A GRANDE MARCHA DOS BRICS - Plataforma Media

A GRANDE MARCHA DOS BRICS

 

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS) respondem ao conservadorismo das instituições de Bretton Woods com a criação de um banco, visto por especialistas como o primeiro passo rumo a uma nova ordem económica mundial.

 

Os BRICS lançaram o maior desafio às grandes potências ocidentais com o anúncio da criação do seu próprio banco de desenvolvimento. Esta instituição multilateral poderá afirmar-se com uma alternativa ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial aos olhos dos países em desenvolvimento e até de nações desenvolvidas em dificuldades, mas, para já, é vista por observadores como um sinal de mudanças profundas na arquitetura financeira global.
Captura de ecrã 2014-07-26, às 8.54.00 PM“O G20 [grupo das 20 principais economias emergentes e avançadas do mundo] decidiu, em 2010, reformar o FMI, mas esta reforma do sistema de quotas não avançou por causa dos Estados Unidos. O Congresso norte-americano impediu-a por duas vezes, por isso, podemos considerar a criação do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS sob esta perspetiva”, disse ao Plataforma Macau Liu Zongyi, investigador do Instituto de Estudos Internacionais de Xangai, próximo do Governo chinês.

Adams Bodomo, professor de Estudos Africanos da Universidade de Viena e especialista nas relações China-África e em questões relacionadas com os BRICS, também considera que esta nova instituição foi criada como reação à frustação destas economias emergentes, que “têm tentado ter uma voz e influência nos bancos tradicionais”, mas alerta que ela se assume como uma alternativa credível.

“Se olharmos para países como a China e a Índia não esperamos que continuem a ter um papel secundário em relação aos Estados Unidos e ao Reino Unido, por exemplo. A situação económica exige esta alternativa, há potências económicas cada vez mais influentes, por isso, este é o tempo natural para reagir a estas instituições ocidentais tradicionais e conservadoras”, defende.

Liu Zongyi chama a atenção para o facto de as economias emergentes contribuírem para “mais de 50% do crescimento económico mundial, enquanto os países desenvolvidos contribuem para menos de 50%”. “Penso que os países emergentes vão contribuir cada vez mais, é uma tendência gobal e considero que o novo banco dos BRICS é só um sinal da ascensão coletiva das potências emergentes”, observa.

A reforma no FMI iria atenuar a influência dos Estados Unidos na instituição, ficando com uma quota equivalente a 16,5%, enquanto os BRICS aumentariam o seu peso de 11 para 14,1%. O Governo norte-americano apoia a mudança, mas não conseguiu ainda convencer os republicanos no Congresso a ratificarem-na.

“Um poder existente é normalmente conservador perante a ascensão de outros poderes, portanto, é natural que o FMI e o Banco Mundial tenham resistido a mudanças e ao facto de outros países quererem ter influência sobre eles”, constata Adams Bodomo, em declarações ao Plataforma Macau.

A criação de um banco pelos BRICS, alega Liu Zongyi, “é o primeiro passo da institucionalização do grupo, que antes tinha apenas conversações, mas agora afirma-se como um grupo político e económico”. “BRICS já não é só um termo referente a um mercado de investimento, onde as empresas transnacionais podem ganhar dinheiro”, realça.

Para o investigador, o novo banco tem um grande papel a desempenhar, prevendo que possa “financiar o desenvolvimento de infraestruturas nos BRICS e noutros países emergentes e estimular a reforma do FMI, Banco Mundial e da própria estrutura financeira internacional”.

 

AFIRMAÇÃO DO YUAN

Os BRICS anunciaram, na semana passada, durante uma cimeira em Fortaleza, no Brasil, que a sede do seu banco será em Xangai e que este terá como missão o financiamento de projetos de infraestruturas nos seus países e em economias emergentes, nomeadamente de África e da América Latina.

A instituição arrancará com um capital de 50 mil milhões de dólares e um fundo de reservas de 100 mil milhões de dólares, caso algum dos países enfrente problemas de liquidez, mas resta ainda saber com que moeda irá o banco trabalhar no futuro. Especialistas arriscam apostar no yuan.

