Hong Kong lança sal sobre as feridas de Macau

por Arsenio Reis

No dia 23 de agosto, os tufões Hato e Pakhar assaltaram a cidade de Macau em sucessão, causando enormes danos sem precedentes, incluindo dez mortes e danos materiais que são atualmente ainda difíceis de calcular. Contudo, depois do desastre, com a cooperação das forças policiais e o apoio de mil militares do Exército de Libertação Popular, a cidade rapidamente retomou grande parte do seu funcionamento, sem existir a ocorrência de desastres subsequentes. 

Embora atualmente algumas ruas ainda possuam destroços de árvores partidas pelo vento que ainda não puderam ser limpos, estes já foram contudo deslocados para locais onde não impedem o trânsito, como os espaços verdes entre as estradas, para posterior eliminação. Algumas pessoas que necessitaram de ajuda devido à falta de água e luz em alguns prédios, particularmente pessoas doentes, debilitadas ou idosos que vivem sozinhos, tiveram a ajuda de voluntários, e o quotidiano regressou gradualmente ao normal.

Efetivamente, Macau sofreu com estes tufões danos sem precedentes, mas com o espírito de ajuda mútua de toda a população e as atividades de auxílio, toda a cidade pôde rapidamente recuperar a normalidade. Muita da ajuda veio da iniciativa própria de voluntários e jovens (incluindo alguns camaradas estrangeiros). A maior parte não se conhecia, contudo, face ao desastre, foram capazes de oferecer o seu rápido apoio a quem necessitasse e de limpar o lixo que cobria a cidade, demonstrando o espírito de ajuda, afeto e integridade da população de Macau. Porém, enquanto Macau sofria os efeitos da calamidade, alguns em Hong Kong deleitavam-se com o sofrimento alheio, lançando sal sobre a ferida.

Uma “vedeta” da Rádio Comercial de Hong Kong disse que o desenvolvimento económico de Macau nos últimos anos e os milhares de patacas oferecidos aos cidadãos todos os anos causam muita inveja aos residentes de Hong Kong, contudo, desta vez, com o tufão Hato a causar a perda de várias vidas, estes milhares serão apenas “presentes funerários” oferecidos pelo governo (dinheiro oferecido a familiares de falecidos para ajudar a suportar as despesas do funeral). 

Estas suas palavras foram proferidas quando Macau ainda estava a sofrer os efeitos do tufão e a cidade se encontrava numa situação extremamente difícil. Embora este repórter de Hong Kong seja considerado um “académico” erudito, as suas palavras face ao sofrimento em Macau têm um certo sabor a ‘schadenfreude’ motivado pela inveja, com o locutor a retirar prazer de atirar sal para as feridas alheias. 

A maioria dos habitantes não ficou satisfeita com estas palavras, mas continuou silenciosamente e efetuar os seus esforços de socorro. Ainda assim, nem todos se conformaram com o facto de esta pessoa estar a juntar o insulto à injúria, e foi publicada uma “Carta Dirigida a Hong Kong e ao Locutor da Rádio Comercial”. Na carta, é referido que este desastre natural em Macau teve efeitos severos em termos de mortos e feridos, e é questionado o porquê deste locutor de Hong Kong exagerar a importância de algumas questões e fazer do assunto motivo de risota. A carta refere ainda que, embora Macau seja inferior a Hong Kong em termos de dimensão e população, a harmonia e ajuda entre as pessoas é a nossa característica particular, e é também um orgulho nosso como cidadãos de Macau. A carta aberta refere também o incidente de um incêndio num edifício em Hong Kong no ano passado, na qual os bombeiros tiveram de fazer esforços para apagar o fogo. Nesta ocasião, os habitantes de Macau transmitiram palavras de encorajamento a Hong Kong e sentiram pesar por aqueles que morreram, não havendo ninguém a juntar insulto à injúria. Porquê, então, é que Hong Kong demonstra agora prazer no desastre alheio e falta de compaixão? Será que não entendem o valor de uma vida humana? A carta refere que os desastres naturais são incidentes impiedosos, e que Macau não deseja que tal infortúnio suceda também a Hong Kong. No final, a carta comenta que não esperou ajuda por parte de Hong Kong, mas espera contudo que a cidade não volte a atirar sal sobre a ferida.

Esta carta, embora escrita por um luso-descendente nascido em Macau, representa os sentimentos de muitos habitantes quando refere o ‘schadenfreude’ de Hong Kong, o insulto sobre a injúria, a falta de compreensão em relação ao valor da vida humana e o uso do sofrimento de Macau como assunto de humor. Ainda assim, o conteúdo da carta é de tom moderado e simples, sem qualquer palavra inflamada ou insulto maldoso. Isto demonstra a natureza tolerante e bondosa da população de Macau. 

DAVID Chan

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