NOVO MUNDO NA ORQUESTRA CHINESA DE HONG KONG - Plataforma Media

NOVO MUNDO NA ORQUESTRA CHINESA DE HONG KONG

 

Tornar-se professor do Conservatório de Música Central é o sonho de inúmeros músicos, mas o coração de Guo YaZhi sonhou sempre mais alto. No tempo em que ensinou no Conservatório chegou a atuar em Hong Kong, cidade que nos anos 90 era próspera e na qual rapidamente se viu atraído pelo estilo de vida de uma metrópole internacional. Por isso, quando em 1998 soube que a Orquestra Chinesa de Hong Kong estava à procura de um suonista principal, renunciou sem hesitar do seu cargo no Conservatório e rumou a uma cidade que tem uma língua e uma cultura diferentes da sua.

A gestão ocidentalizada da Orquestra fê-lo descobrir novos horizontes. Ocupado com espetáculos, rapidamente se adaptou ao ritmo acelerado de Hong Kong e, lentamente foi acumulando fãs e coneuistando novos alunos. Encontrar um espaço para praticar a suona na superpovoada Hong Kong não foi fácil, ainda por cima porque a suona é “uma grande voz”. Mesmo assim, tinha alunos que com ele estudavam suona como major. No princípio era apenas um, mas na altura em que deixa Hong Kong tinha chegado aos oito alunos, para além de muitos outros, em diferentes escolas, que estudavam o suona como hobby. Guo YiZhi ainda criou a Associação de Suona de Hong Kong, tornando-se uma estrela na Orquestra Chinesa, que chegou a organizar dois concertos em sua homenagem, visto como o músico que conseguiu fazer o público render-se às suas capacidades nos instrumentos de sopro. O seu empenhado em difundir a suona é por todos reconhecido: “ Vim a descobrir que em Hong Kong as pessoas que ouvem música clássica não ouvem música tradicional, e pessoas que ouvem música pop não ouvem música clássica. É como se as pessoas que ouvem música tivessem os seus próprios grupos”. Decidiu então começar a quebrar essas barreiras e, no Hong Kong Colise, chegou a dar concertos juntamente com cantores pop como Hacken Lee e Tat Ming. Lentamente, o seu círculo de fãns foi-se alargando e alguns ouvintes de música pop começaram a frequentar os seus concertos.

A abordagem eclética, garante, não se destinou a satisfazer caprichos pessoais. Desde que começou as gravações em estúdio, ainda no Conservatório, quis sempre integrar a suona na vida dos habitantes de todas as cidades. “Gravei algumas músicas pop usando a suona porque, à minha maneira, queria demonstrar a natureza quente deste instrumento. A Orquestra Chinesa de Hong Kong dá todos os anos um concerto no dia dos namorados e, nessas alturas, cheguei a tocar alumas músicas românticas com a suona. Queria mostrar a toda a gente que era um instrumento moderno e elegante.”

Ter vivido e trabalhado em Hong Kong, ao longo de mais de dez anos, levou a sua vida a um novo patamar. Aprendeu a falar cantonês fluentemente, conheceu a sua esposa dentro da orquestra e viveu “uma vida boa”. No ano em que deixou a Orquestra Chinesa foi escolhido como músico do ano em Hong Kong.

Decidiu partir já depois de ter atingido o patamar do sucesso. Por que razão? “Verdade seja dita, deixar a Orquestra não foi de todo um capricho momentâneo. Não sou daquele tipo de pessoas que toma decisões precipitadas, mas tinha outros planos que já se andavam a formar na minha mente. Talvez tenha a ver com a minha natureza, sempre que sinto aquela sensação de que as coisas se estão a apertar à minha volta procuro algo que possa voltar a alargar esse gargalo. Na Orquestra vivi um período estável e o mais áureo da minha carreira, mas preciso cultivar a minha própria terra e quis fazer com que a suona entrasse na cena internacional.” Para que isto se tornasse numa realidade, ele deixou muitas coisas para trás, mudou-se para o outro lado do oceano, com a sua esposa e filho, para um país estranh – Estados Unidos da América – onde começou a cultivar o seu próprio pedaço de terra.

余倩 Y.Q.

 

Agridoces anos de Boston

 

Para um Guo YaZhi já de meia idade, a vida num país estrangeiro revelou-se um grande desafio. Para além de aprender inglês, dedicou-se também auma nova linguagem musical: o jazz. Estava escrito no destino: “Dentro dos instrumentos tradicionais chineses, a suona é algo que pode ser compatível com o jazz. O seu som é menos forte do que o de um saxofone, mas adapta-se bem ao jazz.” Mas sua mudança para os Estados Unidos e a dedicação ao jazz tinham por trás uma razão mais profunda: aprender a improvisar.

