MACAU RI EM NOVE SEGUNDOS - Plataforma Media

MACAU RI EM NOVE SEGUNDOS

 

Nove segundos é o tempo que leva a pôr Macau a rir. E não é fácil. Aqui as pessoas “são um pouco conservadoras”, dizem os fundadores da Manner Production, uma dupla local que está a fazer furor na internet com vídeos de `apanhados´de nove segundos.

 

Lei Wai Lon tem 21 anos, está no terceiro ano de design e faz trabalhos como freelance na área do vídeo. Lok Chi Hou, com a mesma idade, estuda gestão hoteleira há dois anos e é mágico nos tempos livres. 

Jacky e Lok, como são conhecidos, receberam o Plataforma Macau no seu pequeno estúdio na zona do Jardim de Camões. 

 

PLATAFORMA MACAU – As pessoas em Macau precisam de rir mais?

LOK – As pessoas em Macau são um pouco conservadoras. Aqui e em Hong Kong a população é assim. Por exemplo, quando fazemos os nossos vídeos do género `apanhados´, há sempre quem faça comentários de forma moralista, dizendo por exemplo que estamos a desperdiçar comida ou que estamos a assustar alguém.

Há muitas pessoas que não gostam do nosso projeto, mas na realidade o principal objetivo é partilhar alegria e no que diz respeito a esse aspeto estamos satisfeitos.

 

P.M. – Onde é que vão buscar as ideias?

JACKY – A inspiração vem muitas vezes do dia-a-dia, são coisas que quero expressar. É difícil dizer ao certo de onde vem a inspiração. Pode ser durante o banho ou enquanto estou a fazer os trabalhos de casa.

 

P.M. – Este género dos `apanhados´ é um tipo de trabalho que se faz pouco em Macau?

LOK – Faz-se mais lá fora. Acho que estes vídeos refletem bem o tempo em que nós vivemos presentemente. Hoje em dia, o mundo corre muito depressa. O trabalho e esforço que comporta a criação de mega produções e de longas metragens poderá não ser recompensado porque as pessoas simplesmente não têm tempo para ir ver.

Por isso, decidimos criar estes vídeos curtos para fazer despertar sensações, para as pessoas rirem. Só precisam de nove segundos para ver e desfrutar dos nossos vídeos.

 

P.M. – Por que razão são exatamente nove segundos?

LOK – O símbolo da nossa empresa – a Manner Production – parece um número “9”.

 

P.M. – O que faz exatamente a Manner Production?

LOK – A Manner Production é uma equipa que se dedica a fazer filmes e vídeos de estilos diferentes. Na verdade, este projeto tem como objetivo divertir as pessoas.

Os vídeos curtos e cómicos que descarregamos na internet têm tido boa aceitação por parte das pessoas, que os acabam por partilhar, e podem ajudar a desenvolver o nosso trabalho futuro na área da imagem, na criação de vídeo clips, de curtas-metragens ou, quem sabe, na concretização do nosso sonho que é fazer um filme.

Estamos pouco a pouco a avançar nessa direção. O nosso grupo é constituído por uma equipa de cerca de vinte pessoas. Temos uma equipa criativa, uma equipa de filmagem, uma equipa artística e uma equipa de produção. Esperamos conseguir dividir adequadamente o trabalho, para que a nossa colaboração no processo criativo seja mais fluída.

 

P.M. – Portanto, querem comercializar estes vídeos?  

LOK – Até certo ponto. Mas não queremos apenas criar um negócio para fazer dinheiro. Em Macau, as tecnologias digitais estão bastante desenvolvidas. Nós queremos olhar para o futuro porque daqui a cinco ou 10 anos estas tecnologias ainda estarão mais avançadas.

Queremos aumentar a divulgação do nosso trabalho na internet e queremos captar a vida real. Estas filmagens têm um custo que é preciso financiar.

 

P.M. – E como é que financiam este projeto?

LOK – Eu sou mágico amador. Desde pequeno que gosto de magia. Costumo dar espetáculos e fazer formação e utilizo a maioria destes fundos para financiar esta empresa. O Jacky está envolvido em atividades audiovisuais e, além disso, é ator amador.

 

P.M. – Onde é que encontram os atores?

JACKY – Encontramos principalmente através da internet ou de amigos.

LOK – Macau tem uma vantagem, como é um ambiente familiar, é fácil ter um amigo que conheça alguém.

 

P.M. – Têm alguma referência estrangeira, alguém que faça este tipo de `apanhados´ noutro país?

LOK – Gosto dos programas japoneses. São muito bons.

