INTEGRAÇÃO REGIONAL BENEFICIA MICE - Plataforma Media

INTEGRAÇÃO REGIONAL BENEFICIA MICE

 

Um turista de negócios aterra em Hong Kong e em apenas uma hora consegue estar numa sala de exposições em Macau. Ainda não é possível, mas seria o ideal. Em entrevista ao Plataforma Macau, Leonardo Dioko, diretor do Centro de Investigação de Turismo do Instituto de Formação Turística da RAEM, explica que a integração regional na indústria MICE “seria muito importante” e que a construção da ponte que vai ligar Macau a Zhuhai e Hong Kong é um primeiro passo nesse sentido. No desenvolvimento do setor das indústrias e convenções, Macau ainda tem muito trabalho de casa a fazer, alerta Dioko, defendendo que “a indústria MICE não pode ser gerada pela indústria do jogo”.

 

PLATAFORMA MACAU – Está em Macau há cerca de 20 anos. Como vê o desenvolvimento do setor das Convenções e Exposições em Macau?

LEONARDO DIOKO – Este setor só foi identificado como uma área prioritária em 2005. Antes disso, Macau nunca o tinha feito e penso que a génese desta ideia surgiu com a liberalização da indústria do jogo.

Entre 2002 e 2005, os responsáveis políticos não tinham muitos modelos para seguir e o único em que podiam pensar era o de Las Vegas. Mas poucas pessoas sabiam que nessa altura também havia uma série de problemas em Las Vegas no que diz respeito ao setor MICE (Meetings, Incentives, Conferencing, Exhibitions). De qualquer forma era um setor óbvio para priorizar porque cada vez que o número de hotéis num destino tem um crescimento exponencial, o turismo de negócios e as oportunidades para convenções e exposições também se desenvolve.

Antigamente não havia convenções em Macau. A cidade não era conhecida como um destino para convenções, mas como um destino de excursões de fim de semana. Uma prova evidente disso é o Centro de Atividades Turísticas que não mudou na última década. Quando foi desenvolvido, era a única instalação na área MICE. Depois, com a liberalização do jogo pensou-se em interligar as novas operadoras estabelecidas e então criaram-se uma série de espaços. Desde 2005, houve um crescimento exponencial destas instalações, mas todas privadas.

 

P.M. – Falou de Las Vegas como modelo. Não será Hong Kong também um exemplo a seguir nesta indústria?

L.D. – Na realidade, Hong Kong já estava décadas à frente de Macau em termos do desenvolvimento do setor MICE. Hong Kong foi um modelo positivo que Macau seguiu.

A única diferença é que a base de Hong Kong era mais diversificada. A cidade já era um núcleo de exportação e importação, um centro financeiro internacional, de onde entravam e saíam empresários todos os dias do ano, ao passo que em Macau entravam turistas de lazer e  jogadores. O que acontece é que a indústria MICE não pode ser gerada pela indústria do jogo.

 

P.M. – E foi isso que aconteceu.

L.D. – Sim. O que acontece é que quando existe um setor económico fortemente diversificado – e estamos a falar de comércio ou de serviços financeiros – então pode ter-se uma boa base para desenvolver a indústria MICE.

Por exemplo, São Francisco é conhecida por organizar convenções e exposições nas áreas da tecnologia, da tecnologia da informação, media social. São convenções que atraem dezenas de milhares de visitantes, mas claro que existe o Sillicon Valley como base para atrair muitas pessoas.

Redirecionar a economia de Macau foi o passo certo, mas agora é necessário desenvolver a base para isso.

 

P.M. – Este ano foi criado um novo plano de apoio e incentivos financeiros do Governo de Macau a organizadores e participantes destes eventos. É um bom ponto de partida?

L.D. – Só para começar. Os subsídios e os incentivos nunca são boas estratégias a longo prazo. Acredito que é positivo se for estabelecido apenas para dar o salto inicial em alguns setores, como por exemplo nas indústrias criativas. Esse é um setor que precisa de fato de ajuda. Vejo muitos desenvolvimentos na área da publicidade, vídeo e media visuais e penso que essa é a direção. Portanto, penso que ao desenvolver as indústrias criativas e artísticas, está a possibilitar-se o desenvolvimento de indústrias como a das convenções e exposições. São setores que vão ser atraídos para o local onde estas áreas se estão a concentrar.

 

P.M. – O que tem de ser feito a longo prazo?

L.D. – Primeiro, têm de se identificar setores com grande potencial no futuro. Esses setores devem ser modernos no sentido de que têm origem no nosso intelecto e de que utilizam mais o potencial humano criativo, como por exemplo a indústria da publicidade, os media social ou a internet. Existem setores como a biotecnologia, que não necessitam de muitos anos para se desenvolver, mas que requerem capital intelectual.

Não se pode apenas construir um espaço gigante e pensar que o setor das convenções e exposições vem até cá. Muitos espaços precisaram de anos para se desenvolver. Por exemplo, existem exposições de comércio de viagem todos os anos na Alemanha. É muito difícil competir nesses setores e por isso deve olhar-se para os setores que estão a nascer.

 

P.M. – Existe mão de obra qualificada para trabalhar na indústria MICE? Que está a fazer o IFT nesse sentido?

