A incrível história do nigeriano que foi o único negro na Resistência polaca contra os nazis - Plataforma Media

A incrível história do nigeriano que foi o único negro na Resistência polaca contra os nazis

Entre as centenas de milhares de patriotas que a Polónia celebra por servir no movimento de resistência na Segunda Guerra Mundial, há um homem negro nascido na Nigéria, August Browne. Nome de código: “Ali”

O músico de jazz nigeriano August Agboola Browne estava nos seus 40 anos e a viver na Polónia há 17 quando se juntou à luta contra a ocupação nazi do país em 1939. Foi o único negro que figurou para sempre na História da resistência polaca, recorda hoje um artigo da BBC. Sob o nome de código “Ali”, Browne lutou pelo seu país adotivo durante o Cerco de Varsóvia, quando a Alemanha invadiu o país, e mais tarde na Revolta de Varsóvia, que terminou há 76 anos .

Surpreendentemente, August Browne sobreviveu à guerra na qual 94% dos residentes da capital da Polónia foram mortos ou deslocados, e continuou a viver na cidade devastada até 1956, quando emigrou com a sua segunda esposa para a Grã-Bretanha.

Um pequeno monumento de pedra em Varsóvia celebra a vida de Browne. Mas os poucos detalhes que existem sobre a sua vida podiam nunca ter sido conhecidos não fora um pedido que fez para ser membro de uma associação de veteranos em 1949. O documento foi arquivado por seis décadas, até 2009, quando Zbigniew Osinski, do Museu da Insurreição de Varsóvia, o encontrou. Este formulário, preenchido numa bela caligrafia cursiva e com uma foto tipo passaporte anexada a um canto, é a sua Pedra de Roseta – o fragmento que levou investigadores a interpretar factos isolados sobre a sua vida e a localizar descendentes vivos, prossegue o artigo da BBC.

Quando preencheu o formulário, Browne estava na casa dos 50 anos. Nasceu em 22 de julho de 1895, filho de Wallace e Jozefina em Lagos, capital da Nigéria – então parte do Império Britânico. Chegou a Inglaterra a bordo de um navio mercante britânico com o seu pai estivador. Já em Inglaterra, juntou-se a uma companhia de teatro em digressão pela Europa e acabou na Polónia por onde entrou através da Alemanha.

Infelizmente, não se sabe o que o inspirou a deixar a Nigéria ou fazer da Polónia o seu destino, mas um espírito aventureiro parece a explicação mais plausível. Na década de 30 do século passado, Browne tornou-se um famoso percussionista de jazz nos restaurantes de Varsóvia. Enquanto membro da resistência, conhecido como “Ali”, distribuiu jornais clandestinos, trocou equipamentos eletrónicos e “abrigou refugiados judeus vindos do gueto”. O gueto foi uma área isolada da cidade onde os judeus foram forçados pelos nazis a viver e onde 91.000 deles vieram a morrer de fome e doenças ou a ser executados. Cerca de 300.000 judeus polacos foram transportados para a morte em campos de concentração nazis.

Parece que para Browne permanecer na Polónia após a guerra foi uma escolha. Como cidadão do Império Britânico, ele tinha a oportunidade de partir. Quando chegou à Polónia, estabeleceu-se inicialmente em Cracóvia, onde se casou com a sua primeira emulher, Zofia Pykowna, com quem teve dois filhos, Ryszard e Aleksander. O casamento falhou, mas com a eclosão da guerra, Browne providenciou para que os seus filhos e a mãe tivessem refúgio em Inglaterra. Mas – talvez comprometido com a luta polaca- Browne não foi com eles. O quebra-cabeça incompleto de informações levanta muitas questões sobre a sua vida.

Tatiana, sua filha do segundo casamento, muito mais prolongado no tempo, com Olga Miechowicz, nasceu e foi criada em Londres e é a sua única filha sobrevivente na Grã-Bretanha. Ela conta que o pai nunca falou sobre o que lhe aconteceu. Tatiana tem agora 61 anos – o seu pai morreu em 1976 quando ela tinha 17 anos. Recorda-o como um homem “muito calmo, muito reservado e muito distante”. Nunca falou sobre os seus tempos na Polónia nem sobre ou seus primeiros anos em Lagos. Tatiana não sabe ao certo porque nenhum dos seus pais lhe contou muito sobre o seu passado. Mas suspeita que foi para enterrar o trauma que suportaram e as atrocidades que testemunharam.

Lembra-se de ter assistido a um documentário sobre a guerra com os seus pais e de a sua mãe comentar: “Lembro-me de ver pessoas a ser enforcadas nas ruas; sei que é verdade porque vi com meus próprios olhos”. Mas não houve discussão sobre o tema e agora Tatiana gostaria que eles lhe tivessem contado mais.

Browne, porém, nunca virou as costas à cultura polaca em que viveu por quase 35 anos, e Tatiana diz que o polaco era a única língua falada na sua casa em Londres.

August Browne era fluente em várias línguas e foi ele quem ensinou a filha Tatiana a escrever e a falar inglês.


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