“Passo os dias no que imagino ser a vida de um presidiário” - Plataforma Media

“Passo os dias no que imagino ser a vida de um presidiário”

Xangai, Pequim e Shenzhen são três das cidades sob altas medidas restritivas por causa do novo coronavírus. Habitantes de cada um dos locais dizem sentir-se seguros e explicam como têm vivido o último mês em clausura. Condenam as autoridades, mas sentem-se seguros.

Tudo mudou há um mês, quando eclodiu o surto do coronavírus – COVID-19 – que se espalhou pelo país e além dele, em dias. Estima-se que cerca de 780 milhões de pessoas ainda estejam sob medidas de restrição, como quarentenas obrigatórias e limitações nas entradas e saídas de zonas residenciais. Apesar do alívio das restrições em algumas zonas, o alerta máximo mantém-se na província de Hubei, em parte da província de Liaoning e nas duas cidades chinesas mais importantes: Pequim e Xangai.

Andreia Peres, José Drummond e Rosendo da Costa partilham a experiência que vivem e se multiplica em milhares de lares, depois de ter sido decretado o isolamento de Whuhan, epicentro do vírus, a 23 de janeiro.

José Drummond diz que acorda sem outros planos que não seja o de encomendar comida. “Por vezes nem sequer tiro as roupas de estar em casa ou o pijama. Vive-se num estado de dormência grande. Os dias são um misto de monotonia e ansiedade”, conta a partir de Xangai, onde vive há dois anos.

Nas primeiras semanas, conta que os sonos eram interrompidos em busca de mais informação, e que fazia maratonas de filmes e séries. Com o agravar das regras de quarentena, continua, passou a sair cada vez menos, a dormir cada vez mais e, lentamente, a voltar ao trabalho no atelier. “Também deixei de querer estar tão ligado a um écran. Apesar disso ainda não me consigo abstrair. Os dias baralham-se. De repente não sei se é segunda, terça ou domingo.”

Os dias de Andreia Peres, em Shenzhen, também foram passados em casa, com a família, até deixar a cidade, na semana passada. “Sentimo-nos bem, mas ter de estar em casa obrigatoriamente não é ideal”, desabafa.

Rosendo da Costa resume: “Passo os dias no que imagino ser a vida de um presidiário, tirando o facto de não ter com quem partilhar a cela”. O advogado diz que acorda, vê o número de infetados – “que nunca baixam” -, o mapa – “para ver onde está o infetado mais próximo” -, e trabalha – “no que posso”. “Tirando isso, são dias passados em vazio. Tento melhorar o mandarim, ver séries, jogar e afastar-me do drama que se vive nas redes sociais e nas notícias”, refere.

 

Em crescendo

 

O advogado tinha voltado do Vietname uma semana antes do Ano Novo Chinês – quando a crise rebentou. No início associou a ausência de gente ao período, até que começou a ver vários residentes de máscara. Agora, diz que Pequim parece ter sido abandonada à pressa.

Sobre a resposta ao vírus na capital, conta que saiu uma lei extraordinária que obriga qualquer pessoa que venha para Pequim a 14 dias de quarentena obrigatórios em casa ou hotéis, sob pena de ficar sujeita a pagamento de coimas e outras consequências jurídicas; que a maioria dos condomínios não permite que não residentes – visitas ou estafetas de entregas – entrem, que há outros nos quais só se pode entrar com cartões de residente, e que em alguns “hutongs” fecharam ruas e avenidas.

“As pessoas estão mais impessoais, evitam abrir portas com as mãos, usando os pés; evitam carregar em botões de elevadores, usando chaves, mangas ou os cantos dos telemóveis; olham franzindo as sobrancelhas para quem não anda de máscara, evitam contacto, tocar-se ou passar muito perto das outras, acabando por gerar um clima em que se evitam”, descreve.

Cerca de 1.4 mil milhões de pessoas assustadas e deprimidas. É isto a China hoje, resume Drummond. Um estado de espírito que, acrescenta, se repete em Xangai. “Depois daquilo que pareceu inevitável, que para nos protegermos e proteger os outros o melhor era ficarmos em casa, as pessoas demonstraram ter um sentido de obediência e união que considero notável em torno de uma causa comum”, realça o artista.

Em Shenzhen, Andreia Peres diz que, à semelhança do resto do país, o uso de máscara é obrigatório, há constantes controlos de temperatura, e luvas e fatos especiais para alguns trabalhadores. “Passa uma sensação de medo, mas o grande problema é que as pessoas estão muito mal informadas o que leva a comportamentos obsessivos e de pânico”, alerta.

 

As melhoras

 

Apesar do pânico, Drummond realça que se vão vendo mais pessoas e carros na rua, ainda que cerca de 95 por cento do comércio continue fechado. Está tudo praticamente dependente do online, que pode demorar até três dias na entrega. “Diria que o estado de espírito é, ainda, de apreensão. Penso que é óbvio para todos que este vírus vai continuar a limitar-nos a vida até abril ou maio”, antecipa.

