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COMUNIDADE GUINEENSE CRESCEU DEPOIS DA TRANSIÇÃO

 

As bolsas atribuídas a estudantes da Guiné-Bissau para tirarem cursos na China têm contribuído para o crescimento da comunidade guineense em Macau, disse em entrevista ao Plataforma Macau a presidente da Associação dos Guineenses, Naturais e Amigos da Guiné-Bissau, Filomena Barros. Foi depois da transição que esta comunidade aumentou o seu peso no território e hoje a maior parte trabalha no setor privado e esforça-se por manter viva a sua cultura.

 

PLATAFORMA MACAU Como podemos descrever a comunidade guineense em Macau? 

FILOMENA BARROS  – Éramos poucos, mas temos estudantes que vêm e voltam, mas há alguns que ficam. Entretanto também vários membros da comunidade casaram e formaram família com pessoas de outras nacionalidades, por isso temos uma mistura, e contando com esta situação a comunidade tem cerca de 40 pessoas, talvez um pouco mais, mas não mais de 50, incluindo os estudantes que cá estão.

 

P.M. Muitos estudantes acabam por ficar?

F.B. – Muitos não, os que ficaram são poucos. A maioria regressa sempre à Guiné.

 

P.M. Quando chegou a Macau, nos anos 90, a comunidade era maior?

F.B. – Não, éramos menos. E houve gente que estava cá nessa altura e que foi embora, penso que trabalhavam para a função pública. A comunidade aumentou depois da transição, porque alguns estudantes, que vieram para Macau com bolsas da Fundação Macau, ficaram depois de acabarem os cursos. E também antes havia menos estudantes. Depois da transição, passaram a dar mais bolsas e chegaram também alunos que foram estudar para a China e depois dos cursos vieram aqui procurar trabalho, encontraram e acabaram por ficar.

 

P.M. Por que razão os guineenses que foram estudar para a China mudaram-se depois para Macau?

F.B. – Julgo que por causa da língua, porque aqui falava-se português e Macau estava sob administração portuguesa.

P.M. E em que áreas profissionais é que a comunidade guineense está mais presente?

F.B. – Temos um pouco de tudo, temos engenheiros, advogados, relações públicas. A maior parte trabalha para o setor privado, na função pública só temos talvez uns dois ou três guineenses.

 

P.M. Em que altura e por que razão começaram a chegar guineenses a Macau?

F.B.– Eu cheguei em 1995, mas parece que já havia alguns guineenses aqui. Quando cheguei encontrei alguns estudantes que estavam cá, talvez uns quatro ou cinco, e depois vieram mais alguns que estavam a estudar na China para trabalhar aqui. Constituímos então uma comunidade, começámo-nos a juntar para celebrar datas importantes como o natal, o 1.º de maio.

Antes de formarmos a associação, decidimos juntar-nos e começar a pagar quotas para qualquer eventualidade, porque nessa altura os estudantes não tinham seguros de saúde e quando estavam doentes tinham de ser eles a assumir essa despesa, então decidimos pagar uma quota para ajudarmos os estudantes que precisassem. E acabámos por o fazer. Houve um estudante que chegou e teve de ser operado e nós assumimos a despesa da operação. Depois o Governo de Macau decidiu fazer seguros de saúde para eles.

 

P.M. E porque decidiram depois criar uma associação?

F.B.– Criámos a associação em 2005 para termos mais posição, como se diz, e se tivéssemos uma associação, o Governo de Macau também dava-nos uma sede. Na altura, também as outras comunidades lusófonas começaram a criar associações e o Governo de Macau dava mais valor. Por isso, tinha mais impacto termos uma associação, porque enquanto comunidade simplesmente não podíamos ter apoio do Governo, mas enquanto associação já podemos pedir. E foi assim que criámos a associação e conseguimos uma sede logo depois.

Mas o principal objetivo era afirmarmo-nos como comunidade, porque na associação são poucos os que pagam quotas. As datas importantes continuamos a celebrar. Independentemente de sermos ou não sócios, festejamos todos juntos as datas importantes.

Também já pagámos bilhete de regresso para a Guiné a dois estudantes, o último até foi no ano passado. Quando precisam recorrem a nós e, apesar de isto não estar previsto nos nossos estatutos, são guineenses e temos de ajudar no que podemos.

 

P.M. O que tem feito a associação para promover a cultura guineense em Macau?

F.B.– Participamos todos os anos na Festa da Lusofonia, onde procuramos mostrar a nossa cultura, a nossa gastronomia, trazemos produtos da Guiné para as pessoas provarem, trajes tradicionais, na nossa barraca procuramos dar a conhecer um pouco de tudo o que tem a ver com a nossa cultura. E apoiamos também o Governo de Macau a trazer cá chefes de cozinha, artesãos da Guiné, servimos de intermediários e colaboramos nesse sentido.

Também temos atividades próprias, como a festa da independência, temos também um encontro da comunidade a 25 de Maio (Dia de África). Estamos aqui, então gostamos de nos reunir para falar o crioulo, fazer a comida da terra, partilhara nossa cultura, tudo o que é tradicional na Guiné e conviver para não esquecermos as nossas raízes. Procuramos, pelo menos, três vezes por ano estarmos juntos e fazermos estas coisas.

 

P.M. E o que têm preparado para a Festa da Lusofonia deste ano?

F.B. – Vamos ter a nossa barraca, onde, como é costume, vamos oferecer a nossa canja de ostras (pitche-patche) e outros pratos para as pessoas provarem. Vai estar presente também uma artesã guineense e só para o ano é que vem um cozinheiro da Guiné, porque foi decidido que não podem vir os dez cozinheiros lusófonos ao mesmo tempo, então vão-se alternando, este ano vêm cinco e para o ano os outros cinco.

 

Patrícia Neves

 

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