“No ano passado, quando os Estados Unidos anunciaram a retirada da política QE [quantitative easing, estímulos à economia], os BRICS sofreram uma turbulência financeira, o que causou muitos problemas. A rupia indiana, por exemplo, desvalorizou mais de 20%”, salientou Liu Zongyi. Ao constatar que “por causa da posição dominante do dólar norte-americano no sistema cambial atual, os países em desenvolvimento são afetados pelas políticas monetárias dos Estados Unidos”, este investigador chinês conclui que o novo banco também foi criado para “proteger os BRICS” desta situação.

A instituição poderá “melhorar as trocas comerciais bilaterais e multilaterais no seio dos BRICS”, diz, prevendo, porém, que “o dólar não deverá ser a moeda escolhida para tal”. “Penso que estes países querem usar as suas próprias moedas”, sublinhou, ao lembrar que a Índia “já disse que poderá usar a rupia para comprar petróleo do Irão”.

Para Liu Zongyi, “o banco poderá usar, numa fase inicial, as diferentes moedas dos BRICS, mas talvez no futuro venha a usar o yuan, que deverá tornar-se na moeda mais popular em todo o mundo”.

Marcos Fonseca, gerente-geral em exercício da agência do Banco do Brasil em Xangai, considerou, em declarações ao Plataforma Macau, que a nova instituição financeira dos BRICS “deverá começar a trabalhar com dólares, porque o seu capital é nessa moeda, mas poderá depois mudar para outras moedas”. “Estes países tentam já, de alguma maneira, utilizar as suas próprias moedas para fazerem transações”, salientou.

Para Adams Bodomo, “seria mais fácil um compromisso com o yuan”. “A China será a maior economia em breve, portanto, o banco dos BRICS será uma demonstração simbólica de força, especialmente tendo a sua sede em Xangai”, disse.

A principal vantagem de o banco dos BRICS estar sediado na China é, segundo Liu Zongyi, “o facto de a gravidade da economia mundial ter mudado para a Ásia Pacífico”, mas o investigador afasta a possibilidade de esta instituição ter uma influência direta na afirmação do seu país como a maior economia mundial. “O banco poderá melhorar a imagem de Xangai como centro financeiro mundial e a cooperação económica entre a China e outros países, que poderá ajudar ao desenvolvimento da economia chinesa”, sustentou.

 

NOVA CONCORRÊNCIA?

Adams Bodomo prevê que, no futuro, o FMI e o Banco Mundial “não conseguirão responder à procura” e que se estas instituições não avançarem com uma reforma, os BRICS poderão deixar de investir nelas, resultando na sua perda de influência.

“Basta olhar para a Europa de leste, está a desenvolver-se muito depressa e vai precisar rapidamente de bastante financiamento. O FMI está a aplicar muito dinheiro em países desenvolvidos e o banco dos BRICS vai estar mais focado em responder à procura, em captar novos mercados da Europa de leste, de África e da América Latina e quem sabe se até os países desenvolvidos não avançarão para este banco”, realçou. Este académico constata que “o banco dos BRICS é global e, se tiver mais capital, nada impedirá que países europeus em dificuldades, como Portugal ou a Grécia, lhe peçam financiamento”.

Segundo Liu Zongyi, os BRICS “têm a sensação de que os Estados Unidos só os quiseram usar para conseguirem dinheiro, mas não os deixam ter poderes de voto adequados nas instituições”. O investigador chinês exemplifica: “Durante a crise financeira, a maior parte dos fundos foram para países europeus, não para países em desenvolvimento, mas as potências emergentes contribuíram com muito dinheiro”. Neste contexto, o novo banco dos BRICS, explica, assume-se como uma “alternativa para os países em desenvolvimento” e “cria uma concorrência positiva com o Banco Mundial e o FMI”. “Por um lado, são concorrentes, por outro, complementares”, assinala.

