Ir ou ficar, eis a questão

por Arsenio Reis

Quando chegaram a Macau, Sim-na M. Sambo, Benvinda Fernandes, Jeremias Vaz, Belany Lopes e Hirage Awisse sentiram que eram muitas vezes olhados com um misto de desconfiança e curiosidade. Mas, hoje, os cinco estudantes bolseiros de países de língua portuguesa estão adaptados e pensam num futuro, em Macau ou nos respetivos países.

O que mais estranharam quando chegaram a Macau? A resposta vem de Sim-na M. Sambo, 30 anos, Guiné-Bissau: “Estranhei que [algumas vezes] nem olhassem para mim.” Benvinda Fernandes, Jeremias Vaz, Belany Lopes e Hirage Awisse concordam.   Aperceberam-se de imediato da distância entre os seus países e a região onde vieram estudar, mas hoje estão adaptados e há quem pense ficar.

“Vim para ter uma nova experiência”, conta Hirage, 20 anos, natural de Moçambique. Soube que o Instituto Politécnico de Macau, através da Universidade Politécnica de Moçambique, estava a atribuir bolsas para o curso de chinês e resolveu aproveitar, mesmo desconhecendo o lugar para onde ia. Jeremias Vaz, 19 anos, natural de Cabo Verde, comenta: “Também não sabia quase nada de Macau e [tomei a decisão] depois de ter lido um comunicado acerca de um acordo entre o Instituto politécnico de Macau e o Governo de Cabo Verde”, diz o estudante de Gestão de Jogos.

Em Cabo Verde, joga-se? “Pequenas apostas na rua”, afirma Belany Lopes, 22 anos, natural do arquipélago e também estudante de Gestão de Jogos. Com dinheiro? “Com dinheiro”, responde, de imediato, Jeremias. “Com rebuçados”, acrescenta Belany, motivando o riso da mesa. “Jogávamos poker”, continua Jeremias, logo corrigido pela compatriota, depois de ter aprendido alguma coisa no 1º ano do curso: “Mas era um poker que não é assim tão poker.”

A chegada a Macau

Benvinda Fernandes, 23 anos, natural de São Tomé e Príncipe, recém-licenciada em Direito pela Universidade de Macau, recorda-se de ter chegado ao território, em setembro de 2012, e de não ter gostado. “Era completamente diferente — a língua, a gastronomia, a forma de se relacionar das pessoas”, refere.

Por seu turno, Sim-na, da Guiné-Bissau, chegou há quatro anos e esbarrou na necessidade de aprender inglês. “Como na maioria dos países lusófonos está-se mais próximo da língua francesa do que do inglês, chegámos e começámos por ter aulas de língua [inglês]”, recorda. Só no ano seguinte é que iniciou o curso de Arquitetura na Universidade de São José.

Aliás, Jeremias teve o mesmo problema. “Durante um ou dois meses na sala de aula, não percebia praticamente nada”, continua. Para Hirage, que está a tirar o curso de chinês, o problema é outro. “Estou a aprender mandarim e aqui toda a gente fala cantonês”, salienta.

Divergências à parte, todos conseguem enumerar pontos positivos da experiência. Para Belany, é um bom sítio para fazer “amigos de lugares diferentes”. Por outro lado, Jeremias aprecia a “segurança”. Aliás, no geral, considera o território bastante “organizado” quando comparado com o país de origem. E continua: “A qualidade da Internet… aprecio muito isso, porque a Internet dá-te uma visão para o mundo.”

Em busca de oportunidades

O futuro é uma incógnita para a maioria. “Estou a pensar ficar”, diz Hirage. Já Benvinda não tem dúvidas, ainda que agora esteja já a sentir saudades de Macau: “Se o meu país investiu em mim, acho injusto eu não regressar para apostar nele.” Sim-na pensa também regressar e “partilhar” o que aprendeu.

Com o empresário local David Chow a iniciar a construção de um hotel-casino em Cabo Verde, Jeremias e Belany têm por onde escolher. “Seria muito mais vantajoso ficar em Macau, que é uma cidade do jogo”, declara o estudante. “Mas voltar para Cabo Verde também é uma hipótese — não há pessoas formadas nesta área”, continua. 

Numa coisa todos concordam: os salários que podem ganhar em Macau são mais atraentes do que nos respetivos países. “A minha bolsa é quase o mesmo salário da minha irmã”, compara Belany. Ainda assim, dado o custo de vida, Benvinda alerta: “Três mil patacas para Macau [o valor médio da bolsa que recebem] não é nada.”  

De estudantes a residentes permanentes

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Chegaram a Macau quando ainda se levavam meses a receber notícias por carta. José Costa, Anacleto Cabaça e Graziela Lopes são três dos primeiros bolseiros dos países de língua portuguesa que vieram estudar para o território. 

