A ARTE DA LUTA PELA DEMOCRACIA EM HONG KONG - Plataforma Media

A ARTE DA LUTA PELA DEMOCRACIA EM HONG KONG

 

Os protestos que ocuparam as ruas de Hong Kong nas últimas três semanas em prol da implementação do sufrágio universal geraram uma onda de criatividade que deu identidade ao movimento civil e globalizou as suas reivindicações. A arte, apontam observadores, foi a resposta dos jovens à ausência de líderes carismáticos e a sua arma para exercer e defender a liberdade de expressão.

 

A sombrinha, que costuma andar na mala dos chineses para se protegerem tanto da chuva como do sol, serviu em Hong Kong também como escudo contra o gás pimenta lançado pela polícia para tentar dispersar as manifestações, que ocupam há cerca de três semanas algumas das principais artérias da Região Administrativa Especial chinesa. A mesma sombrinha tornou-se rapidamente no símbolo da revolução, deu-lhe nome e inspirou um movimento pacífico que recorre à arte para lutar pela democracia.

O designer e ilustrador português Luís Simões, em Hong Kong há nove meses, no âmbito de uma volta ao mundo que começou em 2012, não ficou indiferente a estes acontecimentos e saíu à rua para os registar em desenho.

“De início a minha ideia era só captar esta realidade, mas quando me apercebi que isto ganhava uma dimensão maior, comecei a dar mais importância aos protestos e a tentar explicar em cadernos a quantidade de inúmeras coisas que acontecem diariamente”, disse em declarações ao Plataforma Macau.

Luís Simões viu “muita gente na rua, muitas manifestações, distúrbios e muita arte”. Ao constatar que a zona de Admiralty, no centro financeiro da ex-colónia britânica, “parece uma galeria”, este ilustrador aponta que o que identifica este movimento como “totalmente diferente é a forma como as pessoas se manifestam através da arte e não tanto com destruição e violência”. “A arte está normalmente ligada à liberdade de expressão e acho que essa liberdade se vive agora muito em Admiralty”, assinalou.

Alice Kok, artista de Macau e presidente da associação cultural Art For All Society (AFA), salienta que a “arte decorre da necessidade de nos expressarmos, de um impulso natural”, considerando que os trabalhos artísticos desenvolvidos durante os protestos na região vizinha estão relacionados com o facto de o movimento civil ser sobretudo protagonizado por jovens e com a sua vontade de se expressar.

“Hong Kong é um sítio onde as pessoas estão habituadas à liberdade de expressão e agora elas terão sentido uma necessidade especial de confirmar isso, por isso, julgo que a arte produzida durante estas manifestações foi uma expressão natural dos estudantes, dos cidadãos”, sustentou.

O professor do departamento de Sociologia da Universidade Baptista de Hong Kong Hon Chu Leung concorda que os manifestantes tenham recorrido à arte “para expressar os seus pensamentos e desejo de uma cidade melhor que tenha algo de que se possa orgulhar”. “Acho que isto foi muito espontâneo”, acrescentou.

Luís Simões constatou no terreno que “as pessoas também têm protestado com a arte por haver um problema de falta de liderança” do movimento. “Não há neste caso líderes sociais que consigam ter uma expressão política muito forte, portanto, julgo que a arte tem sido a resposta mais clara”, explicou.

Ao se passar por Admiralty, reparou, “ficamos com a sensação de que se trata de uma feira de campistas, parece uma manifestação de arte e, por isso, os líderes até tentam focar as pessoas para o que estão ali a combater, porque essa visão é muito forte”, disse o designer português.

 

O PODER DA IMAGEM

A fita amarela e o guarda-chuva têm sido explorados de inúmeras formas gráficas e utilizados pelos manifestantes como símbolos da luta pela democracia. A sua divulgação através das redes sociais contribuiu para levar além fronteiras as reivindicações dos jovens, acabando por angariar apoiantes no mundo inteiro.

“O facto de o chapéu de chuva ser a imagem do protesto acabou por criar uma quantidade enorme de arte à volta disso a que ninguém fica indiferente”, realçou Luís Simões.

Para Alice Kok, a arte “fornece uma forma visual para se transmitir sentimentos que não conseguem ser expressados por palavras”. “Ao constatar que as artes visuais “são muito diretas”, a artista realça que a “forma visual da sombrinha transmite a mensagem e identidade do movimento de forma muito forte”.

Fortes Pakeong Sequeira, artista também de Macau, tem acompanhado os protestos em Hong Kong de forma crítica, julgando que os estudantes que os têm protagonizado “não sabem na verdade pelo que estão ali a lutar”. No entanto, Fortes constata que a arte resultante das manifestações “criou símbolos que contribuíram para a memorização deste acontecimento e para que mais pessoas o apoiassem”.

“As imagens falam por si, não é preciso dizer nada, elas são fortes o suficiente para transmitirem a mensagem e assim consegue-se chegar a mais gente”, apontou, sublinhando que estão em causa “símbolos e um tipo de arte que apela às pessoas a juntarem-se à causa, como se se estivesse a recrutar soldados, e que cria uma espécie de espírito de equipa”.

Para Hon Chu Leung, a criatividade registada durante as manifestações em Hong Kong “contribuiu para atrair mais atenção para as mesmas e para se angariar mais apoio para o movimento”, apesar de salientar que “esta foi uma forma diferente e mais rica de se expressar ideias, não estando em causa o facto de a arte poder ser mais eficiente” para se atingirem certos objetivos.

 

ARTE PARA TODOS

A luta pela democracia nas ruas de Hong Kong criou inspiração para os artistas criarem e mercado para darem a conhecer o seu trabalho.

“Tenho visto principalmente trabalhos de alunos, pois os professores estão a motivá-los a fazer coisas diferentes, e há de tudo, posters ilustrados, mensagens, bandeiras com desenhos, há muita imaginação, criatividade, humor, generosidade, um clima de paz fantástico, que me tem surpreendido”, realçou Luís Simões.

Para este português, “Hong Kong é hoje um sítio inspirador” e esta realidade “acaba por ter um impacto importante para a arte independente e pouco arrogante”. “Acho que isto despertou a vontade de se fazer coisas sem que o dinheiro seja o fator exclusivo para se fazerem boas coisas. As pessoas procuram, assim, demonstrar que não estão indiferentes a este movimento, o que o tornou bastante diferente e único”, concluiu.

A arte tirou vantagem das ruas ocupadas em Hong Kong, alterando mesmo o nome de algumas para palavras de ordem do movimento, usadas também em músicas que se tornaram hinos.

Luís Simões vai em breve seguir viagem pelo mundo, pelo menos, durante os próximos três anos, e na mochila leva memórias da “revolução do guarda-chuva” que, para já, expõe na Internet. “A ideia é fazer um livro que chegue a mais gente, mas isso depende do aparecimento de investidores”, rematou.

 

Patrícia Neves

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