“A IDEIA DE MACAU COMO PLATAFORMA NÃO ESTÁ A FUNCIONAR” - Plataforma Media

“A IDEIA DE MACAU COMO PLATAFORMA NÃO ESTÁ A FUNCIONAR”

 

A deputada Melinda Chan defende a aposta na educação bilingue e no papel de “Macau como plataforma” entre a China e os países de língua portuguesa. “Apesar de o Governo chinês ter dado a Macau este privilégio, nós não o temos sabido utilizar”.

 

PLATAFORMA MACAU – Quais são as preocupações das pessoas que a procuram aqui no seu escritório?

MELINDA CHAN – Este ano, com as mudanças no Governo, começaram a vir mais funcionários públicos. Queixam-se sobretudo do sistema de carreiras, que consideram injusto.

 

P.M. – Antes isso não acontecia?

M.C. – Com esta frequência, há muito tempo que não acontecia.

P.M. – Por que razão o fazem agora?

M.C. – Mudou a secretária e acredita-se que há uma nova esperança.

 

P.M. – Está a querer dizer que a nova secretária Sónia Chan representa uma esperança que tinha sido perdida durante o mandato de Florinda Chan?

M.C. – Penso que sim. Passaram-se 15 anos e nada mudou. Os funcionários públicos voltaram a acreditar e querem agarrar essa oportunidade.

P.M. – E quais são as suas expetativas em relação a este novo Governo, que tomou posse há pouco mais de um mês? 

M.C. – Tenho boas expetativas. Macau precisa de algumas mudanças porque há muita coisa que tem estado estagnada, nomeadamente o regime de carreiras.

Também temos departamentos públicos que precisam de cortar no número de profissionais e outros que precisam de contratar, como é o caso do hospital.

O Governo tem pela frente muitos desafios. As infraestruturas, por exemplo, assistimos constantemente a derrapagens ornamentais e é necessário tomar medidas. É assim há muitos anos e é necessário tempo para resolver.

P.M. – O Governo foi buscar ao setor privado o secretário para a Economia e Finanças. Foi a opção certa?

M.C. – Lionel Leong é o único membro do Governo que vem do setor privado. Penso que terá sido o escolhido pois o Executivo queria alguém que  realmente dominasse esta área. Não vejo problemas, por enquanto. Vamos esperar.

P.M. – E tem em mãos o setor do jogo. Como vê a descida das receitas?

M.C. – A crise apanhou todo o mundo, não apenas Macau. Aqui, a descida está relacionada com políticas como a restrição de vistos, que tem feito com que menos chineses visitem Macau. Penso que essa será a razão mais relevante pois 60% dos turistas era proveniente da China.

Mas algo que temos de por na cabeça é que nos últimos dez anos os números das receitas subiram anualmente. Temos de pensar que não há negócios que cresçam para sempre. Habitualmente, há uma estabilização. É normal, acontece em vários setores, como no imobiliário.

P.M. – Um analista apontou recentemente que o Governo poderá atribuir uma nova licença de jogo e que poderá ser à Macau Legend, empresa do seu marido e da qual também tem uma participação. Confirma esta informação?

M.C. – O Governo ainda não anunciou nada, sabe-se apenas que em 2015/16 as concessões serão revistas. Se for verdade, são boas notícias.

 

P.M. – São boas notícias para a população de Macau? 

M.C.  – É prematuro falar disso. Também há aqui um conflito de interesses e prefiro não falar. Tanto quanto sei, o Governo não anunciou nada. Isso também será discutido na AL.

P.M. – Mas existe algum interesse da Macau Legend? 

M.C. – Não posso representar a companhia. Tem de perguntar ao David [Chow].

P.M. – Em relação a outros temas que marcam a atualidade. Gabriel Tong e outros deputados deverão apresentar uma lei para o arrendamento que poderá definir um teto máximo para o aumento das rendas. Concorda?

M.C. – Ainda não conheço a proposta de lei e, portanto, não sei o que se pretende exatamente. Sei apenas que, atualmente, se estipulam nos contratos as percentagens de renda a subir no caso de renovação do contrato. O que acontece depois quando o contrato termina é que se sobe o valor da renda. As pessoas queixam-se que às vezes sobe para o dobro.

Porém, mesmo que se crie uma lei e que esta não permita tamanha subida da renda, os proprietários vão arranjar uma forma de contornar essa situação.

P.M. – Mas o que diz sobre a definição de um valor máximo?

M.C. – É preciso ver primeiro, embora não entenda como o poderemos fazer. Em Hong Kong já existiu uma lei, mas acabou por ser revogada devido aos problemas económicos. Tenho de conhecer primeiro a proposta.

P.M. – Tem vindo a defender a educação bilingue. Que é que se pode fazer neste sentido?

M.C. – Sim, é muito importante. Macau é uma plataforma que liga a China aos países de língua portuguesa. Mas, a verdade é que, apesar de o Governo chinês ter dado a Macau este privilégio, nós não o temos sabido utilizar. O Executivo deve empenhar-se para atribuir sentido a esta política. Diria que, pelo menos 3% da população entende português. Se mais pessoas falarem as duas línguas, então podemos ajudar os chineses a fazer negócio lá fora.

Outra ideia prende-se com a indústria das convenções e exposições. Podemos apresentar produtos da China e convidar pessoas dos países de língua portuguesa, que precisem desses bens.

P.M. – Isso não tem acontecido?

M.C. – Existem boas relações com estes países, mas a ideia de Macau como plataforma não está a funcionar como devia.

P.M. – E em relação à aposta no setor MICE, o que está a faltar?

M.C. – Quanto maior for o número de convenções em Macau, mais é a ocupação hoteleira, por exemplo. Proponho uma aposta em exposições de produtos de alta gama. Por enquanto, os compradores são maioritariamente de Macau ou de Hong Kong, mas nós temos de procurar compradores de fora. O Governo deve ser mais participativo neste setor.

P.M. – É presidente da Associação de Beneficência Sin Meng, que recentemente abriu uma creche em Macau. Que outros projetos tem em mão?

M.C. – A nossa creche abriu um ano mais tarde do que devia. Isto aconteceu devido à quantidade de burocracia necessária. Estamos agora com o problema da falta de recursos humanos. Neste momento, trabalham cerca de 30 pessoas, mas no futuro o número deverá chegar aos 56.

Recentemente ajudei uma associação budista na Taipa na abertura de um lar de idosos. Também aqui faltam enfermeiras. Um outro problema é o facto de o Governo controlar os preços a pagar pela estadia – no máximo são sete mil patacas. É muito pouco tendo em conta o tipo de ajuda que temos de dar.

 

Catarina Domingues

 

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