José Costa, natural de Cabo Verde, integrou o primeiro grupo de estudantes bolseiros vindo de um dos países lusófonos. Chegou a Macau com seis outros estudantes do seu país, sem certezas em relação à bolsa que lhe cabia para estudar na antiga Universidade da Ásia Oriental – atual Universidade de Macau. Hoje, 27 anos depois, continua no território.

O primeiro grupo a chegar ao território começou logo por ter “dificuldade” na atribuição de bolsas. “Estava tudo mal organizado — a coordenação entre quem dava a bolsa e Cabo Verde não tinha sido bem feita e, quando chegámos, a universidade disse-nos que só garantiam as propinas e o alojamento”, recorda o advogado.

A esforço, com o apoio de várias pessoas, conseguiram que a Fundação Macau lhes assegurasse uma bolsa no valor de 2,700 patacas. “A Fundação Oriente deu uma ajuda e tivemos mais 500 patacas — ficávamos com uma bolsa de [mais de] três mil patacas”, recorda, salientando que esta era então “uma boa” quantia. 

Em 1990, quando chegou, “estranhou” o que encontrou em Macau. Ainda assim, refere: “Era mais fácil o convívio com o pessoal da comunidade portuguesa; havia uma esplanada na [praça] Ferreira do Amaral, onde os estudantes se juntavam”, recorda. Entre os pontos menos positivos da adaptação, salienta um: a comida na cantina universitária. 

Anacleto Cabaça, angolano, 41 anos, acrescenta, entre risos: “Sofremos naquela cantina.” Natural de Angola, o então estudante de Engenharia Civil chegou em novembro de 1995. No seu país, estava-se em plena guerra civil e Anacleto passava o tempo “a tentar esquivar-se à tropa”. Macau surgiu como uma oportunidade. “Já estavam cá os santomenses, os guineenses, só não havia angolanos”, acrescenta. 

Veio então com uma bolsa para a Universidade de Macau. Já tinha concluído o primeiro ano de Arquitetura em Angola, mas, como esse curso não existia na região, optou por Engenharia Civil. “Tive de começar do zero”, recorda. Além disso, “o curso era em inglês” e Anacleto vinha de Angola “sem falar” a língua. Depois, “o nível de Engenharia Civil era muito alto” e o ensino angolano tinha deficiências.

Acabou por concluir o curso muito tempo depois dos cinco anos previstos, em 2007. E só voltou a pisar Luanda 15 anos depois de lá ter saído — para trabalhar durante quatro anos.

As dificuldades na comunicação

Muitos estudantes dos países lusófonos tinham dificuldades, sobretudo na compreensão da língua veicular de ensino nos cursos que frequentavam, recorda Graziela Lopes, 36 anos. “Na Guiné-Bissau fala-se muito crioulo — vai-se à escola e fala-se português, chega-se a casa e acabou”, diz a advogada.

Chegou em agosto de 2000, porque só então ouviu falar das bolsas da Fundação Macau.  “Já havia guineenses cá [a estudar], mas todos com ligação ao poder [do país de origem]”, esclarece Graziela, recordando que até um cunhado do antigo presidente Nino Vieira foi bolseiro no território. 

Em 2000, a Guiné-Bissau estava em plena guerra civil. “Saímos de casa com a roupa que tínhamos no corpo, e dinheiro era zero”, recorda. “A Fundação Macau dizia que não pagava a passagem”, acrescenta. Foi com um bilhete pago às prestações que Graziela chegou a Macau.

Ao chegar, estranhou as diferenças. “A comida, os cheiros”, lembra. Aliás, as saudades da comida dos países de origem é uma queixa comum aos três interlocutores. “Não nos deixavam cozinhar [na residência universitária]”, recorda Graziela. “Mesmo assim cozinhávamos de ‘surra’”, acrescenta, entre risos, Anacleto.

E as saudades, no início, eram avassaladoras, sobretudo quando José chegou. “Na altura, ainda se enviavam cartas para dar uma notícia — o telefone era caríssimo”, recorda, acrescentando: “Lembro-me que a gente comprava [um cartão] e dava para um minuto de conversa.” 

Foram-se adaptando. José acabou por ficar porque surgiram boas oportunidades. “Entrei na universidade [como professor], depois entrei no gabinete que estava a preparar a reforma para o pós-1999”, lembra.

Já para Graziela, os tempos eram outros e teve de procurar oportunidades. “Eles [José e Anacleto] tinham a possibilidade de serem residentes permanentes, mas para nós era carimbo no passaporte [visto de estudante] e acabou”, recorda a advogada.

Pensam regressar? “Com mulher e filhos é muito desgastante [voltar para Angola] — são as questões da insegurança, saúde e educação”, explica Anacleto. Já Graziela, casada e com dois filhos, acrescenta: “A Guiné-Bissau não está estável, é muito complicado.” 

Luciana Leitão

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