 

P.M. – As redes sociais têm sido importantes para divulgar estes pequenos vídeos.

JACKY – As principais redes sociais que utilizamos são o facebook e o instagram. Queremos com os nossos vídeos curtos atrair a atenção do maior número de pessoas para que haja mais divulgação.

Por exemplo, a partir daquele aquele episódio do gelado que fizemos, muitas pessoas começaram a seguir os nossos vídeos. Foi graças a este vídeo que conseguimos que mais pessoas seguissem a nossa página. Tínhamos por volta de 2 mil seguidores, depois deste vídeo atingimos os 10 mil.

LOK – Hoje em dia a tecnologia está muito avançada, todos têm o direito à palavra e tornamo-nos todos criadores de conteúdo.

Muita gente tem uma página na Internet, mas por que razão não têm muitos seguidores? Por causa do conteúdo. Eu faço a comparação: dar a conhecer um novo conteúdo ao público é como apresentar-lhe um amigo. Muitas vezes julgamos esta pessoa pela aparência.

Os nossos vídeos pretendem despertar sensações, causar empatia – independentemente de serem ou não vídeos cómicos – para depois serem partilhados com outras pessoas.

Eu considero que esse é um fator essencial para um criador de conteúdo. Esta indústria é, por vezes, como um negócio na internet: é preciso pensar diariamente naquilo que o público quer ver. Não tem nada a ver com a essência de um artista.

 

P.M. – Em Macau, existem mais pessoas a fazer este tipo de vídeos?

JACKY – Existem muitas pessoas em Macau a trabalhar em áreas ligadas à imagem e vídeo mas poucos fazem vídeos com este padrão curto. Há pouca gente que está disposta a desperdiçar dinheiro a filmar vídeos de poucos minutos para depois postarem na Internet.

P.M. – O que já fizeram além destes vídeos curtos?

LOK – Já participámos numa competição relativamente conhecida na China continental, que se chamava “Entertainment Experience China” (EEC) onde representámos a região de Macau.

O Jacky também já participou numa master class em Pequim dada pelo famoso realizador John Woo. Também realizou um CD-ROM de ensino para o setor do turismo e hotelaria com 12 episódios. Este foi um trabalho com a colaboração da Direção dos Serviços de Turismo e da indústria turística e hoteleira. Em breve também iremos começar a filmar uma curta-metragem sobre boxe no Venetian. Iremos também participar em alguns festivais de cinema e queremos estudar algumas técnicas especializadas. Embora façamos principalmente vídeos de humor e de `apanhados´ para a internet, também estamos a planear criar vídeos apropriados às várias épocas do ano, como por exemplo o dia dos namorados, natal, etc.

 

P.M. – Quais são os vossos planos futuros? 

JACKY – Esperamos poder formar uma equipa e de uma forma autónoma criar um filme de Macau, que as pessoas possam verdadeiramente apreciar. Esperamos que Macau consiga desenvolver esta indústria, dando assim às pessoas de fora algo que seja de Macau e que consiga chamar a atenção.

 

P.M. – Como veem o desenvolvimento do vídeo em Macau?

JACKY – É claro que comparando com outros países estrangeiros o nível está ainda é muito baixo. Isto porque não há um desenvolvimento desta indústria em Macau e também não existe formação neste sentido.

Noutros países, uma pessoa cresce naturalmente com esta realidade. Em Macau não é possível, é preciso ir estudar lá para fora. A maioria das pessoas em Macau que tem a oportunidade de absorver estes conhecimentos no estrangeiro opta por ficar por lá a trabalhar e não regressa. Estas pessoas sabem que, ao voltar, não vão conseguir lucrar. Isto tudo faz com que a indústria em Macau permaneça estagnada.

LOK – Para além disso eu acho que todo o ambiente que nos rodeia é muito importante, principalmente no que diz respeito à arte. Por vezes o ambiente é onde tudo começa. Por isso, acho que para continuar a desenvolver esta indústria é muito importante persistir, tanto em Macau como em Hong Kong.

 

P.M. – Um realizador aqui da região de vossa eleição?

JACKY – Nenhum em especial, quando o filme é bom, eu gosto.

 

P.M. – Wong Kar-wai faz parte da lista?

JACKY – Sim, ele consegue captar imagens fabulosas, mas os enredos são sempre muito profundos. Talvez ainda não tenha atingido a maturidade necessária pois por vezes não entendo bem o que ele quer dizer.

LOK – Sim, talvez seja demasiado profundo. Nós, meros mortais, temos de ver os filmes dele várias vezes para captar o verdadeiro sentido.

 

Catarina Domingues

 

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