Terra e gente debaixo do tufão

por Arsenio Reis

Depois do assalto do tufão Hato, muitos locais de Macau perderam o acesso à eletricidade e água ou sofreram graves inundações. Macau, lugar de prosperidade, perdeu inesperadamente dez vidas. Para além da destruição visível, a cidade enfrenta agora todo o tipo de dificuldades. 

Depois da passagem do tufão Hato, o mais forte das últimas cinco décadas, no passado dia 23, muitos locais em Macau perderam o acesso à eletricidade e água ou sofreram graves inundações. Passada a catástrofe, havia pessoas por resgatar em parques alagados pela força das águas, ruas por limpar, um rasto de lixo e destruição, e infraestruturas básicas seriamente afetadas. Dez pessoas morreram. A cidade retoma lentamente o seu normal funcionamento, com escolas, serviços e também equipamentos turísticos afectados. Para muitos, no caos deixado pela tempestade, o simples caminho para casa transformou-se num desafio de obstáculos.

“A minha casa fica no 20º andar. Como depois do tufão fiquei sem luz e água durante três dias, tive de subir todos os dias as escadas do prédio para levar as compras e a água. Foi muito fatigante.” Cheung, de 50 anos, vive com os seus pais idosos num complexo habitacional privado na zona do Porto Interior. 

Depois do tufão, o quadro elétrico do prédio onde vive sofreu com a inundação. Uma vez que os serviços da Administração tiveram de enfrentar primeiro as inundações nos parques de estacionamento, Cheung descreve os três dias após o tufão como um verdadeiro tormento. “Mas os pior foi para aqueles que foram tentar salvar os carros nos parques de estacionamento, acabando por morrer com as vagas de água”, diz. Para Cheung, “os mecanismos de previsão do Governo não fizeram o suficiente”. “Não avisaram os residentes o mais cedo possível da gravidade do tufão, e por isso é que esta situação aconteceu”, defende. Ainda assim, Cheung força um sorriso para referir que os cidadãos de Macau são boas pessoas, acreditando por isso que o atual incidente irá rapidamente ser ultrapassado.

Nos prédios antigos da Rua da Praia do Manduco, a situação foi igualmente severa. Para conseguir obter água suficiente para as necessidades diárias, os cidadãos tomaram a iniciativa de abrir uma boca de incêndio, juntando-se numa longa fila. Uma mulher de apelido Lei justificava perante as falhas no abastecimento público que todos em sua casa, jovens e idosos, necessitavam de água, sendo essa a razão de se ter  juntado à multidão que buscava água na boca de incêndio, acreditando não haver nada de errado nisso. “Em minha casa temos luz, mas não temos água. É preciso cozinhar e lavar a roupa. Se não houver água não é possível funcionar, por isso vim aqui fazer fila.” 

Ao tomar conhecimento da situação, o Governo apontou que não é permitido aos residentes usar a água das bocas de incêndio. Por um lado, pode não restar água suficiente para a eventualidade de um incêndio, por outro lado, a água aí armazenada não foi tratada, e por isso o seu consumo constitui um risco para a saúde. Embora a maioria se mostrasse alheada dos avisos, a verdade é que é impossível subsistir sem água. “Eu vivo aqui há dez anos. Já passei por três inundações, mas esta é efetivamente a pior. Uma situação destas numa sociedade avançada acho que é algo difícil de aceitar”, dizia um residente.

“Tenho de deitar 

tudo fora”

Em entrevista num restaurante da Praça de Ponte e Horta, um proprietário, Chan, conta que tinha acabado de adquirir o negócio há três dias, e mesmo antes de poder proceder à decoração interior as águas entraram no edifício, causando danos pesados. “O estabelecimento ficou todo inundado. É verdade, tinha acabado de fazer o negócio há poucos dias e ficou assim. Agora tenho de tirar a mobília toda daqui, e depois de limpar penso melhor no que fazer”, diz ao PLATAFORMA. 

Chan, sofrendo uma calamidade logo no início do seu negócio, referiu a pouca experiência para lidar com o revés. Os artigos no frigorífico não foram afetados pelas inundações, mas, sem eletricidade, tiveram de ser devolvidos. O proprietário diz não saber o que fazer. Devido a todo o lixo acumulado no exterior, movido pelas águas, persistiam durante vários dias maus cheiros. Chan refere que irá levar algum tempo até poder recuperar o seu negócio. “O Governo de Macau sabe que a zona do Porto Interior tem problemas de inundações, mas não fez esforços para melhorar as condições. A Direção dos Serviços Meteorológicos cometeu um erro, mas em última análise a culpa é do Governo de não ter feito as retificações necessárias”, acusa.

Ung, dono de uma farmácia na Avenida de Almeida Ribeiro, diz que perdeu todas as suas poupanças. Beneficiando do turismo de Macau, o negócio de Ung estava a correr bem com a venda de medicamentos e leite em pó a turistas da China continental. Com a vinda do tufão, o vento rapidamente danificou a proteção contra a água, e a força foi tanta que a inundação atingiu todos os seus produtos. “Tenho de deitar tudo fora. São medicamentos, assim que se molham ficam estragados. Macau depende da indústria do turismo, e agora a zona turística está assim. Agora não sei onde irei abrir loja.” 

