devido à necessidade de garantir a segurança alimentar de população, conferindo-lhe uma posição cada vez mais importante no cenário internacional, segundo especialistas brasileiros presentes ao Terceiro Encontro da Rede Brasileira de Estudos da China.

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Thiago Lima, “no século XX, a China surge como potência emergente e nesse processo passa a expandir esses recursos para o sistema internacional: começa a exportar parte dos recursos que absorveu, agora transformados, como investimentos, tecnologia e serviço, sem esquecer que é também uma grande exportadora mundial de alimentos”.

“Os principais atores do sistema internacional têm grande poder de absorção e necessitam de exportar os recursos transformados posteriormente. Para que isso funcione tranquilamente é necessário criar uma ordem internacional para o processo que ser quase automático e não unilateral”, defendeu o académico.

Apontou ainda que “o que se observa neste século é que a nova ordem internacional está a ser questionada e isso leva a disputas comerciais agrícolas, de hegemonia. A liberalização do comércio agrícola nunca foi uma prioridade do sistema, nem da Organização Mundial do Comércio (OMC), porque países, como Estados Unidos ou europeus necessitavam de contar com protecionismo em termos de subsídios para sustentar os respetivos modelos de agricultura”.

Não obstante, “depois dos anos 90, quando se consolidaram os novos exportadores agrícolas, como o Brasil, o México ou a Índia, ganhou terreno a ideia de que o comércio internacional de commodities necessitava de ser liberalizado porque os produtores precisavam de exportar mais”, prosseguiu.

Segundo Thiago Lima, a China ascendeu como poder económico, já é a segunda economia mundial em valor do Produto Interno Bruto (PIB) e a primeira em poder de compra e, à medida que a população aumenta, quer diversificar a alimentação e aderir aos padrões alimentares das grandes empresas.

Por sua vez, Alexandre Leite, professor de Relações Internacionais na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), valorizou as políticas agrícolas adotadas pelo governo chinês durante a pandemia do novo coronavírus (COVID-19).

“Em plena pandemia, a China resolveu aplicar políticas diretas de reforma e modernização, estabelecendo metas no setor agrícola, a pensar num cenário global, porque ainda é um país dependente da importação de alimentos”, comentou.

Assinalou que “enquanto todo o mundo estava a sofrer com o impacto da COVID-19, com os pequenos e médios produtores a serem muito afetados, a maioria dos países que adotou políticas diretas de auxílio registou um resultado muito melhor, inclusive na manutenção dos rendimentos”.

Já para outro dos participantes, o professor de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp) e especialista em segurança alimentar, Walter Belik, “o arranque da China na produção e comércio de alimentos tem motivações estratégicas e culturais. A China tem de controlar os respetivos mercados por uma questão do ressentimento em relação ao tema da fome que já viveu”.

As mudanças nos hábitos de consumo chinês estão a causar mudanças nos fluxos de comércio internacional e no perfil da produção local (como a comida saudável ou a própria logística)”, disse Belik.

O Terceiro Encontro da Rede Brasileira de Estudos da China debateu temas como, o desafio das mudanças climáticas na China e no Brasil, as relações sino-brasileiras pós-pandemia, investimentos externos chineses no Brasil e na América Latina, transformações em estruturas de crescimento económico da China e o respetivo impacto para os países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

A Rede Brasileira de Estudos da China foi criada em novembro de 2017 para aprofundar os estudos sobre a China no Brasil. Atualmente, a rede tem cerca de 300 membros, designadamente académicos, jornalistas, diplomatas e empresários.

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