PASSADO PORTUGUÊS EM GOA AINDA É ARMA POLÍTICA - Plataforma Media

PASSADO PORTUGUÊS EM GOA AINDA É ARMA POLÍTICA

 

Alguns políticos de Goa têm mantido vivo o preconceito em relação ao passado colonial português do território para angariar votos, constata o vice-presidente de um partido da oposição indiano, que defende um maior intercâmbio com a lusofonia

 

Mais de meio século depois da anexação de Goa, os fantasmas do passado português são utilizados por políticos indianos para reunirem apoio popular, disse o vice-presidente do Partido Nacionalista do Congresso (NCP, na sigla inglesa) naquele território, Trajano D´Mello, em entrevista ao Plataforma Macau, considerando que esse discurso produz, porém, cada vez menos resultados palpáveis.

“O preconceito está lá por razões políticas, mas não é algo em que se acredite de facto. Há quem diga que os portugueses reprimiam os locais, que não se podia dizer nada contra o governo, os políticos procuram recuperar estas coisas e mexer com as emoções das pessoas para ganharem votos”, observou.

Para Trajano D´Mello, esta é uma estratégia para “dispersar a atenção das questões importantes”. “Se não te posso alimentar com pão, utilizo as tuas emoções para esqueceres o pão, é o que os políticos fazem”, denunciou.

No entanto, segundo este político, cujo partido não tem atualmente deputados eleitos na Assembleia de Goa, mas que está representado no parlamento indiano, os locais “já não ‘engolem’ este tipo de discurso que passa por dizer que se é melhor do que os portugueses, porque as pessoas começam a perceber que ele não tem significado e que se trata apenas de um jogo político”.

O recurso a argumentos contra tudo o que tenha ligação a esse passado não tem hoje grande expressão em resultados eleitorais. “Poderá traduzir-se em dois a três por cento dos votos”, estima.

 

“JOGOS POLÍTICOS”

A oposição manifestada por alguns políticos de Goa contra a organização dos Jogos da Lusofonia, em janeiro, ilustrou, na opinião do vice-presidente do NCP, o facto de os comentários adversos ao passado português não se tratarem, no fundo, de ideias estabelecidas. “O Governo que acabou por ser o anfitrião dos Jogos, manifestou-se contra o evento quando estava na oposição, mas quando chegou ao poder organizou o evento. São só jogos políticos”, apontou.

Segundo Trajano D´Mello, “nenhum partido tem uma posição oficial sobre estas questões, mas os seus políticos utilizam estes temas da forma como querem”. O NCP, garante, “está antes focado no futuro em vez de no passado”.

Ao realçar que Goa tem um consulado português e que “muitos goeses estão a pedir o passaporte português, por terem antepassados lusos, para conseguirem arranjar trabalho em países europeus”, este político considera que o povo goês, em vez de “guardar rancor”, deveria “aproveitar o que de bom esse passado lhe deu e pensar no futuro”.

Em relação à preservação do património colonial no Estado indiano, Trajano D´Mello considera que o Governo local “está a fazer um bom trabalho” e que o passado não é algo que se tente esconder. “Até porque isso seria muito difícil, já que o património fala por si”, sustentou.

Em Goa, diferentes comunidades, nomeadamente a hindu e a católica, coexistem hoje de forma pacífica. “Goa é o Estado mais pacífico da Índia”, garante Trajano D´Mello, concluindo que esta situação “é, sem dúvida, resultado do domínio português, durante o qual os crimes eram tratados de forma muito severa”.

O político atreve-se a afirmar que “Goa poderá servir de modelo para o resto da Índia”, mas lamenta a existência de “elementos que procuram perturbar” esta realidade, referindo-se à intenção do grupo nacionalista hindu Shri Ram Sena de se estabelecer no Estado. Este grupo, cujos membros são considerados como os “talibãs hindus”, recorre à violência para combater a ocidentalização da cultura e valores indianos.

 

PORTA ABERTA À LUSOFONIA

O vice-presidente e porta-voz do NCP em Goa considera que a organização dos Jogos da Lusofonia “abriu a porta” a um reforço da cooperação com os países lusófonos.

“Os Jogos tornaram-se uma grande plataforma de aproximação”, observou, considerando que a população e o Governo locais estão hoje mais despertos para a importância das relações com os países de língua portuguesa.

Um maior intercâmbio cultural e económico “em benefício mútuo” é o passo natural seguinte, segundo Trajano D´Mello.

Uma eventual adesão à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) “seria boa e do interesse da Índia em termos políticos e económicos”, mas o político é cauteloso ao lembrar que uma decisão está dependente de Nova Deli.

“Depois de ter trocado ideias com diferentes países de língua portuguesa, o Governo de Goa pretende reforçar os laços políticos, sociais e económicos antes de pensar numa adesão à CPLP. No entanto, as implicações terão de ser estudadas e teremos de ver se o Governo de Goa poderá tomar uma decisão e se tal decisão será aprovada pelo Governo indiano”, explicou.

 

PORTUGUÊS EM SOBREVIVÊNCIA

Filho de goeses, Trajano D´Mello, 63 anos, lamenta não conseguir pronunciar muito mais do que um “obrigado” em português. “Só o meu pai falava português, mas ele considerou que eu deveria antes aprender inglês porque, depois da libertação de Goa, o português não me ajudaria profissionalmente”, explicou.

Hoje, apenas 3 a 4% da população de Goa fala português, nas contas de Mello, provando que a língua de Camões resistiu ao passar do tempo. “Depois da ‘libertação’, as pessoas que falavam português eram olhadas de forma suspeita e evitavam fazê-lo na rua, procurando mostrar que eram mais indianas do que portuguesas; e a elite goesa, na década de 50, proibia a classe baixa de falar português”, justificou. Esta situação “criou um ódio em relação a quem falava português e deixou de haver interesse em se aprender”.

No entanto, ainda “há muitas famílias, especialmente católicas, que continuam a falar português em casa e nos seus círculos sociais”, o que leva Mello a acreditar que, se a língua sobreviveu nos últimos 50 anos, ela “não morrerá em Goa, pelo menos, nos próximos 100”.

Patrícia Neves

 

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