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Rosário da Luz * – O ANO DO CAVALO

 

O Cavalo é o signo mais yang do horóscopo chinês; é associado ao princípio masculino, ao Sol e ao fogo. Em finais de 2013, os almanaques astrológicos previam ansiosamente insegurança e tumultos para o ano do Cavalo que se aproximava – 31/01/2014 a 18/02/2015 no calendário lunar; pois se o Cavalo encerra em si o princípio da energia criativa, também encerra o perigo e a possibilidade de conflito. E de facto, o ano transato foi pontuado por um rol planetário de desastres: a escalada do conflito em Gaza; a crise da Crimeia; a afirmação do Estado Islâmico; a propagação da epidemia de Ébola; os raptos do Boko Haram; a guerra racial em Ferguson; as quedas dos aviões da Malásia; e os protestos contra o Mundial da FIFA.

Em Cabo Verde, 2014 termina dramaticamente com a erupção do vulcão do Fogo e com os danos sofridos pela população de Chã das Caldeiras. A vida humana foi integralmente preservada, mas as consequências económicas e emocionais das erupções foram trágicas. No processo, o coletivo.cv não questionou por um instante a gravidade do acontecimento; e a sociedade reagiu à catástrofe com a absorção característica das situações de grande sinistro.

Este ano, o vulcão do Fogo não só demonstrou a volatilidade do território geográfico que o circunda, como expôs a nossa total impreparação para a enfrentar. Consta que, semanas antes das primeiras erupções, as instituições técnicas e meteorológicas ligadas à área avisaram os decisores.cv da alta probabilidade de atividade vulcânica; mas a informação não foi devidamente considerada.

Com a sua lava, o vulcão do Fogo demonstrou que a sofisticação tecnológica é essencial para prever catástrofes naturais, mas não é suficiente para as gerir. Os decisores públicos tiveram acesso aos avisos que a tecnologia permite; mas a par da competência científica, a minimização de desastres e contingências exige excelência organizacional. Não foi excelência o que se testemunhou em resposta à fúria do vulcão: primeiro, perdeu-se um barco a caminho do Fogo (!); e as notícias dos primeiros momentos de caos em Chã das Caldeiras reportavam condutores que pretendiam cobrar 15 000 ECV por fretes nas zonas de perigo – em consequência das oportunidades de negócio abertas pelas insuficiências dos mecanismos de socorro.

No âmbito dos infortúnios, o ano do Cavalo trouxe-nos a fúria da natureza – uma força que acabou por se revelar clemente perante a vida humana; não nos trouxe nada parecido com os conflitos do Levante; mas clarificou um conjunto se dinâmicas sociais e culturais que nos ameaçam muito seriamente. Nessa onda, gostaria de referir algumas das contingências potencialmente catastróficas que pairam sobre o nosso horizonte.

A fundação da sociedade.cv. acarretou a brutalidade da escravatura e da expropriação; mas o sofrimento histórico do povo cabo-verdiano nunca incluiu a brutalidade da guerra. Aqui, nunca mãe nenhuma recebeu a notícia do bombardeamento da escola do seu filho; nunca vivemos sob as contingências das mães palestinianas em Gaza. Mas o facto é que o nosso presente carrega consigo um nível de violência há muito esquecido pelo coletivo. E a meu ver, o que há de alarmante no novo quadro não é apenas o agravamento da criminalidade; o que é deveras assustador é o seu caráter patológico, totalmente fora das nossas tradições culturais.

Para nós, o principal perigo no momento reside na transfiguração da plataforma moral que rege a nossa a tolerância pela brutalidade; e a verdade é que, apesar das demonstrações generalizadas de repulsa perante os novos escalões de violência, a fibra moral da sociedade cabo-verdiana parece estar a adaptar-se. Se esta propensão continuar, a urgência em gerir os surtos de  violência que se nos apresentam, por razões diversas, desaparecerá; e se a população continuar a acomodar-se passivamente à selvajaria – via o aumento do consumo de grades e alarmes – a derrocada da qualidade da nossa existência será catastrófica.

O ano do Cavalo não nos substituiu a democracia por um regime repressivo. Aliás, eu gostaria de atestar publicamente a minha satisfação com o respeito pelas liberdades civis que vigora na democracia.cv. Como colunista, discorro semanalmente sobre a disfuncionalidade do Executivo e sobre a inoperância do poder administrativo; contudo, a pior represália que já me foi dirigida foi a minha exclusão dos órgãos de comunicação do Estado. De resto, ninguém me ameaçou, agrediu ou encarcerou.

Mas se a liberdade política e o direito ao sufrágio não forem acompanhados pela sofisticação progressiva do eleitor, a democracia acarreta o risco de se transformar num jogo de gato e rato entre o poder e o cidadão despreparado. Pessoalmente, admito que é bestial publicar artigos sem ser presa ou torturada – como aconteceria certamente se me atrevesse a fazê-lo sob a vigência do Estado Islâmico; mas a decadência do Estado.cv não deixa de constituir um passivo perigosíssimo sobre o meu futuro e o da minha filha.

No ano de 2014, ninguém obrigou as mulheres de Cabo Verde a usar burqas sobre as suas minissaias e biquínis.

Em grandes extensões da África e do Oriente Islâmico, mulheres e meninas estão sujeitas à mutilação violenta dos seus corpos, da sua liberdade e do seu potencial. Mas enquanto isso, a minha filha cresce em pleno, com a possibilidade de testemunhar as mulheres do seu país competir pelas mais altas responsabilidades da República. Em Cabo Verde, o lugar da mulher no mainstream político e social está bem garantido, inclusive pela tradição; na nossa modernidade, quem está em risco de perder a sua tradicional relevância é a cabo-verdiana das classes populares.

As dinâmicas das últimas décadas resultaram no desenraizamento comunitário da mulher cabo-verdiana e na sua desvinculação das redes de suporte tradicionais. A questão que se põe não é apenas a da desvalorização genérica da mulher pobre; o problema fundamental é a sua desarticulação enquanto pilar do tecido social.cv.

Poderíamos continuar a listar o potencial catastrófico da sociedade cabo-verdiana, com referências medonhas aos desenvolvimentos que se manifestam em todos os domínios de gestão da nação; podíamos falar muito mais da bancarrota da economia, do serviço público e do capital intelectual. Mas a verdade é que a moral desta história está toda contida num dos nossos mais sábios provérbios tradicionais: “Fronta e ka so lumi ku agu”. Muita luz para 2015.

 

*Expresso das Ilhas/Cabo Verde

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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