ASSOCIAÇÃO naTERRA VAI CRIAR ESCOLA DE AGRICULTURA EM ATAÚRO - Plataforma Media

ASSOCIAÇÃO naTERRA VAI CRIAR ESCOLA DE AGRICULTURA EM ATAÚRO

 

Em Baucau há cinco anos, a associação naTerra, criada em Macau para promover o desenvolvimento sustentável, planeia arrancar no fim do ano com a criação de uma escola profissional de agricultura e de um instituto de permacultura na ilha de Ataúro.

 

A associação naTerra, criada há seis anos por jovens de Macau, desenvolve desde 2009 projetos em Baucau na área da educação para o desenvolvimento sustentável e “está em Timor-Leste para ficar”, disse Fernando Madeira, um dos fundadores, ao Plataforma Macau.

“O objetivo para os próximos anos é bastante ambicioso e passa pela criação de uma escola profissional de agricultura e de um instituto de permacultura na ilha de Ataúro”, salientou.

A associação já tem “terreno e o apoio dos Ministérios da Agricultura e da Educação de Timor-Leste e a comunidade está de braços abertos a esta oportunidade”, garantiu Fernando Madeira ao indicar que faltam agora apoios financeiros para arrancar com o projeto, que está já a ser avaliado por “um fundo internacional”.

“Continuamos à procura de apoios, mesmo em Macau, pois era interessante que o território utilizasse os seus recursos financeiros para apoiar projetos de desenvolvimento sustentável noutros locais e, assim, reduzir a sua pegada ecológica, pois aqui não é fácil realizá-los, porque a área é muito limitada”, observou.

Fernando Madeira acredita que o projeto para Ataúro poderá vir a assumir-se como “um modelo de desenvolvimento sustentável para outros distritos de Timor e para outras geografias”. A ideia, explica, passa por “estabelecer uma relação” com as quatro escolas técnico-profissionais e a Faculdade de Agricultura de Timor para que os alunos possam realizar estágios em Ataúro no final dos seus cursos.

Este projeto abrange ainda “uma ação concreta de desenvolvimento comunitário para que os 10 mil habitantes da ilha, onde o desenvolvimento económico ainda não chegou, possam optar por um caminho alternativo e sustentável”.

A naTerra tem a ambição de chegar a todos os habitantes de Ataúro “logo nos primeiros três anos”. “A escola vai lá estar para servir toda a população de Timor”, acrescenta Fernando Madeira ao garantir que se os fundos necessários não chegarem, o projeto arrancará na mesma “ainda este ano”, tal como a associação fez quando decidiu partir para Timor. “Somos muito sonhadores e isso tem-nos levado para a frente”, sublinha, manifestando a confiança neste projeto, que vai implicar “uma equipa bastante grande, dará emprego a muita gente e poderá trazer alguma esperança às novas gerações”.

A naTerra tem atualmente quatro portugueses e três timorenses a desenvolver atividades em Timor.

 

CHEGAR ÀS ESCOLAS

A naTerra está também a desenvolver um “projeto piloto” em Timor-Leste que passa por “desenhar um currículo anual de Educação Ambiental, que será apresentado ao Ministério da Educação timorense para que seja introduzido aos poucos nas várias escolas do país”, disse Fernando Madeira.

Esta ideia surge depois de a associação ter criado uma horta pedagógica na principal escola primária de Baucau. “Estamos agora no segundo ano, que já está a ser coordenado pelos professores com alguma ajuda nossa, o que já é um grande passo”, realçou.

A naTerra tem ainda na segunda maior cidade daquele país uma quinta com 2000 metros quadrados, onde demonstra “como uma família pode ser autosustentável”. “Este terreno serve para demonstração e formação na área da permacultura e da agricultura sustentável e serve de propagação de plantas, ou seja, quem estiver interessado pode levá-las e plantá-las nos seus próprios terrenos”, indicou.

A grande vantagem desta quinta, segundo Fernando Madeira, é o facto de ter a maior variedade de espécies em Timor-Leste, 103 no total. “É um salto enorme qualitativo e quantitativo no âmbito da nutrição, porque quando nos restringimos a quatro ou cinco vegetais haverá sempre níveis de malnutrição, principalmente nas crianças”, alerta Fernando Madeira.

No mesmo terreno existe ainda um viveiro de árvores de fruto, distribuídas “de seis em seis meses pelas comunidades em redor, de modo a aumentar a autosuficiência alimentar das famílias”.

“A ideia é oferecer melhor qualidade de vida às pessoas no que se refere às necessidades básicas”, refere Fernando Madeira, sublinhando que outra área em que a naTerra aposta é a “consciencialização sobre os efeitos secundários do atual desenvolvimento económico”.

A associação, sublinha, não pretende “impingir nada”, apenas “alertar para as consequências de um desenvolvimento sustentável e de um desenvolvimento não sustentável para que as pessoas, especialmente as crianças, possam ter a oportunidade de escolher o caminho que quiserem”.

“O desenvolvimento económico é inevitável e Timor está também a passar por isso, portanto a ideia é tentar dar uma mão ao país para que opte por um desenvolvimento sustentável em vez do desenvolvimento a que estamos habituados e que, de certa forma, condena as futuras gerações, porque está mais virado para a economia do momento, para o lucro, sugando os recursos naturais até à exaustão”, realçou.

Fernando Madeira dá o exemplo de Bali, onde os locais lembram hoje “de aceitarem tudo de braços abertos quando viram o turismo e o dinheiro a chegar e começaram a desenvolver tudo de modo inconsciente a nível ambiental”. “Hoje perguntamos-lhes se estão contentes e eles dizem que se pudessem voltar atrás com o conhecimento que hoje têm voltavam, porque as suas praias estão estragadas e os terrenos não estão próprios para cultivo”. A naTerra, acrescenta, quer levar até aos timorenses “esta consciência”.

Ao salientar que o desenvolvimento sustentável “olha também para as necessidades do momento”, Fernando Madeira garante que o faz, porém, “sem nunca abdicar das necessidades das futuras gerações”.

“Não negamos o avanço tecnológico, pelo contrário, queremos pegar nas coisas boas que esta sociedade desenvolvida tem, no que de bom o desenvolvimento económico e tecnológico trouxeram e estabelecer uma harmonia com a natureza e a cultura. Podemos perfeitamente viver numa casa bonita e confortável e termos, no entanto, uma pegada ecológica bastante reduzida”, constata.

Os membros da associação que estão em Timor-Leste a tempo inteiro dizem-se satisfeitos com a relação que conseguiram estabelecer com a comunidade local, com a qual já comunica mesmo em tétum, trabalhando sobretudo com crianças, jovens e desempregados “no âmbito da educação ambiental” e com agricultores para o “uso de tudo o que seja biológico em detrimento dos químicos”.

A naTerra começou a trabalhar em Timor através de apoios do Governo de Macau e de particulares e hoje tem uma parceria com a associação Global Village, também de Macau, que começou a atuar naquele país.

 

Patrícia Neves

 

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