Mao não, mas há “sintomas” - Plataforma Media

Mao não, mas há “sintomas”

É impossível que a China volte à era de Mao Tsé Tung, embora haja hoje “sintomas” da revolução cultural (1966-76). quem o diz são dois docentes da Universidade de Macau, naturais da China, que assistiram, enquanto crianças, ao movimento que, anos mais tarde, o próprio Partido Comunista Chinês (PCC) classificou como “o maior e mais grave retrocesso da Nova China”.

“Durante dez anos a China mergulhou no caos. Foi um movimento extremamente devastador. É impossível que volte à era de Mao Tsé Tung”, “porque os tempos mudaram”, defende Wang Di, professor de História, para quem a abertura da China ao mundo é a “chave”: “A China estava isolada, de portas fechadas, provavelmente pior do que a Coreia do Norte atualmente”, mas “hoje os chineses viajam, têm oportunidade de conhecer a vida lá fora, as condições melhoraram, houve uma ascensão da classe média e há a Internet”.

Wang Di reconhece que existem perspetivas diferentes, havendo quem acredite na possibilidade de a China recuar até uma Revolução Cultural. “Algum do solo socialista de Mao ainda está lá, mas a maior parte já desapareceu”, advoga.

Hao Zhidong, sociólogo, subscreve: “Muitas pessoas dizem que não vai acontecer com a mesma escala, da mesma forma, porque os tempos mudaram, nomeadamente ao nível da comunicação com o exterior. E eu concordo”. No entanto, ressalva que “há sintomas da Revolução Cultural”, como a questão da liberdade de expressão.

Por exemplo, “houve pessoas que apoiaram o movimento em Hong Kong [‘Occupy’, em 2014] que foram detidas, e o governo central chinês diz que o partido não pode ser desafiado/criticado de forma irrazoável. Mas quem define esse conceito? É um regresso, até certo ponto”, insiste.

Um tabu que permanece
A Revolução Cultural estalou há 50 anos e não deixou de ser um total tabu. Após a adoção da política de reforma económica e abertura ao exterior, no final da década de 1970, o PCC qualificou a Revolução Cultural como “o maior e mais grave retrocesso da Nova China”. Essa avaliação ou consenso oficial constitui “uma espécie de diretriz” e “não se pode ir muito além disso”, explica Wang Di.

Hao Zhidong observa que depois dessa versão oficial devia-se ter refletido sobre o passado, mas tal não aconteceu: “Algumas pessoas continuaram a falar, mas de diferentes formas, sem expor diretamente que Mao e o partido foram os responsáveis, apenas mencionando o que experienciaram individualmente”. “É o máximo que o partido pode tolerar. Se for mais longe, dizendo que foi um problema do sistema político, já está a cruzar a ‘linha vermelha’”.

“É verdadeiramente difícil estudar a Revolução Cultural, porque até hoje não existem materiais de arquivo disponíveis, permanecem selados no Comité Central do PCC. Não os podemos ler. O que existe são jornais, diários, relatos ou memórias”, afirma Wang Di, para quem “o PCC provavelmente quer realmente que as pessoas esqueçam”.

A este propósito, invoca um dos maiores nomes da literatura chinesa: Ba Jin – pseudónimo de Li Yaotang – que propôs, nos anos 1980, a criação de um museu da Revolução Cultural para evitar a repetição de semelhante tragédia. “Essa ideia nunca se concretizou, porque o governo central, embora ainda hoje diga que basicamente foi má para a China, que foi um erro, nos últimos anos desencorajou os historiadores a estudarem a Revolução Cultural ou o Grande Salto em Frente. Não gostam que as pessoas encarem a História real”, conta.

“Mesmo que, em termos genéricos, digam que foi um erro, se perguntarmos por que aconteceu deparamo-nos com dificuldades”, aponta, insistindo em que “a nova geração não faz ideia do que significado da Revolução Cultural, do que verdadeiramente aconteceu. (…) Nunca se deu a imagem real de toda a devastação e sofrimento. Apenas se reconheceu que a Revolução Cultural foi má, mas nunca se explicou porquê nem quão má foi”.

