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Português e mandarim: a fórmula que está a resultar

Li Ling, Francisca Monteiro e Yang Yu, da Universidade do Minho, foram os vencedores de um concurso de tradução promovido por Macau. Não estão preocupados com o futuro. O motivo? Sabem português e mandarim.

Os anos que dedicaram às línguas portuguesa e chinesa já lhes valeram um prémio. E, no horizonte, oferecem perspetivas de emprego facilitadas. Li Ling, Francisca Monteiro e Yang Yu, vencedores de um concurso de tradução chinês/português promovido pelo Instituto Politécnico de Macau (IPM), acreditam que saber os dois idiomas lhes vai abrir portas em qualquer parte do mundo e garantir boas condições de trabalho.   

“Quando escolhi o português, falava-se muito sobre esta língua na China porque seria mais fácil conseguir trabalho”, diz Yang Yu. Parte de uma equipa de três alunos da Universidade do Minho (UM), foi primeiro classificado num concurso em competiram 87 equipas de 27 instituições de ensino superior do Brasil, Portugal, China continental e Macau. 

Na altura em que começou a licenciatura em Literatura Portuguesa, no Instituto de Línguas Estrangeiras Huaqiao de Jilin, “ainda havia poucas pessoas a aprender português” e Yang Yu sentiu que “seria fácil encontrar trabalho”. Agora, com 28 anos e depois de ter terminado o mestrado, volta à China confiante de que fez a escolha certa. “O Brasil tem um mercado grande para a China, e quem fala português é muito procurado.”

A convicção de que será fácil encontrar trabalho quando se dominam os dois idiomas é consensual. “É um receio que não tenho. Sinto-me completamente à vontade com este curso porque sei que em qualquer parte do mundo vou encontrar um emprego com ligação ao mandarim”, diz Francisca Monteiro.

Para a aluna de 23 anos “há poucas pessoas que estejam dispostas a dedicar tanto tempo a uma língua” e este é outro ponto a favor de quem decide estudar o idioma mais falado no mundo já que a concorrência no mercado de trabalho é menor. “O mandarim não é difícil, mas é trabalhoso”, afirma Francisca. 

Já Li Ling diz que foi no decurso dos estudos que se apercebeu de que há mais saídas profissionais para além das previsíveis, como a tradução ou interpretação. “Tive uma cadeira que se chama Linguística Aplicada em que se apresentavam projetos relacionados com outras áreas como a neurolinguística e psicolinguística, ou seja, o estudo das línguas aplicado a várias áreas”, exemplifica.

A aluna de 23 anos começou a estudar português durante a licenciatura na Universidade Sun Yat-Sen, em Guangdong. Escolheu o inglês como idioma principal e o português como segunda língua apesar das muitas opções. “Já que Macau estava tão perto de Cantão, achei que o português merecia uma tentativa.” 

Sun Lam, diretora da licenciatura de Estudos Orientais e do mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês da UM, sustenta o futuro que os seus alunos antecipam. “Há dois anos que acompanhamos uma estatística nacional sobre a empregabilidade dos cursos das universidades portuguesas. O desemprego no nosso curso é quase inexistente”, garante. 

A professora dá como exemplo o sucesso dos estudantes que passaram pela universidade e conta que muitos são hoje leitores de português e responsáveis pelos cursos de ensino da língua em universidades chinesas, outros trabalham em diferentes institutos Confúcio a dar aulas de mandarim, ou na comunicação social, como tradutores e jornalistas, e ainda em empresas.  

Para Sun Lam a empregabilidade, bem como o aumento da procura e da oferta de cursos que juntam o português e o mandarim, deve-se ao interesse de Pequim nas economias dos países lusófonos. “Sei que muitos alunos vão para estes cursos porque sabem que há emprego. Há muitas empresas da China à procura de tradutores”, afirma a docente que dá o exemplo das empresas China Three Gorges ou Huawei que investiram no mercado português e onde a oferta de emprego é “muita”.

Os resultados da UM mostram o interesse crescente nos idiomas. Sun Lam refere que a universidade tem aumentado o número de vagas da licenciatura e mestrado de ano para ano e que ficam preenchidas logo na primeira fase. 

Francisca tem bem claro que há muitas saídas profissionais, mas não foi por isso que decidiu estudar mandarim. O empurrão da mãe aliado à paixão pela cultura chinesa fê-la desistir de Direito, mudar para o curso de Línguas e Culturas Orientais e seguir com o mestrado. “O mestrado permitia-me fazer um ano de intercâmbio, imergir na cultura chinesa e aprender o idioma em constante contacto com o mandarim, que é um desafio e me obrigaria a desenvolver a língua, fora o resto.”

E o resto, ainda que “não tenha sido nada de mais”, deu algumas dores de cabeça e de barriga quando andou pelo Oriente. “Aconteceu-me muitas vezes estar a falar e ficarem a olhar para mim com um ar muito sério, especialmente nos supermercados ou no médico. Esforçava-me ao máximo porque eram palavras complicadas, como gastroenterite, e não conseguia”, conta.

Se muita da dificuldade do mandarim se deve aos tons que é preciso dominar para ser compreendido, o português tem também fonemas que dificultam a vida a quem aprende a língua de Camões. “No início não conseguia pronunciar vários sons que não temos na nossa língua materna. O ‘r’ é sempre um problema”, recorda Li Ling que diz haver outros obstáculos que dificultam a aprendizagem da língua quando se vive na China continental. “No caso do espanhol, por exemplo, encontram-se imensos recursos online interessantes. Para aprender português são precisos alguma resistência e esforço”, distingue.

Ir para Portugal estudar ajudou-a e hoje já se sente à vontade com a língua, assim como com a cultura do país. Mas não foi assim quando chegou. “Recordo-me que a questão da pontualidade foi um grande choque cultural. No início achava um ponto negativo, mas depois comecei a habituar-me e a pensar que as pessoas vivem mais relaxadas, que não tem de se ser tudo tão rígido e que é outra forma de viver.”

Os “choques culturais” fazem parte do processo para Sun Lam que defende que só com formação e experiências pessoais ricas é possível ser bom tradutor, sobretudo quando se trata de línguas e culturas tão díspares como o português e o mandarim. “Traduzir entre as duas línguas é sobretudo traduzir duas culturas”, diz.

Para a diretora do Instituto Confúcio da UM deve “haver um esforço maior para que a tradução entre as duas línguas atinja um nível mais elevado” e se evitem erros que considera “muito graves”, como o que aconteceu recentemente no julgamento de um casal chinês em Portugal. A tradução da acusação contra os pais de uma menina chinesa de cinco anos que morreu após cair do 21º andar de um edifício no Parque das Nações, em Lisboa, referia que estes tinham sido condenados à pena de morte quando esta nem existe em Portugal.  

Sun Lam considera que por isso, e por enquanto, que é fundamental ter equipas bilingues quando se trata de traduções mais exigentes. “Temos de ter consciência que o ensino do mandarim em Portugal ou do português na China não é um ensino muito enraizado como de outras línguas que começam a ser ensinadas desde muito cedo. Sem equipas bilingues é quase impossível atingir um nível mais elevado”, defende. 

Li Ling, Francisca Monteiro e Yang Yu já têm a fórmula que parece estar a resultar e deram provas no concurso organizado pelo Gabinete de Apoio ao Ensino Superior e IPM. Os alunos bilingues fizeram a melhor tradução de 10 mil frases em mandarim, de artigos ou livros escolhidos pela organização.    

Catarina Brites Soares

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