Enquanto Ung fala ao PLATAFORMA, alguns turistas continuam a tirar fotos em frente ao Largo do Senado. Uma vez que o Governo não fez uso imediato de qualquer mecanismo de emergência face às inundações, os residentes tiveram de continuar a trabalhar como normalmente. Ung mantinha-se à vista dos turistas a varrer a água para fora do seu estabelecimento, criando uma imagem irónica.

Famílias sem luz

Depois do tufão, equipamentos turísticos como o hotel Grand Lisboa, o Wynn Macau e o Hotel Starworld interromperam o seu funcionamento. Agora, praticamente todas as mesas de jogo estão com os lugares completamente preenchidos pelos turistas. Ao mesmo tempo, imagens de desolação enchem a cidade no pós-desastre. Fora dos casinos veem-se árvores caídas, com os trabalhadores a fazerem esforços para reparar os danos. Mas a zona dos casinos e a zona antiga parecem dois mundos diferentes.

Grande parte da severidade da falta de água e luz em Macau teve origem em constrangimentos na China continental. Existindo problemas no fornecimento de eletricidade a partir de Zhuhai, e sendo 80 por cento da eletricidade de Macau proveniente da China continental, este foi um importante fator na origem da situação. Ainda assim, Macau possui várias instalações de fornecimento elétrico, mas muitas foram danificadas pelas cheias, abrangendo as zonas de Areia Preta, Largo do Pagode da Barra, avenida junto ao Hotel Lisboa, zona norte, Fortaleza do Monte, Nossa Senhora da Penha e Cotai. 

Até à noite do dia após o tufão, devido a estragos nas instalações elétricas causados pelas cheias, existiam diversas situações graves de falta de eletricidade nas zonas da Praça de Ponte e Horta, Patane, Porto Interior, Fai Chi Kei, zona norte, Areia Preta e Cotai, com mais de 20 mil famílias sem luz. Mesmo que a situação do fornecimento elétrico em Zhuhai estivesse normal, Macau teria ainda assim sofrido o efeito dos seus problemas internos.

Perante a situação, os cidadãos organizaram-se em grupos de voluntários para ajudar a recolher o lixo nas ruas. Um voluntário, de apelido Wong, explica que Macau se deparou com um estado de calamidade. Tendo braços e pernas para ajudar, diz Wong, deve fazer esforços pela sua terra. “Ainda tenho trabalho a fazer no escritório, mas na realidade isso não é importante. É preferível usar a minha energia onde ela é realmente necessária. Agora uso todo o tempo livre para o voluntariado, e espero que a cidade possa voltar ao normal”, diz.  Os meios de comunicação e organizações sociais também organizaram atividades de apoio, forneceram água aos idosos ou fizeram esforços para limpar as ruas. Nos dias seguintes ao tufão, foi possível avistar nas ruas muitos jovens a oferecerem ajuda.

Chui Sai On admite que há grande margem para melhorar

Quase uma semana depois do tufão Hato atingir Macau, o chefe do Executivo, Chui Sai On, publicou uma carta de agradecimento dirigida a todos os residentes e funcionários públicos de Macau, a qual foi publicada nos media e na página do Facebook do Gabinete de Comunicação Social. Na carta, o chefe do Executivo agradeceu aos cidadãos o facto de não terem tido uma atitude passiva e acusatória, em vez disso tomando a iniciativa de fornecer água e alimentos e de limpar as ruas. 

Chui Sai On descreveu o trabalho dos voluntários como “uma ajuda mútua em tempos difíceis, demonstrando grande compaixão humana”, e manifestou-se emocionado e orgulhoso. No final da carta admitiu: “Existe grande margem para melhorias por parte do Governo, é necessário efetuar uma análise profunda às funções relevantes”. O chefe do Executivo acrescentou que é necessário fazer todos os esforços para lidar com o desastre e as suas consequências.

Para regressar à normalidade, Chui Sai On pediu ao Governo central que o Exército de Libertação do Povo Chinês ajudasse nas tarefas relacionadas com o desastre. Na passada segunda-feira, a Guarnição em Macau do Exército de Libertação do Povo Chinês anunciou ter completado as suas tarefas, tendo os militares regressado à base. O jornal Diário do Povo destacava que esta foi a primeira mobilização em Macau do Exército nos 18 anos desde a transferência de soberania, afirmando que este demonstrava com as atividades de apoio a sua coragem e dedicação. O jornal referiu também que o Governo central respondeu rapidamente ao pedido de ajuda, tendo enviado artigos de auxílio num espaço de seis horas e iniciando um plano de emergência para garantir que Macau tinha acesso a produtos agrícolas frescos. Para além das atividades de auxílio, o Diário do Povo afirmava ainda que nas primeiras fases da transferência de soberania, o Exército de Libertação do Povo ajudou a resolver os problemas de crime organizado em Macau. “Os factos mostram mais uma vez que a grande pátria-mãe é uma forte apoiante de Macau”, concluía o jornal oficial do Partido Comunista Chinês. 

John Leong

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