Renminbi continua a perder terreno internacional

por Arsenio Reis

A tendência de redução de pagamentos internacionais na moeda chinesa mantém-se. Macau está a perder terreno entre os centros de compensação offshore.

A moeda chinesa continua a perder terreno na lista das principais divisas de pagamentos internacionais, com a sua utilização limitada a 1,98 por cento das transferências globais, de acordo com o último relatório da rede de comunicações interbancárias SWIFT relativo a junho.

De acordo com os dados, publicados no final da última semana, o renminbi era no final do primeiro trimestre a sexta moeda de pagamentos internacionais – posição mantida desde final do ano passado -, atrás do dólar dos Estados Unidos (40,47 por cento dos pagamentos), euro (32,89 por cento), libra esterlina (7,29 por cento), iene (3,16 por cento), e dólar canadiano (2,04 por cento).

Os dados agora divulgados são, segundo a SWIFT, indicadores de uma tendência de curto prazo de descida de utilização que reflete medidas adoptadas pela China contra a saída de capitais do país, bem como as preocupações com o ritmo de depreciação da moeda. 

“Apesar da abertura de novos centros de compensação em renminbi em mercados de todo o mundo e da inclusão no cabaz de direitos especiais de saque do FMI em Outubro de 2016, a utilização do renminbi globalmente como moeda de pagamentos perdeu dinâmica ao longo dos últimos dois anos”, diz o relatório da SWIFT.

Segundo a organização, descidas na atividade exportadora da China na primeira metade do ano e também nas vendas a retalho do país contribuíram para uma quebra nas atividades de pagamentos – em particular, pronunciada na liquidação de notas de crédito (menos 43 por cento) habitualmente utilizadas no comércio de matérias-primas, acima da tendência global de redução do uso destes instrumentos de pagamento (menos 33 por cento). Por outro lado, as transferências de créditos revelaram uma tendência estável. 

Mas, ao mesmo tempo, continuam a expandir-se os centros offshore de liquidação em renminbi – atualmente, 23 – e abrem-se novas perspetivas de utilização da moeda a longo prazo com os investimentos da iniciativa Faixa e Rota e iniciativas de gradual liberalização do mercado de capitais chinês – como o recente Bond Connect, em Hong Kong, que permite a investidores internacionais comprarem obrigações no mercado de dívida da China. 

“Apesar de os dados e tendências recentes claramente mostrarem uma utilização mais baixa no uso internacional do renminbi e um abrandamento da economia, a China está a investir em iniciativas e num enquadramento doméstico e internacional de longo prazo para apoiar a internacionalização do renminbi de forma a que este se torne numa moeda de reserva e liquidação fiável e altamente utilizada no comércio internacional, pagamentos comerciais e investimento em mercados de capitais dentro e fora da China”, nota o documento, apontando a perspetiva de um regresso ao crescimento ao longo dos próximos anos.

A SWIFT aponta por exemplo crescimentos importantes nalguns centros offshore de renminbi como Malásia (mais 551 por cento), Alemanha (mais 436 por cento) e Rússia (mais 56 por cento), ao mesmo tempo que cai a utilização do renminbi em locais como Singapura, Holanda, Itália, França e Irão. Nota ainda a emergência de remessas crescentes de pagamentos em renminbi para a Ásia Central – Tajiquistão, Uzbequistão, Cazaquistão e Turquemenistão, onde a utilização da moeda chinesa mais que duplicou.

Na listas os principais centros offshore de renminbi, Hong Kong assume um papel ainda mais dominante, aumentando a sua participação nos pagamentos internacionais para 76,26 por cento (face aos 73,96 por cento de junho do ano passado) e largamente à frente do segundo centro da moeda fora da China, o Reino Unido, cuja quota caiu nos pagamentos caiu de 6,23 por cento para 5 por cento. Atualmente, perto de metade (49,4 por cento) dos pagamentos remetidos à China continental na divisa do país passam pelo centro financeiro de Hong Kong.

Nos dados SWIFT de junho, Macau, que pretende afirmar-se como centro de internacionalização do renminbi, cai para o último lugar da lista das 15 principais economias de utilização da moeda fora da China continental, mantendo agora uma quota de apenas 0,17 por cento (contra 0,54 por cento em junho de 2016).

A rede de comunicações de pagamentos internacional destaca alguns factores que deverão permitir uma maior adoção internacional do renminbi no futuro. Entre estes está a iniciativa Faixa e Rota,  ainda que países incluídos no projeto, como Egito, Quénia, Grécia ou Índia, não possuam ainda uma atividade significativa de pagamentos em renminbi. Uma maior utilização é notada em economias como as da Malásia, Indonésia, Tailândia e Vietname, ou ainda Alemanha, Polónia e República Checa – sobretudo refletindo transferências de créditos a partir da China.

Outros factores de crescimento são a criação do sistema de pagamentos interbancários transfronteiriços CIPS na China, que numa segunda fase permitirá uma janela temporal maior para pagamentos (próxima das 24 horas diárias), e as iniciativas de conectividade ao mercado de capitais chinês a partir de Hong Kong – bolsas de Shenzhen, Shanghai e mercado de obrigações, o terceiro maior do mundo.

No entanto, a SWIFT destaca a necessidade de as práticas dos mercados financeiros chineses se adaptarem aos padrões internacionais. “É um facto que as práticas do mercado chinês nos fluxos de transações de títulos financeiros e serviços de ativos, sejam obrigações, ações ou fundos, não estão sempre bem documentadas e estão longe de estar harmonizadas com as práticas internacionais”, refere. 

Segundo a SWIFT, a indústria de ativos financeiros chinesa só agora está a olhar para este aspeto essencial à entrada de investidores estrangeiros no mercado de capitais do país, faltando por exemplo um processo de identificação de ativos internacionais que seja certificado internacionalmente.

Por fim, um último fator apontado para a afirmação internacional do renminbi é o forte desenvolvimento das novas tecnologias financeiras na China, nomeadamente no sector dos pagamentos móveis e comércio electrónico. A SWIFT destaca os 450 milhões de utilizadores do sistema Alipay, da Alibaba, e os 800 milhões do WeChat Pay, da Tencent, numa altura em que o acesso a estas plataformas está estender-se fora da China e a sua utilização é alargada a cada vez mais serviços, como a educação. 

Maria Caetano

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