É de cima que (não) vem o exemplo - Plataforma Media

É de cima que (não) vem o exemplo

Uma saída à noite, com direito a coluna de som e álcool.

No dia em que o Brasil ultrapassou as 100 mil mortes e os três milhões de infectados com o novo coronavírus um grupo de adolescentes do condomínio onde vivo fez uma festa. Felizmente souberam enquadrar-se devidamente: escolheram o parque infantil. Houve até quem se lembrasse de levar o cão, o mesmo não se podendo dizer em relação a máscaras. Nem uma.

Com mil e uma formas de chegar a informação séria e credível, de não se deixarem levar em patranhas e discursos mirabolantes de curas milagrosas ou negacionismos populistas e parolos, ainda assim, aqueles adolescentes serão, no fim do dia, quem menos culpa terá de ter ali estado.

Há pais que os deixaram sair de casa naquela noite de sábado, sem máscara ou remorso. Há pais que não devem ter visto as notícias e o que elas contaram. As lágrimas de quem perdeu alguém, ou vários “alguém” por esse país fora. Pais que, se viram, devem ter vociferado contra o aparelho de televisão: esses mentirosos desses jornalistas, todos comunistas. Pais que por certo acreditam que quem tem não sei quantos milhões de comprimidos de hidroxicloro qualquer coisa não terá de se preocupar com uma “gripezinha”. Mas, novamente, talvez nem sejam eles os mais culpados de aqueles adolescentes terem estado naquele Sábado naquele parque infantil a beber e a conviver durante uma pandemia. Ou pelo menos não serão pais solteiros dessa culpa.

No Sábado, dia 08 de Agosto, os números revelados pelo consórcio de meios de comunicação social mostraram que as duas marcas simbólicas foram quebradas: 100 mil e três milhões. Um consórcio de meios de comunicação social sim, a Comunicação Social a dar os números através de um esforço conjunto das redacções de “O Estado de S. Paulo”, “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Extra”, “G1” e “UOL” porque os números fornecidos pelo Governo Federal não são confiáveis. A meio da pandemia o ministro da Saúde, que está interino desde 15 de Maio (!), ou alguém por ele, decidiu que os números iam ser divulgados de outra forma e a outra hora, deixando de dar números consolidados, tabelas, histórico da doença desde o início. O presidente Bolsonaro chegou a ironizar: “Acabou matéria no Jornal Nacional”. Naturalmente que não acabou… E o Brasil passou assim a ter a singular, e absurda, particularidade de ter todos os dias dois balanços diários dos números de Covid-19.

Ao longo do dia de Sábado as redes sociais foram-se enchendo de reacções ao galgar das barreiras simbólicas. A esmagadora maioria do que me foi mostrado pelo algoritmo das minhas redes passou pelo lamento, pela frustração pelo rumo do país e a vergonha pela liderança, ou falta dela, presidencial. Entre elas a do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, que lamentaram e anunciaram dias de luto nacional.

Ao fim do dia, já noite, passavam 10 minutos das 7 da noite, Jair Messias Bolsonaro, chegou ao facto do dia no país que o elegeu para ele ser presidente de todos. Antes disso, não se coibiu de parabenizar o clube do coração, o Palmeiras, pelo título de campeão estadual de São Paulo. Com as prioridades bem (des)arrumadas, Bolsonaro lá se pronunciou então sobre os números de mortos, só que fê-lo sem referir os 100 mil mortos, para eles nem uma palavra. Fê-lo partilhando apenas as publicações da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República (Secom).

Quando o respeito, a empatia e a solidariedade demonstrados pelo homem que foi eleito para liderar o país é este. Quando foram os pais daqueles adolescentes que o elegeram. Seria de esperar o quê?

Vá lá que a música da caixa de som estava baixa…

*Jornalista

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