Uma mistura entre desconhecimento e esquecimento constitui a base de quem venera Mao. Por um lado, há um certo saudosismo por parte dos chineses que não beneficiaram em nada ou muito pouco do desenvolvimento económico da China e que acreditam que na altura de Mao havia uma “igualdade relativa”, esquecendo o Grande Salto em Frente ou a Revolução Cultural. Do outro lado, uma nova geração que desconhece a história.

“Não acredito que alguém quisesse viver no passado se realmente soubesse a verdade”, aponta Wang Di.

“As pessoas não sabem, acreditam no que o partido diz. E o partido separou deliberadamente Mao do ‘Bando dos Quatro’”, complementa Hao Zhidong.

Wang Di acredita que na Universidade de Macau se ensina a “História real”, tal como fez nos Estados Unidos durante quase 20 anos. Na China, diz, “até certo ponto”, os professores podiam discutir nas aulas a Revolução Cultural, ainda que com base no que vem nos livros, em “uma ou duas páginas copiadas” do documento oficial do PCC, especifica Hao Zhidong.

“Nos anos mais recentes não sei, mas acredito que há provavelmente mais limitações hoje”, afirma Wang Di. Porquê? “Desde Xi [Jinping] há mais controlo sobre a educação, sobre os ‘mass media’ e há menos espaço para a discordância”, responde.

Hao Zhidong tem opinião idêntica: “Quando ele [Xi Jinping] chegou ao poder, as pessoas não sabiam muito bem que tipo de Presidente seria, porque não se revelou muito, mas quando se encontrou com os chineses ultramarinos no México proferiu umas frases que me fizeram pensar: ‘Uau, isto é estranho’. Aparentemente, não tem uma visão cosmopolita do mundo, ainda fala nos termos da Revolução Cultural”.

Nacionalismo inalterado
O paralelismo entre Xi Jinping e Mao Tsé Tung tem vindo a ser traçado pelo Ocidente. Recentemente, a revista Time publicou uma imagem em que a fotografia do rosto do primeiro tem por detrás do segundo, estando as duas sobrepostas com um virar de página, para estabelecer a analogia entre os dois líderes da China, com o foco particularmente apontado ao culto da personalidade.

“Pode dizer-se que Xi é  provavelmente o mais forte líder desde Deng [Xiaoping], alguns dirão desde Mao. Mas para mim o poder de Xi nunca atingirá o nível do de Mao”, afirma o docente de História.

Mas mais do que o culto da personalidade, Wang Di prefere sinalizar outra coisa que “continua inalterada” desde a Revolução Cultural: o nacionalismo.

“Mao usou o nacionalismo para mobilizar as pessoas e para dizer ‘temos um inimigo a ameaçar-nos’. Hoje está-se a fazer o mesmo. O nacionalismo é muito forte, hoje também por causa do sucesso económico da China, da ascensão como segunda potência mundial – o que é compreensível. (…) É a nossa era e temos orgulho”, realça Wang Di, advertindo, porém, que o nacionalismo pode ser aproveitado “politicamente” caso “questões internas se tornem difíceis de gerir”. “Preocupo-me que se mude o foco das pessoas para assuntos externos, para criar conflitos internacionais”, assinala. “Tudo pode tornar-se numa questão”, aponta, dando como exemplo as disputas territoriais no Mar do Sul da China ou Taiwan. “O nacionalismo pode desempenhar um papel no futuro da China. Espero que seja um papel positivo, que a China possa contribuir para a paz, mas é imprevisível”, sublinha Wang Di.

A Revolução Cultural – que não teve nada de revolucionário (a não ser o nome) nem de cultural (a não ser o pretexto tático inicial), como escreveu Simon Leys, pseudónimo do sinólogo belga Pierre Ryckmans, – foi lançada a 16 de maio de 1966 com uma circular do PCC que declarou guerra “às ideias e os representantes da burguesia”. Milhões de pessoas foram perseguidas e a tradição cultural chinesa foi vilipendiada, com museus, monumentos ou livros a serem destruídos.

Diana do Mar

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