Greve trouxe represálias - Plataforma Media

Greve trouxe represálias

A Hospital Authority Employees Alliance denuncia represálias contra profissionais que participaram na greve que paralisou o sistema de saúde em Hong Kong no início do mês. A presidente do sindicato, Winnie Yu, rejeita ligações com os protestos contra o Governo que tiveram lugar durante nove meses.

A greve na primeira semana de fevereiro durou cinco dias com uma participação média de oito mil profissionais de saúde, 1/10 do número total de funcionários da Hospital Authority. Ao PLATAFORMA, a presidente do sindicato Hospital Authority Employees Alliance, Winnie Yu, diz que todos os profissionais que participaram, voltaram ao trabalho entretanto mas dá conta de represálias. “Recebemos queixas de profissionais que receberam emails ou avisos dos superiores. Por exemplo, médicos e estagiários que foram avisados que poderiam chumbar nos exames de admissão por causa de terem participado na greve”, denuncia a líder da organização criada em dezembro.

O sindicato, acrescenta Yu, também tem recebido queixas por causa do que diz ser a falta de apoio da Hospital Authority aos profissionais de saúde nesta fase do novo coronavírus COVID-19.

A maioria, explica, evita voltar a casa quando termina os turnos com receio de ter contraído o vírus e de contagiar a família. Por isso, optam por dormir em hotéis ou outros alojamentos. “O problema é que a Hospital Authority só dá o subsídio de 500 dólares de Hong Kong diários aos membros das dirty team [responsável pelos pacientes infetados em quarentena], os outros têm de custear os gastos. Além disso, alguns hotéis estão a recusar alojar profissionais de saúde por receio de contágio. A Hospital Authority também não fez nada a esse respeito”, lamenta.

A falta de proteção, como as máscaras, é outro dos problemas que aponta. Winnie Yu explica que a escassez de recursos faz com que o protocolo e as linhas de orientação para o pessoal médico sejam “constantemente alterados” devido à carência de equipamento.

Por agora, a presidente do sindicato diz que uma nova greve está fora de questão. “Estivemos sob muita pressão e por isso não vamos optar por esse caminho.”

Em alternativa, o grupo considera outros meios como reunir os avisos e ameaças de que os alguns profissionais são alvo e submetê-las à Hospital Authority. O objetivo é pressionar o Executivo a ceder às cinco exigências do sindicato. À cabeça, o encerramento da fronteira com o Continente. “Queremos sublinhar que se a origem do vírus não for parada, não interessa se há recursos ou não porque nunca vamos conseguir dar resposta”, vinca.

Winnie Yu faz questão de esclarecer o intuito de uma solução considerada por muitos de xenófoba e política, e pelo Governo de Hong Kong de discriminatória e impraticável: “Temos de ser claros nisto. Queremos o encerramento das fronteiras, mas não nos estamos a referir só aos chineses do Continente, é para todas as nacionalidades”.

Horas depois da greve começar, a Chefe do Executivo anunciava o encerramento de mais quatro fronteiras com o Continente. Agora, 10 das 13 entradas estão fechadas. A pressão sobre o Governo também veio de outros setores. Quatro dos atuais e antigos líderes do Liberal Party – normalmente a favor do setor empresarial, do Governo e de Pequim – criticaram Carrie Lam por recusar encerrar as fronteiras. Uma medida que também tem o apoio de três quartos da população de acordo com uma sondagem do Hong Kong Public Opinion Research Institute.

Além de fechar a fronteira com o Continente, o sindicato tem mais quatro exigências: quer que o Governo assegure máscaras cirúrgicas suficientes; suspenda serviços que não são urgentes para proteger os funcionários e evitar o surto; assegurar equipamento suficiente para todo o pessoal; e que isente de sanções os profissionais que fizeram greve.

Às acusações de ter ligações aos protestos de Hong Kong – que duraram nove meses e tiveram origem nas polémicas alterações à Lei da Extradição da região -, Winnie Yu rejeita qualquer associação: “Somos apenas um sindicato, constituído por profissionais de saúde sob a alçada da Hospital Authority. Portanto, acho que não temos uma relação próxima com os protestos”.

O PLATAFORMA procurou obter informação junto da The Hospital Authority e do Food and Health Bureau mas sem sucesso. Só o Health Department de Hong Kong respondeu.

 

Mea culpa

Aquando da greve por parte dos profissionais de saúde de Hong Kong, as autoridades disseram que a decisão tinha afetado de forma gravosa emergências, unidades de terapia intensiva neonatal nos principais hospitais públicos, além de tratamentos contra o cancro. “Não queríamos chegar até aqui, mas como a Hospital Authoraty não nos respondeu, tivemos de o fazer. As consequências são da inteira responsabilidade da Hospital Authority. Temos de admitir que houve pacientes afetados, aos quais temos de pedir desculpa. Mas insisto que o impacto da greve é da responsabilidade da Hospital Authority e do Governo”, reforça Winnie Yu, presidente do Hospital Authority Employees Alliance.

Equipas limpas vs equipas sujas

Ao PLATAFORMA, a presidente da Hospital Authority Employees Alliance, Winnie Yu, explica que há duas equipas médicas nos hospitais públicos para responder à crise do novo coronavírus: as dirty teams [responsáveis pelos pacientes infetados] e as clean teams [dedicadas aos pacientes suspeitos e restantes doentes]. Depois dos médicos e enfermeiros em equipas especializadas identificarem os casos suspeitos e os confirmados, os profissionais fazem turnos na ‘dirty team’ e na ‘clean team’. Os turnos, acrescenta, são iguais, normalmente de oito horas durante o dia, e de 10 a 12 horas durante a noite em alguns hospitais.

Todos juntos

Em resposta ao PLATAFORMA, os Serviços de Saúde rejeitaram responder às perguntas sobre a greve da Hospital Authority Employees Alliance assim como às questões relativas aos recursos, resposta e gestão da crise provocada pelo Covid-19, e decisão de fechar unilateralmente a fronteira com Macau para prevenir a expansão do novo coronavírus. Os serviços dizem não estar em posição para contestar. Sobre a cooperação interregional, o único tema a que o jornal obteve resposta, o organismo explica que “tem mantido uma ligação e cooperação próximas” com as autoridades nacionais, da província de Guangdong e de Macau através de um mecanismo “que obriga a que Hong Kong, o Continente (incluindo a província de Guangdong) e Macau partilhem dados sobre doenças infeciosas, incindentes de emergência de saúde pública e medidas para responder ao aparecimento de doenças infecciosas mais graves”, detalha o departamento.

Catarina Brites Soares 28.02.2020

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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