Numa decisão tomada na última semana, a justiça norte-americana impediu o acesso policial a telemóveis de suspeitos sem o respetivo mandato judicial. Foi uma sentença importante, baseada no famoso, e muito cinematográfico, alicerce constitucional dos EUA, e que, nos seus fundamentos, inspirou os juizes a referirem-se ao “proverbial visitante de Marte” que, se viesse cá abaixo, pensaria que o telemóvel é parte integrante da anatomia humana.
Já agora, se o ocasional marciano se detivesse um pouco nas águas turvas do rio das Pérolas, entenderia melhor o famoso paradoxo estatístico que divide por todos nós a lagosta que muitos nunca vimos. Quer dizer, como é que Macau está em quarto lugar na lista dos mais ricos do mundo se o aumento do chamado salário mínimo para 30 patacas por hora foi a escandaleira que se viu? Claro que esta é uma pergunta capciosa e populista, por que toda a gente sabe, pelo menos desde que a polícia entrou no Lehman Brothers, que o dinheiro quando nasce não é para todos.
E este é só mais um caso que reforça a célebre teoria das duas cidades, divididas e antagónicas, em que o melhor de uma é o pior de outra, como duas irmãs que não se podem ver, mas que não subsistem sozinhas. Seja a inexistência de leis laborais legada pela administração portuguesa ou o recente escárnio perante um insignificante aumento salarial, a fábula das duas cidades tem sido como que um fio condutor ao longo dos anos, como, aliás, está patente em relatos de Macau que viajantes fizeram nos últimos séculos.
É talvez por isso que, mais de 150 anos depois, a grande abertura de A Tale of Two Cities, o conhecido romance histórico que Charles Dickens escreveu sobre a Revolução Francesa em 1859, é ainda uma metáfora aceitável para descrever a nossa situação: “Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a idade da razão, a idade da insensatez, a época da crença, a época da incredulidade, a estação da Luz, a estação das Trevas, […] tínhamos tudo diante de nós, não tínhamos nada diante de nós”.