Divisões entre democratas ensombram possibilidade de reforço na Assembleia

por Arsenio Reis

Se no final do ano passado, embalados pela energia de Hong Kong, os especialistas esperavam ver o campo democrata reforçado nas eleições deste ano em Macau, hoje o otimismo passou: a crescente divisão entre os apologistas do sufrágio universal é um mau presságio, alertam.

Para Leung Ka Yin, do Instituto Politécnico de Macau, no que toca a eleições, o ditado está errado e a divisão não vai permitir reinar. “O campo democrata dividiu-se em dois: a Associação Novo Macau (ANM) e a Iniciativa para o Desenvolvimento da Comunidade de Macau. Isto não é uma coisa boa. Eles dividiram-se mas os apoiantes não aumentaram”, aponta.

As eleições legislativas, marcadas para 17 de setembro, encontram os democratas mais divididos do que nunca. Em fevereiro do ano passado, o deputado Au Kam San deixou a ANM e juntou-se à Iniciativa para o Desenvolvimento da Comunidade de Macau, onde também está Ng Kuok Cheong, que se mantém, no entanto, nas duas associações.

Desde então, Jason Chao, um dos vice-presidentes da ANM e candidato à Assembleia Legislativa (AL) nas eleições de 2013, anunciou que ia deixar a associação, que integra desde 2005 e da qual já foi presidente. Nas últimas eleições, quando Chao concorreu numa lista em separado, a ANM perdeu o terceiro deputado, Paul Chan Wai Chi, que este mês anunciou que vai voltar a concorrer. A estratégia falhada de divisão das listas foi o primeiro grande sinal de uma cisão dentro da associação: os mais jovens, responsáveis pela direção, mostraram-se, desde então, cada vez mais adeptos de confrontação, com muitas ações de rua, e dedicaram-se a novas causas, como os direitos dos homossexuais.

Apesar de existirem outros deputados que apoiam a democracia, como José Pereira Coutinho e o colega Leong Veng Chai, é sobre Ng e Au (e toda a ANM) que recai o termo “pró-democratas”, já que o seu principal ‘cavalo de batalha’ é a implementação de um sistema ‘um homem, um voto’ para a escolha do Governo. 

À caça do terceiro deputado

Académicos ouvidos pela agência Lusa no final de 2016 davam como possível um reforço dos democratas na AL, mas agora as dúvidas persistem. “Acho que o campo democrata vai proteger os dois assentos na AL, mas não vai conseguir mais”, comenta Leung.

Apesar de haver confiança na reeleição dos dois deputados, ambos com 59 anos, Eilo Yu, politólogo e investigador da Universidade de Macau, diz que sem uma estratégia conjunta até esse resultado levanta dúvidas. “Depende de como guiam o eleitor de modo a evitar que um candidato receba demasiados votos e outros dois sofram de falta de votos. É uma questão de engenharia eleitoral”, comenta.

Eilo Yu lembra que apesar de em Hong Kong o campo democrata estar também dividido, há cooperação na altura das eleições. Já no caso de Macau, “não vejo que tenham boas relações ao ponto de cooperarem”. Em particular, “Ng e Au, filosoficamente falando, não querem um voto estratégico, querem continuar a fazer o que têm feito”, diz.

Ainda não é conhecida a estratégia eleitoral, sabendo-se que Au não irá certamente concorrer pela ANM e Ng disse ainda não ter decidido. Já a ala jovem também não revelou quem será o seu ‘cabeça de cartaz’ mas, apesar de ser Scott Chiang o presidente, os analistas são unânimes em considerar que a “estrela” é Sulu Sou, que liderou em 2014 uma manifestação contra uma proposta de lei que previa regalias para titulares dos principais cargos da região, juntando 15 mil pessoas.

Larry So, sociólogo e comentador político, acredita que Chan Wai Chi – que também pertence à ala sénior da ANM – vai integrar a lista dos jovens, mas que esta será liderada por Sulu Sou. Juntos, diz, têm “40 por cento de hipóteses” de elegerem um deputado. “Pessoalmente acho que deviam ter pelo menos mais um, e se tivessem quatro seria o meu desejo. Mas tendo em conta as circunstâncias e o ambiente político, se conseguissem três acho que ficariam muito, muito felizes”, comenta.

