“Terrorismo em Moçambique já afecta psicologicamente toda a região”

por Gonçalo Lopes
José Kaliengue

Calton Cadeado é professor de Estudos de Defesa e Segurança, em Moçambique, analista e comentador político e de política externa. Nesta entrevista a O PAÍS aborda, sobretudo, a questão do terrorismo em Cabo Delgado, no Norte de Moçambique. Não acredita que tenha base religiosa, nem que derive de uma postura de Estado da Tanzânia, mas afirma que o Estado moçambicano tardou a reagir a avisos da Inteligência de há pelo menos cinco anos e que as ligações umbilicais com partidos políticos dificulta a cooperação dos serviços de inteligência na região

Até que ponto a situação do terrorismo que eclodiu em Moçambique, com reivindicações do Estado Islâmico, pode afectar toda a região da África Austral? 

Eu acho que a região toda já está afectada, psicologicamente, este assunto está a preocupar toda a região. Do ponto de vista da segurança já um sentido, um interesse de todos. A prova disto é que as instituições que lidam com questões de segurança, estou a falar concretamente do Órgão de Política e Segurança da SADC, já há um tempo que vem insistindo para Moçambique dizer um pouco mais em relação a este assunto, de forma concreta e ligada a questões do terrorismo. Mas o Governo moçambicano vem adiando, porque não tinha ainda muita informação que pudesse ligar ao terrorismo. Mas é sabido que as instituições de segurança da SADC já estavam a reunir-se. Estou a falar do ponto de vista institucional. 

É um problema que está a preocupar os Estados ao nível bilateral. Já se sabe que a Tanzânia e Moçambique têm estado a conversar desde o princípio, quer no âmbito das polícias, quer nos serviços de inteligência e no sei das forças armadas. Já se sabe também que a África do Sul vem fazendo pressão sobre Moçambique para tomar posições mais arrojadas. Isto do ponto de vista bilateral. O Zimbabwe nem tanto. A Namíbia e o Botswana nem tanto. Isto é perceptível por causa da distância geográfica que existe entre Moçambique e os outros países. De angola também não se sabe muito de pressão em relação a este assunto. A única coisa que se sabe é um discurso do Presidente João Lourenço no ano passado, se não estou equivocado, em que ele já falava sobre este assunto como uma questão de terrorismo em Cabo Delgado. 

Na semana passada, o ministro das Relações Exteriores angolano, Téte António, dizia, depois de uma reunião com os seus homólogos da SADC que faltava Moçambique dizer o que é que pretende. Há na SADC capacidade para responder em conjunto a um problema desta natureza? 

Há uma coisa que é muito importante dizer, a SADC tem um pacto de defesa mútua, este é um primeiro ponto. Ao nível da SADC há uma sensibilidade política segundo a qual para problemas locais, soluções locais. Isto é muito bom. Ao nível da SADC há uma tentativa de fazer valorizar o Órgão de política de Defesa e Segurança. Mas sabe-se que há também resistências dos países em chamar os outros para uma intervenção com militares, sobretudo, robusta, que signifique a presença de forças. Isto é paradoxal, e digo-o porque num passado recente, por exemplo em Moçambique, nós tivemos presença das Forças Armadas do Zimbabwe e das Forças Armadas da Tanzânia que ajudaram o Governo de Moçambique a combater a RENAMO, tínhamos uma presença militar forte aqui em Moçambique. 

Mas temos, também na história da SADC o problema que foi a intervenção da África do Sul no Lesotho. Tivemos também o problema que foi a intervenção de Angola, Namíbia e da África do Sul na República Democrática do Congo. Então, entre exemplos de intervenção e exemplos de resistência à intervenção, a SADC encontra-se neste dilema, nesta meia paralisia. Isto diminui as capacidades de intervenção. Porque em primeiro vem a vontade política, depois é que vem a mobilização das capacidades materiais. Este é o grande dilema. 

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