Na capital, as ruas e centros comerciais também continuam vazios e sem trânsito, e os poucos pedestres que se aventuram, refere Rosendo da Costa, evitam tocar-se. “Numa cidade vibrante e barulhenta como Pequim, existe um silêncio que não encontra paralelo com uma aldeia velha e desabitada.”

Ao nível de recursos, nenhum sentiu uma grave falta de bens de primeira necessidade, como alimentos, mas todos falam da escassez de outros que agora são tão ou mais importantes. “Um dos maiores problemas que se continua a assistir é a escassez de máscaras, que se esgotaram em Xangai no dia 22 ou 23 de janeiro, e que em poucos dias passaram para preços alucinantes no comércio online”, aponta Drummond.

O Ministério do Comércio garante ter importado mais de 1,2 mil milhões de máscaras para colmatar a procura, mas parece não chegar.

“Sendo o uso compulsivo em todo o país desde o início da crise, com as farmácias fechadas, o comércio online a ser entretanto interrompido de modo a evitar abusos e máscaras falsas, e o facto de só ser aconselhado o uso por um período de quatro horas, e sem que o Governo – que entretanto anda de condomínio em condomínio, e após registo, a fornecer três máscaras por pessoa – consiga dar uma resposta imediata a esta falta, é ainda um problema por resolver”, vinca.

Até hoje, continua, o Governo de Xangai só distribuiu máscaras uma vez. José Drummond, por exemplo, ainda está à espera que lhe telefonem para levantar as que tem direito. Tem stock porque um amigo comprou as que lhe estão destinadas em Macau por ser residente e lhe enviou, assim como amigos de Portugal. “Se andares sem máscara e fores apanhado, podes ir preso. E tiram-te a temperatura em todo o lado”, realça.

Em Pequim, e apesar de a cidade ter exigido que os fabricantes nacionais aumentem a produção de máscaras e equipamento de proteção, e de outras indústrias terem convertido a linha de produção para ajudar, a escassez repete-se.

Rosendo da Costa diz que também houve dias que não conseguia encontrar carne de vaca, alguns legumes e que a maioria dos produtos frescos disponíveis eram frutas ou vegetais que se conservam mais tempo, como batatas, cenouras e frutos secos. A falta de produtos e consequente demora no mercado online, faz com que sinta que recuou no tempo. “A melhor opção é ir aos supermercados cedo, apanhar os melhores produtos e carregar os sacos para casa.”

Andreia Peres nunca sentiu falta de nada, pelo menos onde vive. “Não posso afirmar relativamente a outras áreas da cidade”, ressalva.

 

Confiança

 

As medidas das autoridades para estancar o vírus conduziram a uma situação de clausura e têm motivado contestação social, sobretudo pela demora na reação quando o surto surgiu em Whuhan, na província de Hubei.

Apesar de partilharem da indignação, não deixam de ficar perplexos com a resposta.“Penso que nenhum país no mundo conseguiria conter esta pandemia desta forma e, para isso, decerto que temos que ter em conta dois elementos: um Governo autoritário que rapidamente põe em efeito mediadas draconianas mas seguras para poder conter o vírus e, talvez mais importante, um povo estoico, determinado, e que sem dar ideia de acreditar em muito mais, acredita na sua preservação”, sublinha José Drummond.

Andreia Peres também sente que há confiança nas autoridades e realça que, agora, o Governo está a tomar precauções. “No entanto, tudo isto poderia ter sido evitado, se tivessem tomado medidas mais severas logo no início, como ter isolado Wuhan completamente, ter cortado os voos domésticos sobretudo na altura do Ano Novo Chinês e não terem adiado afirmar o que se estava realmente a passar”, ressalva.

“Haver apenas cerca de 300 infetados naquela que é a capital da seguda maior economia do mundo com uma população de 21 milhões de habitantes, dá-me a sensação de o risco de contágio bastante baixo”, sublinha Rosendo da Costa.

 

Ir ou ficar

 

O advogado não relativiza o cenário dramático mas quer ficar em Pequim, onde reside há seis anos. “Perguntaram-me no escritório de Portugal se queria regressar, tive insistência da família mas recusei. Pequim é a minha casa. Não a abandono a não ser em situação extrema, o que não me parece o caso, de momento”, sublinha.

Drummond pesou a possibilidade mas abandonou a ideia. “Quero ficar e ajudar a voltar a dar vida a esta cidade. Além disso, sinto-me bastante seguro e agora adaptado.”

Andreia Peres, que tinha um negócio de coaching, decidiu deixar Shenzhen, não por causa do vírus mas pelas consequências que trouxe. “As empresas estão fechadas sem data prevista de recomeçarem. E mesmo que recomecem, quando é que voltará a existir confiança em certos serviços? É uma incógnita. O meu marido é treinador de futebol numa academia, dificilmente os pais vão lá deixar as crianças. Estamos a aproveitar este interregno para fazer um intervalo da China”, explica. Deixa a cidade que foi casa no último ano depois de dois em Pequim, com uma certeza: “Pretendemos voltar”.

 

Catarina Brites Soares 28.02.2020

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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