Apesar de Jason Chao ter dito que pretende lançar um projeto de monitorização das eleições e frisado que a sua saída não foi fruto de qualquer desentendimento com os colegas, So considera possível que o ativista venha a ser candidato por outra associação. “É muito interessado em política e em ter uma posição de poder para que possa fazer muito mais trabalho, a seu gosto. Nesse sentido acho que se vai candidatar. Ouvi que ele vai monitorizar [as eleições] em vez de estar na corrida, mas acho que isso é uma cortina de fumo”, diz.

Esta hipótese é rejeitada por Eilo Yu, que também não considera que a associação saia prejudicada com a saída de Chao, já que os seus possíveis eleitores irão votar na ANM – o esforço que os jovens têm feito para demonstrar o seu bom relacionamento pretende garantir isso.

O politólogo coincide com So na previsão do que será a lista dos jovens: “Nos últimos anos, Chan Wai Chi tem servido de ponte entre os jovens e os mais velhos para cooperação. Parece-me que quer apoiar os jovens e dar-lhes mais oportunidades na política de Macau. Acho que ele pode ser o número dois ou três da lista do Sulu”.

Todos concordam que o terceiro assento no hemiciclo está na mão do voto jovem.

“A eleição [de Sulu Sou] depende da nova geração. A geração mais velha não gosta dele, acha que é um radical. Gostam de harmonia. Depende também dos erros que forem cometidos pelo Governo e que sejam problematizados pelo campo democrata”, afirma Leung Ka Yin.

Assustados com Hong Kong

A fé nos jovens é alimentada pelo caso de Hong Kong, onde este eleitorado possibilitou uma ala democrata forte e até a eleição de alguns independentistas. Os académicos alertam, no entanto, para as diferenças entre as duas regiões. “A geração mais jovem é diferente da de Hong Kong, é mais conservadora. A motivação dos jovens de Macau é muito baixa. Muitos acham que mesmo que votem não há mudanças”, lembra Leung Ka Yin.

A instabilidade política da região vizinha – onde o Governo central interferiu para impedir a tomada de posse de alguns deputados independentistas – também assusta, alerta Larry So. “Muitas pessoas não querem que Macau se torne uma ‘Hong Kong número dois’ e tornam-se mais conservadoras. Nesse ambiente o campo democrata não pode ir longe. Hong Kong parecia estar a dar-nos uma nova perspetiva mas depois o Governo central começou a combater com mais força as pessoas que surgiram com novas ideias e Macau, que é muito conservadora nesta área, regressa à sua posição anterior”, defende.

Eilo Yu é um pouco mais otimista e considera que o caso de Hong Kong pode fazer os jovens sentir que “têm de exprimir as suas preocupações, de modo a evitar que Macau enfrente as mesmas pressões”.

A fragmentação não afeta, porém, apenas os democratas. Também a ala pró-governo, onde há grupos de regiões chinesas, como Fujian e Jiangmen, de moradores (os chamados Kai Fong), a Associação de Mulheres ou Associação Geral dos Operários de Macau, vive cisões.

Leung Ka Yin, que considera o “campo pró-China muito competitivo”, destaca Chan Meng Kam, o deputado mais votado nas eleições de 2013 e cuja associação conseguiu eleger três representantes, um recorde. “Os de Fujian têm muito mais recursos. Acho que vão tentar ter mais um deputado, talvez se separem em dois grupos”, diz.

A popularidade de Chan e da sua associação “entre a classe mais baixa” está relacionada com a multiplicidade de serviços que providenciam, como reparações em edifícios. “Isso é muito importante para os residentes, ajudam-nos a resolver problemas e as pessoas ficam muito agradecidas”, lembra Leung.

Para o académico de Hong Kong Sonny Lo, autor do livro “Political Change in Macao”, esta competição tem um “impacto mínimo” para a AL, mas pode ter importância para a eleição do chefe do Executivo, dois anos depois, escolhido por um colégio de 400 membros e raramente disputada. “Essa fragmentação pode estimular o aparecimento de mais candidatos porque há diferentes fações pró-Pequim”, conclui. 

Inês Santinhos Gonçalves-Exclusivo Lusa/Plataforma

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