Homicídios de indígenas crescem por causa de terras - Plataforma Media

Homicídios de indígenas crescem por causa de terras

Sete líderes indígenas foram assassinados este ano devido a disputas territoriais. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) prevê o aumento do número de mortes em 2020, caso o Governo não promova uma reforma agrária.

Em entrevista à agência Lusa, o padre Paulo César Moreira, membro da coordenação nacional da CPT, uma organização ligada à Igreja Católica que luta pelos direitos dos povos no campo, afirmou que o atual Executivo, liderado por Jair Bolsonaro, está refém dos grandes interesses económicos que colocam em causa a defesa dos povos nativos.

“A terra é o elemento central da disputa, porque as empresas querem minérios, água, madeira, querem a própria terra para especulação e para o avanço das ‘commodities’ [matéria-prima] agrícolas. O grande problema é que o Executivo, o Estado, está a legitimar as violências que sempre aconteceram, mas que agora têm aumentado muito”, advogou o pároco.

O coordenador da pastoral identificou a violência por parte de “pistoleiros e milícias armadas no campo”, como um dos fatores que tem deixado as comunidades indígenas, tradicionais e quilombolas [descendentes de negros que fugiram da escravidão] bastante vulneráveis a homicídios e perseguição.

“Na verdade, estamos a viver um processo político institucionalizado de total desrespeito pelos diretos dos povos da terra. Como os indígenas são comunidades que lutam há séculos pelo direito à terra, pela preservação e regularização dos seus territórios, o capital – e aí o Governo brasileiro torna-se refém submisso do capital e das empresas -, está numa ofensiva contra esses povos nativos”, argumentou Paulo Moreira.

“Se depender da política governamental, as mortes contra indígenas vão aumentar sim. Não há nada no Governo que mostre que quer voltar atrás. Atualmente, existe uma mentalidade, uma movimentação social, que acredita que os indígenas, quilombolas, os pobres, devem ser eliminados. Uma postura fascista, que tem crescido como postura social. Se não houver uma posição contrária, a tendência é o aumento da violência”, frisou.

De acordo com um levantamento da CPT, em 2019, o número de assassinatos de lideranças indígenas em conflitos no campo dentro do Brasil foi o maior em pelo menos 11 anos, com sete mortes registadas, face às duas contabilizadas em 2018.

Segundo organizações de direitos humanos, os ataques contra os povos indígenas aumentaram desde que Jair Bolsonaro assumiu a Presidência a 1 de janeiro.

“Os assassinatos ocorreram em territórios que já estão em disputa, por exemplo, o índios Guajajara, que foram assassinados nas últimas semanas, já denunciam os ataques a comunidades há muito tempo. Inclusive, pedindo por segurança”, indicou o coordenador da Pastoral. 

Bolsonaro orgulhoso

Após a morte a tiro de dois indígenas em dezembro, o ministro da Justiça do Brasil, Sergio Moro, autorizou o envio de tropas da Força Nacional para atuarem na região. “É uma ação superficial porque não há o real interesse em resolver o problema indígena, pelo contrário, os pronunciamentos do Presidente Jair Bolsonaro são de um total descompromisso e de uma postura muito clara, de que não haverá nenhum direito respeitado, e politicamente levado à frente por este Governo”, afirmou Paulo Moreira.

Bolsonaro sempre disse que não pretende delimitar novas terras indígenas e que legalizará a mineração artesanal nas reservas porque os índios devem ser considerados cidadãos brasileiros como todos os demais, com o direito de progredir, e não podem ser mantidos nas aldeias.

Para a Comissão Pastoral da Terra são muitas as medidas que o atual Executivo deve tomar.

A CPT defende que, “primeiramente, o Governo tem de buscar punir os agressores dos povos”, algo que consideram “fundamental” para que a impunidade não prevaleça.

“Outro ponto muito importante é a regularização dos territórios porque a invasão aos territórios é muito grande, assim como o assédio e a disputa. É preciso legalizar e dar autonomia territorial para esses povos”, acrescentou.

“É lamentável que desde  2016 até agora, com o fim do Governo de Michel Temer, e eleição de Bolsonaro, os órgãos responsáveis pelas políticas da reforma agrária e pela politica indigenista tenham sido totalmente ‘sucateados’. Foram destruídos. Muitos desses órgãos foram ainda entregues a grupos do próprio agronegócio ou dos ruralistas”, denunciou a entidade.

A 11 de dezembro, o chefe de Estado brasileiro usou a rede social Twitter para comemorar a diminuição das ocupações territoriais por parte do Movimento Sem Terra (MST), um movimento de ativismo político e social brasileiro que teve origem na oposição ao modelo de reforma agrária imposto pelo regime militar, principalmente na década de 1970.

De acordo com Bolsonaro, desde que assumiu o poder, ocorreram apenas cinco invasões, enquanto que em gestões passadas os valores ascenderam às centenas.

Para Paulo Moreira, essa diminuição deve-se ao “clima de terror” implantado pelo atual mandatário, assim como pela flexibilização da política de armamento.

“Com isso, houve a aprovação de uma grande quantidade de agrotóxicos, degradação dos órgãos públicos, flexibilização da política de armamento, ampliou-se a utilização de armas no campo, e todo esse aparato tem demonstrado a ligação umbilical orgânica entre o agronegócio e o Governo”, defendeu o padre.

Paulo Moreira salienta que as ocupações dos Sem Terra são feitas por famílias, que tencionam pressionar o Governo para que seja feita a reforma agrária: “São famílias, mães, pais, crianças e idosos. Essas pessoas não podem ser colocadas de uma forma desorganizada frente a uma política de armamento e de incentivo à criminalização”, declarou.

A CPT sublinha que neste momento, no Brasil, não existe Democracia, não há liberdade para reivindicar o direito à terra.

“Os grupos fascistas e as milícias armadas têm crescido no Brasil, a polícia tem agido com muito mais violência, o judiciário tem agido com muito mais força contra os Sem Terra. É um contexto de terror para os povos do campo e precisamos de parar, para travar uma estratégia de luta pelos direitos do campo”, disse à Lusa o religioso brasileiro. 

Exclusivo Lusa/Plataforma Macau 27.12.2019

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Related posts
Opinião

Liberalismo selvagem

Opinião

A Carne De Porco É Cara? Criemos Porcos!

Opinião

Pedido de Compensação Americano Terá Lugar Amanhã

Opinião

O caminho da montanha

Assine nossa Newsletter