Para quem nasceu e trabalhou numa instituição de educação, Guo YaZhi acha que é evidente a falta que faz a improvisação: “Ensinar música tradicional é sempre seguir a pauta, não se ensina improvisação nem criação. Os músicos tradicionais também têm sempre que seguir a partitura, pois há muito que perderam a sua capacidade de improviso.” Guo YaZhi  entende que a improvisação é a verdadeira essência dos instrumentos tradicionais chineses, o legado mais importante que a educação musical pode deixar.  “Hoje em dia a música tradicional enveredou por um caminho mais ocidentalizado. Não digo que seja errado, apenas que existem alguns obstáculos intransponíveis. As orquestras tocam segundo a criação do compositor, mas o compositor não conhece a fundo todas as potencialidades de cada instrumento. E o improviso é uma explosão instantânea de ideias, algo que não está nas mãos do compositor. Os músicos tradicionais também têm que ter esta autonomia.”

Se a música tradicional provém do povo, como de costuma dizer, teremos de voltar ao povo para encontrar resposta ao improviso? Com algum pesar, Guo YaZhi diz que os métodos de improviso já se perderam na música tradicional. Veja-se o caso da suona: antigamente, recorda, era preciso que houvesse um casamento, um funeral ou algum evento especial para que fosse tocada. Nesses momentos era preciso tocar durante muito tempo, o que levava a que pequenas alterações, o que levava ao improviso e a performances que ganhavam mais vida. Após a Revolução Cultural, perdeu-se muito da tradição e tornou-se muito difícil encontrar vestígios dos velhos mestres do improviso. Por outro lado,  improvisar é uma arte que leva muitos anos a aprender. No fundo, foram estas reflexões que levaram um mestre da música tradicional a mudar-se para os Estados Unidos e aprender jazz. Como músico chinês, foi à procura dessa capacidade perdida do improviso.

Quebrar hábitos de décadas é muito difícil. É mais fácil falar do que fazer, reconhece Guo YaZhi. Mas quando apareceu no Berklee College of Music com uma dezena de instrumentos tradicionais chineses sopro, os professores ficaram surpreendidos. Deram-lhe a oportunidade de tocar jazz no Performing Arts Center da escola, bem como em outros locais. O famoso professor de guitarra de rock e de jazz do Berklee College, David Fiuczynski, tem a sua própria banda. Em fevereiro deste ano, atuaram com Guo YaZhi num bar de jazz em Nova Iorque, momento inesquecível para o músico norte-americano: ”Este homem é demais, uma pessoa só a tocar tantos instrumentos. Quando percebi que um dos membros da minha banda não podia atuar, chamei-o logo para vir tocar connosco. O Guo é grande e dá-me sempre espaço para a liberdade de expressão”, comenta Fiuczynski.

Essa liberdade de expressão é o Guo YaZhi mais aspira. Mas no princípio não foi nada fácil, pois é difícil mudar depois de tantos anos. “Nos ensaios havia coisas que não conseguia compreender, como as harmonias do jazz. Os pontos de entrada e de saída causavam-me problemas, pois é uma linguagem completamente diferente da que eu estava habituado. Uma música de dez minutos ocupa ãpenas uma página da partitura e a maior parte é feita de improviso. Subimos ao palco sem termos tocado uma única vez a música do princípio ao fim.” Não é fácil para Guo YaZhi comunicar em inglês, como não é fácil praticar o jazz, que lçhe foi sempre estranho. A pressão é enorme, mas o resultado é deslimbrante: “Mais tarde vim a descobrir que quando a emoção atinge um certo ponto faz-se uma faísca. Surgem melodias que nunca imaginámos. Começei assim a apreciar todo este pocesso, pois o jazz nunca é aborrecido, é sempre diferente”.

Guo YaZhi rende-se ao espírito de improviso do jazz e mostra-se ansioso por continuar a desenvolver a sua própria personalidade. “Não quero limitar a minha música ao que o compositor fez. A música chinesa deve prestar atenção à individualidade e é preciso procurar harmonia nas personalidades diferentes da música ocidental.” O jazz, explica, deu-lhe a liberdade para disfrutar do prazer de ser músico. Os Estados Unidos são um país aberto, tal como o jazz é um estilo livre. Mas para que a suona entre cena internacional do jazz terá invesir muito tempo e aprimorar a sua forma de tocar.

Otimista por natureza, Guo Yizhi mostra-se confiante no futuro: “Espero começar a fazer por mim próprio. Hoje em dia uma grande parte dos alunos que aprendem a tocar suona no Conservatório são originários da provincia de Shanxi. Peguei na arte da suona e trouxe-a para Hong Kong. Acredito que abri o caminho e que o futuro trará ainda mais recém-chegados. Mesmo não sendo eu a fazê-lo, pouco a pouco outros certamente o conseguirão. Acredito que no futuro haverá jazz de estilo chinês.”

Yu Qian

 

 

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