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NA PRIMEIRA PESSOA

 

Rui Cunha 

1941, Bombaim

cunhaNasci em Bombaim, porque estávamos em plena guerra e não havia hospitais em Damão, onde vivia a minha família. A minha mãe era de Goa e dona de casa e o meu pai de Damão e solicitador.

Vivi em Damão até aos nove anos e fui fazer o liceu a Goa. Em 1958 fui para Portugal estudar Direito e frequentei o primeiro curso nas atuais instalações da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Nos últimos dois anos, trabalhava à noite e estudava de dia e entre 1962 e 1966 fui funcionário da RTP, era assistente de realização, porque tinha feito um curso de cinema e também outro de fotografia. Ainda ganhei uma bolsa da Gulbenkian para ir completar o curso de cinema em Paris, mas desisti, porque estava no último ano de Direito e acabei por fazer uma opção mais pela estabilidade do que pela paixão.

Quando acabei o curso, em 1965, fui subdelegado no Tribunal da Boa Hora, em Lisboa, depois concorri para o Ministério Público e estive como delegado na Lourinhã. Em 1966 surgiu um convite para ir trabalhar, com o Ministério Público, em Moçambique e acabei por ser colocado em Inhambane, depois estive em Nampula e na Procuradoria-geral da República em Lourenço Marques. Estive em Moçambique até 1969, quando fui colocado em Timor, onde estive como delegado do Procurador da República. Foi lá que comecei a exercer as funções de juiz, em 1971.

Ao fim de dois anos fui para Luanda, onde estive até vésperas da independência e saí em outubro de 1975 como os retornados, mas com a vantagem de ter sido integrado no quadro em Portugal. Uns meses depois fui nomeado juiz em Mafra e a 04 de setembro de 1981 cheguei a Macau para ajudar a montar e a supervisionar o departamento jurídico da STDM, uma oportunidade que surgiu através de um amigo em comum com o Dr. Stanley Ho, que era também seu sócio e que conheci em Timor.

Montei então um escritório e há cerca de 18 anos houve a oportunidade de fazer uma fusão com outro, do Dr. António Correia, e daí Cunha e Correia fizeram o C&C, que hoje tem cerca de 70 funcionários e está presente também em Timor e Cabo Verde.

 

Pankaj Chonilal

1959, Tanga (Tanzânia)

PankajO meu pai vendia fazendas porta a porta em Diu, mas como não estava a dar nada, partiu para África, em 1932. Quando decidiu emigrar, não tinha destino e escondeu-se num barco de árabes, tendo ido parar à Tanzânia. Depois voltou a Diu e casou-se com a minha mãe. Aliás, ele tinha roubado 100 rupias ao pai da minha mãe – na altura não sabia que ia casar com ela – para pagar aos árabes para o levarem para África.

Depois de casar, levou a minha mãe e dois irmãos para a Tanzânia. O meu pai começou a trabalhar em Zanzibar, onde ia de bicicleta a casa das pessoas ver os contadores de eletricidade e mudou-se depois para Tanga, onde nasci.

Nós somos indianos, hindus. A família do meu pai esteve em Moçambique e o meu pai, em 1975, também se mudou para lá e vive ainda hoje em Maputo.

Eu cresci na Tanzânia, mas quando tinha uns 12 anos fui estudar para Goa, fiz um bacharelato em ciências e uma pós-graduação em gestão hoteleira. Trabalhei noutras partes da Índia e em Goa tive uma tipografia que fazia trabalhos para a empresa onde a minha mulher trabalhava e, por isso, conhecemo-nos e casámo-nos em 1987.

Chegámos a Macau em 1989. A minha mulher tinha cá vindo de férias porque tinha cá uns primos de Damão. Ela conseguiu emprego e eu consegui depois o passaporte português, porque os meus pais nasceram em Diu, e viemos. Eu consegui emprego numa empresa que fazia trading entre Macau e a União Soviética e decidi depois abrir uma empresa própria que faz importação e exportação de outros países para Portugal e Espanha, tem um ramo de serviços financeiros e também faz negócios com petróleo.

Em casa falo com a minha mulher inglês e com os meus pais falo gujarati. Em Macau comecei a ver telenovelas brasileiras e aprendi a falar português.

 

Shirley Menezes

1958, Margão (Goa)

ShirleyNasci em Margão. Toda a minha família é de Goa. O meu pai falava português, mas a minha mãe aprendeu depois, porque nasceu em África.

Eu vivi em Goa, depois fui fazer a universidade em Bombaim, tirei psicologia e sociologia. No fim do curso, em 1980, voltei um ano para Goa e fui novamente para Bombaim, porque havia mais oportunidades de trabalho, e aí fiquei até 1988.

Casei-me em Goa em 1988 e vim depois com o meu marido para Macau, onde ele já vivia desde 1980, porque tinha aqui família. Um tio do meu marido foi mandado de Lisboa para Macau porque era juiz.

Eu já tinha estado em Macau de férias, gostei muito disto, porque era uma terra pequena, muito calma e tinha semelhanças com Goa.  Na altura da transição, ainda pensámos em ir para Portugal, onde também tenho muita família, mas optámos por ficar na Ásia. Tenho vivido todos estes anos em Macau, mas visito a família em Goa quase todos os anos.

Em casa falo inglês e os meus filhos estudaram também chinês e português. Na minha família, os mais velhos falam ainda português. Quando não queremos que os filhos percebam o que estamos a dizer, eu e o meu marido falamos concani, a língua de Goa. Somos católicos.

 

 

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