Para Adams Bodomo, “se a reforma do FMI não avançar e se o banco dos BRICS e outras instituições fizerem um melhor trabalho de inclusão, o FMI e o Banco Mundial terão cada vez menor influência”. A diferença entre os montantes dos fundos não é um obstáculo, aponta, prevendo que, “nos próximos cinco anos, o fundo dos BRICS aumente”, nomeadamente com a contribuição de novos membros.

Se o banco dos BRICS “conseguir gerir bem no futuro, talvez todos países em desenvolvimento se virem para ele em detrimento do Banco Mundial e, nesse caso, esta instituição irá enfrentar uma crise de sobrevivência”, sublinha o investigador do Instituto de Estudos Internacionais de Xangai. No entanto, alerta, o banco dos BRICS “não vai substituir o Banco Mundial e o FMI, porque são os principais pilares da atual estrutura financeira internacional e têm muita experiência”. “Os BRICS só querem uma reforma gradual destas instituições”, reiterou. Bodomo acrescenta: “Se não houver reformas e houver alternativas, claro que não terão o mesmo poder que têm hoje”.

 

DEMOCRATIZAÇÃO

Ao constatar que o “sistema de Bretton Woods é controlado principalmente pelos Estados Unidos e por alguns países europeus, o que se verifica no Banco Mundial, liderado por um norte-americano, e no FMI, liderado por uma francesa”, Liu Zongyi conclui que estas instituições “não são democráticas”. “As potências emergentes não têm poderes de voto equiparados nem sequer aos de países europeus pequenos como a Bélgica”, acrescentou.

O facto de os cargos, nomeadamente a presidência, do novo banco dos BRICS serem alternados entre os países fundadores [o primeiro presidente é indiano] “fará esta estrutura mais democrática” e “poderá melhorar a democratização da sociedade internacional”.

Adams Bodomo alerta para a necessidade de “mais instituições financeiras, como o banco dos BRICS, que sejam cada vez mais inclusivas”.

Outro aspeto do novo banco dos BRICS destacado como vantajoso pelos especialistas é o facto de poder ajudar mais os países em desenvolvimento “numa situação com vantagens mútuas, o que não tem acontecido”, realça Bodomo.

“O Banco Mundial e o FMI sempre impuseram condicionantes para empréstimos, por exemplo, antes de investirem num determinado país exigem a sua democratização, a liberalização da economia, portanto julgo que o banco dos BRICS poderá moderar esta situação”, prevê. Liu Zongyi considera que a instituição “poderá definir regras para evitar a corrupção”, mas não acredita que “vá interferir nos assuntos internos dos países, exigindo condições políticas, nomeadamente no campo dos direitos humanos”.

Para Bodomo, o papel do novo banco dos BRICS deve passar sobretudo por “conceder crédito para o desenvolvimento de infraestruturas e do setor da agricultura dos países emergentes”, oferecendo condições mais vantajosas do que o FMI e o Banco Mundial e maior inclusão. “Quando novos membros se juntarem ao grupo, deverão fazê-lo numa parceria igual e não da forma como o sistema de quotas tem funcionado nos bancos tradicionais”, defende.

Liu Longyi e Bodomo dizem-se confiantes no sucesso do banco dos BRICS ao contrário do que se tem verificado com outras instituições ou instrumentos financeiros regionais. “O banco dos BRICS é global, terá mais capital e os países do grupo têm metade da população mundial”, alertam.

O brasileiro Marcos Fonseca também acredita que esta instituição será uma alternativa credível porque “é chefiada por um grupo de países que precisam de apoio para se desenvolver mais e esse apoio virá de uma entidade que os conhece profundamente”. Apesar de reconhecer diferenças que afastam os cinco países deste bloco, o gerente-geral em exercício da agência do Banco do Brasil em Xangai acredita que “vão explorar as semelhanças para aumentar a união e a sua importância”.

“A importância destes países é muito grande e vai pesar ainda mais no comércio mundial, não tenho dúvidas, a tendência é de crescimento”, concluiu.

 

Patrícia Neves

 

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