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NA PRIMEIRA PESSOA

 

Joaquim Ché da Paz

1942, Macau

Joaquim Ché da PazChé é um apelido chinês, Paz é do Peru. O meu pai é descendente chinês e peruano. A minha mãe era chinesa da província de Cantão. Nunca estive no Peru, mas lembro-me da correspondência que o meu pai trocava com a família quando eu era criança.

O meu pai era empregado numa companhia de navegação, que fazia carreira entre Macau, Cantão e Xangai. Durante a II Guerra Mundial refugiou-se em Macau.

Tive educação portuguesa porque éramos pobres e a escola portuguesa era gratuita. Além disso, sempre vivi em bairros entre portugueses, como ali na esquina da Horta e Costa e a Sidónio Pais e também no Lilau. Convivia com as famílias macaenses, os Senna Fernandes, por exemplo. Essa influência fez com que fosse estudar para a escola portuguesa.

Fiz o serviço militar e depois, à semelhança de muitos macaenses, fui para Hong Kong, onde trabalhei num banco durante uns meses. Não gostei da vida e regressei a Macau. Trabalhei nas Obras Públicas como eventual, depois estive oito anos na delegação da Procuradoria da República, primeiro como datilógrafo, depois como aspirante e, em 1972, o Banco Comercial de Angola estabeleceu-se em Macau, e fui convidado para integrar essa equipa. Saí em 83 com algum conhecimento da área comercial e montei uma companhia de consultoria, que fechou um pouco antes da transferência de soberania, em 1999, altura em que fui abordado pelo Senhor David Chow para trabalhar no Landmark, no projeto do Fisherman´s Wharf, onde ainda estou hoje como assistente executivo do CEO.

A transferência de soberania era uma situação natural, que tinha de acontecer politicamente. Sentimentalmente, penso que foi um acontecimento muito mau, devido a uma série de mudanças a que não estávamos habituados. Francamente, não vejo mudanças positivas. Embora estejamos perante um grande crescimento económico, a qualidade de vida dos residentes foi muito afetada e não estamos a ser beneficiados com esse desenvolvimento. Os casinos e as indústrias relacionadas com o jogo e o turismo é que estão a lucrar.

 

 

Alexandra Cruz

1973, Macau

xanaO meu pai é português, veio para Macau fazer o serviço militar e conheceu a minha mãe, que é macaense de origem portuguesa, chinesa e cubana. Casaram e foram uns tempos viver para Portugal. Eu nasci quando regressaram a Macau. O meu pai trabalhava na Companhia de Eletricidade de Macau e a minha mãe trabalhou durante muitos anos num banco.

Macau tinha outro ritmo até aos anos 80, início dos anos 90. Um ritmo mais lento. Era menos denso em termos de urbanização e de densidade populacional, tinha mais espaços verdes, ou pelo menos parecia que tinha. Às vezes, nós é que fantasiamos isso, mas sim, a Taipa e Coloane eram completamente verdes.

Em 1991 fui estudar Direito para Coimbra. Não tive dificuldade de adaptação e houve fatores importantes que contribuíram para isso: sempre fui a Portugal passar férias, sempre tive como projeto pessoal ir para Portugal estudar e sempre falei bem português.

Terminei a licenciatura em 1996 e comecei a minha carreira profissional entre Lisboa e Coimbra.

Regressei a Macau em 2013. Voltar, esteve sempre dentro das minhas cogitações, mas foi-se adiando por esta ou por aquela razão. A conjuntura na Europa deu um empurrão. Nós queríamos dar a conhecer às nossas filhas a Ásia, a língua. Dizem os peritos que o futuro está na Ásia.

Sou assessora do Conselho de Administração da Autoridade Monetária de Macau. Falo cantonês, escrevo muito pouco, quase nada. Mas não tenho dificuldades a nível profissional, porque trabalho com leis e elas estão nas duas versões, na portuguesa e na chinesa. Além disso, a nível escrito não dependo cegamente das traduções para compreender e fazer-me entender.

Voltar para Portugal também não está fora das minhas cogitações, mas por enquanto sinto-me bem aqui.

 

 

Augusto Chan Lizardo

1934, Macau

O meu pai é chinês, a minha mãe peruana, mas de descendência espanhola. O meu pai foi para o Peru fazer negócio, montou uma fábrica e conheceu a minha mãe. Casaram, foram para Cantão, mas como a minha mãe só falava espanhol, preferiu vir para Macau, onde viviam portugueses.

Na minha infância ia pescar, andar de bicicleta, éramos muitos traquinas. Havia casas com jardins, papaias, goiabas e nós trepávamos e roubávamos aquilo para comer.

Mas em Macau não havia futuro, não havia negócios nem universidades e depois do 5.º ano tive de sair para procurar uma vida melhor. Fui para Hong Kong, onde fui contratado por um grande empresário inglês e foi ele que pagou os meus estudos no colégio naval e o meu mestrado em Assuntos Marítimos em Londres. Fui Capitão da Marinha Mercante e depois comandei barcos por mais de 17 anos.

Casei-me com uma alemã em 1961 e vivi na Alemanha quase 20 anos. Eu andava no mar e vinha a terra ter com a minha família. Com 40 e tal anos aposentei-me e acabei por ir para a América. Vivi lá cerca de 10 anos com uma amiga, uma pessoa muito competente, muito simpática, mas muito bossy, como dizem os ingleses, `mandadoura´. Eu era capitão e lá deixava uma mulher mandar, claro que não.

Resolvi voltar para Macau, onde comecei a trabalhar com Stanley Ho na Shun Tak. Trabalhei até ser velhinho, até 2003. Depois queria emigrar para os Estados Unidos porque o Governo americano deu-me o green card. Tinha a ideia de ficar permanentemente mas tinha-me casado a segunda vez e a minha mulher não queria conduzir lá – o que na América é o mesmo que ter as duas pernas partidas. A minha mulher tem 69 anos, também é macaense, o pai é de Coimbra, a mãe é chinesa.

Voltei às minhas raízes, voltei a Macau, onde ainda trabalhei uns anos como consultor da Shun Tak.

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