Alunos de Macau vítimas de discriminação em Portugal - Plataforma Media

Alunos de Macau vítimas de discriminação em Portugal

Esta semana, Portugal confirmou os primeiros casos de coronavírus. Jovens chineses de Macau a estudar em Lisboa denunciam ao PLATAFORMA que, desde janeiro, têm sido vítimas de discriminação, com medo de que transmitam a doença. 

A Associação de Estudantes Luso-Macaenses afirma que os portugueses continuam a tratar os alunos de Macau de uma forma amigável, e que essas atitudes de discriminação apenas aconteceram isoladamente. O Consolado Português em Hong Kong e Macau diz que ainda não recebeu quaisquer queixas de discriminação em Portugal. 

Um estudante da Universidade Católica de Lisboa, que pediu para não ser identificado, disse ao PLATAFORMA que no regresso de Macau, no final de janeiro, logo na transferência de voo em Londres foi recebido com olhares de desconfiança por quem estava à sua volta por estar a usar máscara. Durante o voo de três horas sentiu que as pessoas evitaram contacto com ele. O estudante reside perto de uma escola básica, por onde passa todos os dias à hora de almoço, e é sobretudo aí que tem recebido “bocas”: “chinoca” e “coronavírus” são as palavras que mais ouve, mas por vezes lá escuta um “sai do meu país”. Algumas atitudes discriminatórias contra chineses também têm acontecido no campus e nas residências.

“Na biblioteca da universidade, como o espaço é limitado, toda a gente está sentada muito perto uns dos outros. Mas agora, quando me sento e abro o computador, em alguns minutos as pessoas à minha volta levantam-se”, adiantou.

No prédio onde está instalado e partilha casa, toda a gente se conhece. Depois do surto, disse sentir-se olhado de forma diferente. Já assistiu a vizinhos a fecharem as portas quando está a chegar a casa. No final de janeiro, ouviu o que não esperava, de uns vizinhos, um casal português: “Não queremos morrer, não queremos apanhar o vosso vírus chinês”. Adiantou ainda que se envolveu numa discussão com um dos colegas com quem partilha casa por este o “evitar mal ouvia a porta abrir-se”. 

Em termos de ambiente social, alguns restaurantes chineses partilharam em grupos de WeChat que o negócio diminuiu em 90 por cento nas últimas semanas. Também em alguns restaurantes foram afixados cartazes, em português e chinês, a explicar a razão para o uso de máscara, para minimizar a preocupação dos clientes. A Direção Geral de Saúde portuguesa produziu algumas informações em chinês, apelando a que os membros da comunidade chinesa informem as autoridades caso sintam algum sintoma. Esta preocupação levou o jovem estudante a comentar: “Foi a primeira vez que vi chinês num anúncio oficial em Portugal”. 

A Associação de Estudantes Luso-Macaense em Lisboa, contactada pelo PLATAFORMA sobre se tinha conhecimento de algum caso concreto de discriminação, respondeu negativamente, justificando que até há pouco dias não haviam casos positivos da doença em Portugal [há já oito confirmados], o ambiente de prevenção não estava muito presente no país e, inclusive as pessoas não estavam a utilizar máscara.

Por isso, admitiu a associação, criaram-se algumas situações preocupantes no caso de alguns estudantes acabados de regressar de Macau e que estavam a usar máscara. 

Em conclusão, a atitude dos portugueses perante alunos de Macau continua a ser amigável, as situações que aparentam discriminação ou até xenofobia continuam a ser casos isolados. A associação recomenda aos estudantes para continuarem a manter alguma comunicação com a comunidade local, promovendo “a compreensão mútua”. Sugeriu também que aqueles que regressam ao campus provenientes de áreas com casos confirmados façam um isolamento e não tirem as máscaras. “Assim demonstram um sentimento de segurança para sai a para os outros”, concluiu. 

Já o Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong respondeu não ter conhecimento de situações de alegada discriminação face a alunos universitários de Macau a estudar em Portugal. “Caso tais situações sejam confirmadas apenas temos a lamentar. Como face a qualquer situação de discriminação no mundo, o que será necessário é promover mais informação sobre um determinado tema, o que facilitará a sua compreensão, e mais tolerância entre todos os setores da sociedade”, esclareceu a representação diplomática em resposta ao PLATAFORMA.

Em Portugal, entidades como a Câmara Municipal de Lisboa, a Direção-Geral da Saúde e a embaixada da China em Portugal já lançaram algumas ações, designadamente ao juntarem-se e visitarem restaurantes e lojas chinesas de Lisboa, para “combater o estigma” associado ao novo coronavírus.

A Direção dos Serviços do Ensino Superior de Macau disse, também em resposta ao PLATAFORMA, desconhecer, até à data, quaisquer atos discriminatórios contra estudantes do território em Portugal. Caso exista algum problema, adiantou, os alunos devem entrar em contacto com a Delegação Económica e Comercial de Macau, em Lisboa. Os serviços já enviaram também um e-mail a todos os alunos, apelando para os cuidados na higiene pessoal e das residências como medidas preventivas. Contactada a Embaixada da China em Lisboa, não obtivémos resposta. 

‭ ‬Johnson Chao 06.03.2020

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