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NA PRIMEIRA PESSOA

 

Félix Teixeira

1960, Canchungo

Félix TeixeiraNasci e vivi em Canchungo até ao 9.º ano e depois fui para Bissau.

Formei-me como professor de Química e dei aulas no liceu durante cerca de seis anos, até 1988. Na altura, todos os meus colegas já tinham saído da Guiné para estudar e quando abriu um concurso para atribuição de bolsas para a China, agarrei a oportunidade.

Cheguei à China em 1988. Estive um ano em Pequim a estudar mandarim. Só falava português, espanhol e francês, por isso juntava-me com pessoas de Angola, São Tomé, com portugueses e membros de comunidades latinas que falavam espanhol. Inicialmente queria voltar para a Guiné, porque era tudo diferente e depois apanhei aquela situação de Tiananmen.

Estava numa festa africana (a 4 de junho de 1989) na Universidade de Medicina de Pequim, organizada por estudantes estrangeiros, e de repente começaram a dizer que tinham matado estudantes em Tiananmen e fomos todos para casa. Surgiram depois rumores de que os militares iam aos dormitórios porque havia estudantes escondidos, então houve algum pânico e os estudantes começaram a ir para as embaixadas. Mas a Guiné-Bissau não tinha embaixada em Pequim e foi a de Portugal que nos retirou da China para Macau e fomos depois para a Guiné.

Em agosto voltei e fui para Nanjing para tirar uma licenciatura em Química. Éramos 75 no curso e eu era o único aluno estrangeiro. Conheci nessa altura a minha atual mulher, que é da Mongólia, com quem tenho dois filhos.

Depois do curso, em 2004, consegui, através do cônsul honorário da Guiné em Macau, um estágio no Laboratório de Controlo da Qualidade da Água, do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM), deram-me depois um contrato e estou aqui até hoje.

 

 

Ludimila Mikulcová

1981, Bissau

LudimilaVivi em Bissau até aos nove anos. O meu pai tinha estudado em Portugal e tinha uns amigos que foram à Guiné e gostaram de mim e levaram-me para o Porto para ser supostamente a sua filha adotiva. A minha mãe não estava de acordo, mas o meu pai quis que eu fosse ter melhores oportunidades. Fiz lá a primária, mas quis voltar para a minha mãe e regressei para Bissau com 12 anos.

Em 1998, iniciou-se um conflito armado na Guiné, houve uma tentativa de golpe de Estado e eu, a minha mãe e irmãos – o meu pai estava nos Estados Unidos – refugiámo-nos no interior do país. Soubemos que vinham barcos para levar as pessoas para Portugal e eu queria ir, mas a minha mãe não. Teimosa, decidi ir à mesma. Tinha 17 anos quando apanhei um barco e fugi.

Infelizmente o barco ia para Dakar (Senegal), porque já tinha perdido o que ia para Portugal. Fiquei refugiada no Senegal durante seis meses com familiares que descobri que tinha.

Quando houve um cessar-fogo, a minha mãe descobriu onde eu estava e foi-me buscar. Continuei os meus estudos em Bissau e, em 1999, o meu pai soube que havia bolsas da Fundação Macau e enviou-me para cá.

Cheguei a Macau a 05 de dezembro de 1999. Tinha 18 anos e vinha aflita com a ideia de que matavam pessoas na rua, mas acabei por perceber que Macau era um sítio calmo e tranquilo e, por isso, ainda cá estou.

Fiz o curso de Direito, trabalhei num escritório de advogados e hoje trabalho no Consulado da Guiné-Bissau como consultora jurídica. Sou casada com um eslovaco e tenho uma menina de quatro meses.

 

 

José Robalo

1970, Lisboa

José RobaloOs meus pais são guineenses, mas a minha mãe resolveu que o parto seria em Lisboa e, por isso, nasci em Portugal.

Aos oito anos fui para Canchungo, onde o meu pai era governador do banco na província. Depois ele foi transferido para Bissau e vivi aí até aos 13 anos. O meu pai entretanto faleceu e a minha mãe mandou-me para Cuba, porque havia bolsas de estudo, então fui e de vez em quando ia de férias à Guiné.

Foi muito enriquecedora a experiência em Cuba. Nunca tinha vivido antes numa escola internato. Aos 17 anos fui para a universidade estudar Economia e no terceiro ano a minha mãe mandou-me para Macau, porque Cuba já estava numa situação económica muito difícil.

Cheguei em 1993 e nessa altura queria só voltar para Cuba, porque a cultura aqui era muito fechada, enquanto em Cuba é aquela explosão, aquela alegria. A integração era complicada, mas lá me fui adaptando.

Entrei em Direito na Universidade de Macau, porque não havia curso de Economia, mas não gostei e fui para o Instituto Politécnico estudar Relações Públicas e Ciências Empresariais.

Acabei o curso e consegui logo um emprego na TDM, onde trabalho até hoje como realizador e onde conheci a minha mulher, que é portuguesa. E aqui vou ficando.

Tenho quatro irmãos espalhados pelo mundo, um deles está a estudar na China, e a minha mãe continua a viver na Guiné-Bissau.

 

 

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