L.D. – No IFT, um dos cursos mais procurados está relacionado com os eventos. Embora seja numa área diferente, também inclui gestão no setor MICE. Os eventos requerem uma série de qualificações: planeamento, competências criativas e há também muita tecnologia envolvida na sua organização.

Existe muito interesse por parte da população jovem. Se não estou errado, dos cinco programas gerais que o instituto oferece, este é o segundo mais procurado. Portanto, penso que no futuro vamos ter mais recursos humanos com as capacidades necessárias. Mas, o mais interessante neste setor é que não precisa de licenciados nesta área específica porque profissionais podem deslocar-se de setores já existentes. Por exemplo, se alguém vier da área do jogo, é necessária alguma formação e experiência e pode integrar o mercado de trabalho da indústria MICE.

 

 

 

 

 

 

 

 

PONTE EM Y VAI AJUDAR SETOR

P.M. – Quais acredita que são as vantagens competitivas de Macau a nível regional, nomeadamente comparando com Hong Kong ou Singapura?

L.D. – Uma vantagem que temos prende-se com a proximidade com a China. Quando uma exposição se realiza em Macau, há sempre grandes expetativas no sentido de que vai atrair participantes da China continental. Essa é uma vantagem. Hong Kong tirou proveito disso ao longo de muitos anos. Sempre que organiza uma feira de brinquedos ou de livros ou até das últimas tecnologias de moldes em plástico – uma das mais famosas – atrai muitos participantes e compradores da China. Essa é uma grande vantagem porque em vez de ter de viajar até 10 cidades na China e procurar compradores, tudo o que tem de fazer é ir até Hong Kong, participar nesta exposição e então terá os compradores à mão. A possibilidade de falarem consigo é elevada.

Singapura também tem um mercado anexado, como a Indonésia ou Malásia, apesar de achar que o grande interesse agora é encontrar compradores na China continental.

 

P.M. – No entanto, atores do setor das exposições e convenções de Hong Kong queixam-se de um mercado saturado. Há alguma coordenação entre as duas regiões administrativas no sentido de colaborarem nesta indústria? 

L.D. – O problema em Hong Kong é que com o valor dos imóveis, acabou por se atrasar na expansão das instalações. Devido à falta de espaços em Hong Kong, o que aconteceu é que Macau conseguiu atrair alguns dos eventos. Mas Hong Kong já está a adiantar-se e a construir novos locais para MICE.

 

P.M. – Mas em Macau o número de locais para grandes exposições também é reduzido. 

L.D. – Tenho seguido o número de eventos e os últimos dados apontam para uma recuperação. Nos últimos anos Macau assistiu a um decréscimo, mas provavelmente muito devido aos incentivos e subsídios, o número voltou a crescer. Foi também criada uma comissão [Comissão para o Desenvolvimento de Convenções e Exposições] e penso que está a começar a fazer o seu trabalho. Vamos ter de ver o que se vai passar com Hong Kong, porque se eles tiverem hipótese de se desenvolver, então teremos tempos difíceis em atrair algumas das convenções e exposições.

Penso que a integração com Hong Kong e a Região do Delta do Rio das Pérolas seria muito importante. Por integração refiro-me a infraestruturas. Para que o turista empresarial chegue a Hong Kong e esteja uma hora depois em Macau, essa integração é muito importante para nós. A nova ponte em Y [Zhuhai-Hong Kong-Macau] pode ajudar. Em período de tufão, as pessoas vão poder continuar a viajar. A linha de comboio entre Zhuhai e Guangzhou também vai trazer muitas vantagens nos próximos anos.

 

P.M. – O desenvolvimento deste setor pode contribuir para aprofundar o papel de Macau como plataforma entre a China e os países de língua portuguesa?

L.D. – Eu ainda não vi benefícios concretos. Na última MIF (Feira Internacional de Macau) tentei procurar companhias portuguesas a expor e não tenho a certeza se haveria muitas. Já como plataforma para a China, penso que sim. Essa é uma das nossas vantagens desde que a China permaneça como um comprador ativo. A economia chinesa ainda tem ainda uma base manufatureira muito forte. Compra-se muita coisa, ingredientes, materiais, máquinas.

O mercado é muito grande e aqui no sul, Macau e Hong Kong estão numa posição favorável. No passado, a única forma de estrangeiros fazerem negócio com a China era através da Feira de Cantão, onde se vendiam e ainda vendem todos os produtos da China, desde aviões até comida. Houve uma abertura e hoje também se podem expor produtos da China em Hong Kong e em Macau e essa é uma grande plataforma. Isso é real, em termos económicos, essas vantagens são reais.

 

P.M. – E a figura do turista empresarial em Macau também é real?

L.D. – Há vários tipos de turistas empresariais, como aqueles que frequentam as conferências ou fóruns. Claro que o mais importante são as exposições porque é aí que os negócios são feitos, mas as convenções também são importantes.

 

P.M. – Essa é outra questão. Macau organiza mais convenções do que exposições.

L.D. – Sim, a organização de uma exposição tem um grau de dificuldade maior do que uma convenção. Mas, organizar uma convenção também não é fácil porque tem de se trazer o turista empresarial até Macau e o alojamento aqui é muito caro. Existe um problema de  competitividade, mas os hotéis deverão duplicar nos próximos 10 anos e creio que nos tornaremos mais competitivos. Nessa altura, vamos atrair mais turistas empresariais.

 

Catarina Domingues

 

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