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Guerra comercial está a ficar cara

A guerra comercial iniciada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, com diferentes parceiros está a causar problemas à China. Pequim enfrenta novos desafios na exportação dos seus produtos para o maior mercado do mundo. O conflito de tarifas aduaneiras também está a ter custos para a Europa. 

Desde o início das disputas comerciais entre Washington e Pequim, a bolsa de Xangai já caiu mais de 11 por cento, a economia chinesa abrandou e o renmimbi tem desvalorizado continuamente. Especialistas defendem que a Europa também sentirá o impacto.

“A Europa usa a China como um centro de exportações para todo o mundo”, afirma Yokon Huang, antigo diretor do Banco Mundial para a China, num encontro com jornalistas em Pequim.

“As empresas europeias estão três ou quatro vezes mais vinculadas à economia e produção chinesas do que as norte-americanas”, acrescenta o autor de Cracking the China Conundrum: Why Conventional Economic Wisdom Is Wrong.

Na semana passada, Trump disse estar pronto para impor taxas alfandegárias sobre 500 mil milhões de dólares de produtos chineses, cerca da totalidade das importações norte-americanas da China.

Analistas preveem que as medidas levem a um abrandamento de mais de 0,3 por cento no ritmo de crescimento da economia chinesa, que no segundo trimestre do ano se fixou em 6,7 por cento, uma décima a menos do que no trimestre anterior. 

Desde o início do conflito comercial, há cerca de dois meses, a moeda chinesa já desvalorizou mais de 6 por cento face ao dólar norte-americano. As praças financeiras chinesas continuam a recuar, e ilustram o pânico entre investidores face a uma guerra comercial entre as duas maiores economias do planeta.

O presidente norte-americano exige uma balança comercial mais justa e que Pequim ponha fim a subsídios estatais para certos setores industriais estratégicos. Pelas contas de Washington, no ano passado, a China registou um excedente de 375,2 mil milhões de dólares norte-americanos no comércio com os Estados Unidos da América (EUA).

Entretanto, Trump já impôs taxas alfandegárias de 25 por cento sobre 34 mil milhões de dólares de importações oriundas da China, contra o que considera serem “táticas predatórias” por parte de Pequim que, acusa, visam o desenvolvimento do setor tecnológico chinês. 

Yokon Huang, lembra, porém, que “o comércio não é uma questão bilateral, mas multilateral”. “As empresas estrangeiras são responsáveis pela maior parte das exportações do setor manufatureiro da China”, realça.

O economista salienta que numa guerra comercial entre Pequim e Washington, a Europa também acaba por sofrer um “grande impacto”, sobretudo a Alemanha, em que 30 por cento das exportações para os EUA passam pelo país asiático.

Mats Harborn, presidente da Câmara de Comércio da União Europeia na China, admite que a entrada em vigor de taxas nos EUA sobre as importações chinesas “atingiu imediatamente” as empresas europeias que dependem do fluxo internacional de componentes.

As empresas, acrescenta Harborn, estão a “esforçar-se para reajustar as cadeias de fornecimento”, para que bens com destino aos EUA não passem pela China.

Alguns governos europeus partilham das críticas de Washington às práticas comerciais chinesas, nomeadamente às dificuldades no acesso ao mercado chinês. Não deixam, no entanto, de criticar os métodos de Trump.

As taxas alfandegárias são “um instrumento perigoso e muito incisivo” para a resolução de disputas, afirma Harborn. “Partilhamos das mesmas preocupações que os Estados Unidos. Mas há formas melhores e menos arriscadas de lidar com os problemas”, acrescenta.

Yokon Huang refere, por outro lado, que o deficit comercial norte-americano se deve unicamente à estrutura da economia do país. “Há 40 anos que os EUA têm um défice comercial. Nos tempos bons ou maus, de pleno emprego ou elevado desemprego, sempre tiveram um deficit comercial”, afirma o economista, lembrando que os “deficits comerciais dos EUA são totalmente independentes do superavit de qualquer outro país, incluindo o da China”. “E isto é uma situação única no mundo”, nota.

Para o economista, os EUA conseguem ter um deficit no comércio externo há décadas devido ao peso do dólar. “Quando os EUA pagam [por produtos ou serviços] basta-lhes imprimir mais dólares”, sublinha.

Um “privilégio exorbitante” que permite benefícios únicos ao país. “O facto de o dólar ser uma moeda global significa que muitos norte-americanos têm um padrão de vida mais elevado do que mereceriam. Na verdade, os défices comerciais são uma vantagem para os EUA”, salienta.

O dólar, acrescenta, permite ainda aos EUA manterem um domínio total sobre os serviços financeiros globais.“O poder de desistir do acordo nuclear do Irão ou de não levantar sanções sobre a Coreia do Norte, independentemente do que o resto do mundo faz, acontece porque são [os EUA] que controlam o sistema financeiro internacional”, explica Yokon. “Estamos em plena guerra comercial porque os défices comerciais supostamente prejudicam os EUA. Mas a realidade é que ajudam os EUA”, remata.

João Pimenta 27.07.2018

Exclusivo Lusa/Plataforma Macau

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