“SÓ AGORA COMEÇÁMOS A APOSTAR A SÉRIO NO ENTRETENIMENTO” - Plataforma Media

“SÓ AGORA COMEÇÁMOS A APOSTAR A SÉRIO NO ENTRETENIMENTO”

 

A indústria do entretenimento em Macau está ainda longe de estar plenamente desenvolvida, diz Guy Lesquoy, que há 35 anos desembarcou na cidade para criar o espectáculo de cabaret ‘Crazy Paris Show’. Macau entretanto transfigurou-se e é hoje muito mais cosmopolita, mas a oferta de espetáculos é ainda escassa, afirma Guy Lesquoy, actualmente a dirigir o departamento de entretenimento do casino-resort Venetian Macao. “É preciso dar tempo ao tempo,” sublinha o francês, que encara o futuro do setor com otimismo. A indústria vai continuar a crescer, mas a força motriz desse desenvolvimento serão sempre os casinos, refere

 

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PLATAFORMA MACAU Há 35 anos revolucionou a indústria do entretenimento em Macau com o ‘Crazy Paris Show’, apresentado como o primeiro show de cabaret na Ásia e considerado então um passo arrojado. Como foi a receção do espectáculo em Macau?

GUY LESQUOY  – Sendo originário da ilha francesa de Córsega, a mentalidade insular ajudou-me a integrar em Macau e na sua pequena comunidade. Sempre considerei que uma integração positiva seria um dos fatores mais importantes para mostrar às pessoas que não vínhamos para escandalizar ninguém com um show demasiado arrojado. O que nós queríamos mostrar era a cultura francesa da época, tendo por base o Crazy Horse Show de Paris. Esforçámo-nos para que as pessoas em Macau percebessem que o nosso show era incomum, mas baseado no que eu apelidava de ‘nu estético’. Utilizávamos um jogo de luzes muito sugestivo, mas não havia nudez gratuita. Felizmente conseguimos passar essa mensagem – exemplo disso era o tipo de público que o espetáculo atraía. A determinada altura, quase metade da audiência – cerca de 45% – era composta por mulheres. As nossas bailarinas faziam o show à noite, mas durante o dia estavam envolvidas em várias atividades de cariz social, colaborando com diversas associações locais. Tudo isto foi importante para que o espetáculo fosse bem acolhido em Macau.

PM Teve alguns problemas por o show ser eventualmente demasiado arrojado? 

G.L. – No princípio, houve alguma desconfiança e muitas dúvidas sobre o tipo de espetáculo que estávamos a planear. Mas com o passar do tempo, e depois de assistirem ao espetáculo, as pessoas entenderam a natureza do show e as nossas intenções. Foi engraçado perceber como, passado algum tempo, estavam até orgulhosas pelo facto de este ser um espetáculo especial – este show era único na Ásia, com um nível de profissionalismo indiscutível. Era da mais alta qualidade que se podia encontrar a nível internacional, até mesmo em Paris. O show passou a ser uma paragem obrigatória em vários roteiros turísticos e até representantes em visitas oficiais a Macau eram levados ao Teatro D. Pedro V, que acolheu o espetáculo durante vários anos antes de ser transferido para o Hotel Lisboa. O espetáculo foi bem recebido na cidade e essa foi a razão para se ter mantido em palco cerca de 14 anos. Eu deixei de dirigir o espetáculo entre o final de 1993 e o início de 1994, após discordar com os proprietários, que pretendiam que as bailarinas exibissem mais o corpo. Na minha opinião, abandonar a natureza sugestiva do nu estético foi um erro.

 

PM Acha que a oferta de entretenimento em Macau é limitada?

G.L. – Ainda é muito cedo para se falar nesta fase numa indústria completamente desenvolvida – portanto, ainda existem algumas limitações. Las Vegas precisou de 50 anos para chegar onde está hoje. Macau, em 10 anos, tornou-se na capital mundial do jogo. Contudo, ainda temos um longo caminho pela frente até termos uma oferta abrangente, da qual o entretenimento será uma parte fundamental. O primeiro passo, e o mais importante, já foi dado – a cidade já atrai milhões de turistas todos os anos. Os próximos passos vão acompanhar o natural desenvolvimento do mercado: à medida que os turistas se tornam mais exigentes, mais do que jogar, querem bons restaurantes e entretenimento de qualidade. O próprio Governo de Macau já mudou o discurso e atualmente exige um maior investimento no setor do entretenimento. O entretenimento em Las Vegas era quase nulo no início e demorou vários anos a chegar onde está. Em Macau, estamos a passar pelo mesmo processo. Só agora começámos a apostar a sério no entretenimento. Mas é preciso dar tempo ao tempo.

 

PM A que se deve prestar especial atenção quando se apresenta um novo espetáculo em Macau?

G.L. – É preciso olhar para os diferentes públicos-alvo que aqui existem. Os portugueses querem ver um show exuberante, algo que não se vê no dia-a-dia e que seja fora do comum, quer seja de inspiração chinesa ou ocidental. Os macaenses estão ávidos por algo com características mais internacionais e distinto dos espetáculos chineses, ainda muito ligados à cultura e tradição, integrando poucos elementos inovadores. Por fim, os chineses querem ver espetáculos de qualidade vindos do ocidente, especialmente que seja novos e diferentes. Espetáculos de cabaret, como o ‘Moulin Rouge’ ou o ‘Lido’, geram muito interesse junto de diferentes públicos.

O mais importante para que um espetáculo tenha sucesso em Macau é a autenticidade e a capacidade de inovação. Para isso, é preciso ter em mente as características locais, trazer um pouco de outras culturas e criar algo que não exista aqui e que não possa ser facilmente recriado.

 

PM Esse tipo de oferta pode existir fora dos casinos?

G.L. – Não estou convencido que isso possa acontecer. As locomotivas da indústria do entretenimento em Macau serão sempre os casinos. Na Ásia, não é costume haver espetáculos ou músicos em restaurantes ou bares. É uma cultura diferente. Por outro lado, não há assim tantos artistas ou músicos em Macau. Trazer artistas de fora para pequenos espaços não é rentável. Ao nível da indústria do entretenimento, há ainda muitas limitações, embora com o apoio dos casinos se consiga equilibrar as contas. Fora dos casinos, é quase impossível tornar esta atividade lucrativa.

T.A.

 

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