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“A minha vida é um bónus”

António Costa Silva, o gestor nomeado pelo primeiro-ministro para coordenar os trabalhos preparatórios do plano de relançamento da economia, foi preso em Angola e colocado frente a um pelotão de fuzilamento, o que o condicionou “para sempre”.

“A minha vida depois disso é uma espécie de bónus, poderia praticamente ter ficado ali, há coisas que nos condicionam para sempre”, diz numa entrevista à Lusa, o engenheiro de minas, que na altura da prisão era um estudante universitário de 25 anos, em Luanda.

Costa Silva, que se afirma como “claramente um homem que vem da esquerda”, esteve preso entre 1977 e 1980 na prisão de S. Paulo, na capital angolana.

Foi nesse período que chegou a ser colocado “frente a um pelotão de fuzilamento”, ouviu o ruído das armas, mas elas não dispararam: “Nunca soube porquê”, diz.

E lembra, quando perguntado sobre o que sentiu: “Foi um dia que enfrentei com grande tranquilidade, penso que a morte faz parte da vida e algum dia temos que morrer, e eu pensei, bem, chegou esse dia”.

Segundo Costa Silva, os seus torturados pretendiam que ele assinasse uma declaração de que era espião da CIA, o que ditaria a sua execução imediata. Ao recusar-se, deram-lhe uma folha de papel para escrever o testamento.

“E eu escrevi que a vida é linda, o que causou ainda mais irritação. Prenderam-me, algemaram-me as mãos atrás das costas, puseram-me uma venda e levaram-me de carro para uma praia, onde habitualmente executavam as pessoas, ouvi o ruído das armas, mas elas não dispararam. Nunca soube porquê”, conclui.

Acabou por transpor essa experiência para um poema (“a poesia é um refúgio”, diz), “À procura de conforto”, no seu livro “Jacarandá e Mulemba”: “Estou espantosamente calmo / Eu sabia / Eu sabia / Digo a mim próprio / – ‘Eu não tenho medo da morte’! / Será por isso que eles me pouparam?”.

A sua atividade política como líder do movimento associativo iniciou-se antes do 25 de Abril, contra o regime colonial, e prosseguiu depois da independência de Angola: “Éramos jovens e queríamos mudar o mundo”, recorda.

“Fui líder do movimento associativo na cidade de Luanda, criámos os chamados ‘Comités Amílcar Cabral’ e tivemos grandes batalhas políticas, até quase ao limite da rutura e da colisão com o próprio regime”, afirma. 

É na sequência dessa atividade que veio a ser preso, em dezembro de 1977, onde foi “barbaramente agredido e torturado quase dia sim, dia não, no primeiro ano de prisão”, recorda. 

“Isto marcou-me profundamente”, afirma.

A experiência marcou-o, mas não guarda rancor: “Angola vivia sob um regime totalitário e esses regimes descarregam toda a sua raiva na cabeça e no corpo dos presos políticos. Não tenho nenhum ressentimento em relação a isso”.

“Tenho muitos amigos em Angola, que é uma terra que adoro. No fundo eu sou parte dessa imensa tribo de luso-angolanos”, remata.

A prisão, segundo diz, ensinou-lhe muita coisa. “É uma situação limite. Estamos sozinhos connosco próprios e percebemos como nunca o que é a natureza humana e que ela é capaz do melhor e do pior”, refere.

Foi na prisão, aliás, que começou a escrever poesia e livros “na cabeça, para superar a dor e o sofrimento, visitar a vida e revisitar o passado”.

“Percebi muito cedo que é o cérebro que nos comanda e que é o órgão mais resistente que temos”, conta.

António Costa Silva é autor de quatro livros de poesia (três dos quais em coautoria com Nicolau Santos, atual presidente do Conselho de Administração da Lusa) e dois romances, um deles inspirado na figura de um homem que viu enlouquecer na prisão (“Manuel Muhongo, ou a queda do pescador”, sob o pseudónimo de António Vális).

O gestor nasceu em 23 de novembro de 1952 em Catabola, no planalto central do Bié, de uma família já enraizada em Angola. Diz que desde muito miúdo se lembra de ver os “contratados” (homens negros) acorrentados – que iam em camiões levados para trabalhar no norte de Angola.

“Lembro-me de ficar revoltado e perguntar aos adultos o que se passava. Fui inclusivamente buscar comida a casa para aquelas pessoas. Foi meu primeiro ato político”, comenta.

Licenciou-se em engenharia de minas pelo Instituto Superior Técnico, juntando depois um mestrado em engenharia de petróleos no Imperial College, em Londres e um doutoramento sobre reservatórios petrolíferos, também em Londres e Lisboa. Tem três filhos.

Começou a trabalhar na Sonangol, depois na Companhia Portuguesa de Serviços (CPS), foi diretor executivo na multinacional francesa Compagnie Generale de Geophysique (CGG), onde coordenou projetos de exploração de petróleo no Bahrein, México e na Rússia e, mais tarde, no Instituto Francês de Petróleo, em Paris, onde lidou com alguns dos maiores campos de gás do mundo (Argélia, Venezuela, Arábia Saudita, Irão).

Desde 2003 é presidente da Comissão Executiva do grupo Partex, ex-Gulbennkian, comprada em 2019 pela empresa pública tailandesa PTT Exploration and Production.

Leia aqui toda a entrevista

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