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Covid-19: “Grande parte da população tem de ser infetada”

Catarina Brites Soares

É o que defende Nelson Olim, cirurgião especialista em medicina de catástrofe que tem colaborado com a Organização Mundial de Saúde (OMS). Em entrevista ao PLATAFORMA, Olim, que ressalva que as opiniões não representam a posição da OMS, afirma que a instituição não falhou apesar de estar debaixo de fogo desde o início da crise epidémica provocada pelo COVID-19. Sobre a segunda vaga que acaba de surgir em Pequim, o clínico diz não haver motivos para pânico. “Era previsível”, sublinha o responsável pela coordenação da aplicação móvel WHO Academy, desenvolvida pela OMS. A app, lançada há cerca de um mês e que já foi descarregada em 205 países e territórios, agrega informação sobre a pandemia. Criada para os profissionais de saúde, é também acessível ao público em geral e tem como finalidade combater a desinformação.

– Como encara a nova vaga que surgiu em Pequim?
Nelson Olim – Desde o princípio da pandemia tornou-se claro de que este não é um vírus fácil de erradicar devido à capacidade de contágio e por muitos indivíduos infetados permanecerem assintomáticos. As estratégias adotadas pela maioria dos países visaram o abrandamento da disseminação, por forma a salvaguardar os serviços de saúde, o que de alguma forma faria prever que novos surtos iriam surgir já que o vírus não foi erradicado. É o que está a acontecer.

– Considera que há motivos para alarme? As autoridades em Pequim disseram que a situação é grave.
N.O. – Há motivos para permanecer vigilantes, mas não há razão para escalar o pânico. A tendência deste vírus é para se tornar endémico. Obviamente quanto mais se testar, mais casos serão encontrados, mas é preciso não esquecer que na esmagadora maioria este vírus não provoca sintomas ou gera sintomatologia benigna, ou seja, o número real de pessoas infetadas será certamente muito maior que os números reportados globalmente, e isso não é necessariamente mau.

– A reincidência vem comprovar que as medidas de quarentena/isolamento e encerramento de territórios não são frutíferas a médio, longo prazos?
N.O. – A OMS sempre afirmou que a estratégia do isolamento teria efeitos no mínimo duvidosos, uma vez que não é permanente nem é possível manter por tempo indeterminado. A quarentena de indivíduos infetados, por outro lado, faz sentido na medida em que se diminui a probabilidade de um indivíduo passar o vírus a outro.

– Vemos que cada país experimenta soluções de acordo com os regimes e aconselhamento dos organismos de saúde. Há algum modelo que considere o mais indicado, bem-sucedido?
N.O. – É a primeira vez neste século que o mundo enfrenta um vírus deste género. Há muito a aprender. Ainda não há fórmulas certas ou erradas. Está demonstrado que o custo económico e social do isolamento é incomportável a médio prazo. Por outro lado sabemos que, à semelhança de outras viroses, o objetivo último é a aquisição de uma imunidade de grupo, o que implica que uma grande parte da população tenha de ser infetada. É neste balanço que a maioria das políticas de saúde se deve focar.

– Como olha para as medidas que foram tomadas desde lado do mundo, especificamente pela China continental, Macau, Hong Kong e Taiwan?
N.O. – Imaginemos que assim que a pandemia foi declarada, um determinado país ou território, fecha as fronteiras e coloca 100 por cento da população em isolamento compulsivo dentro de casa durante um mês. Atenção que estou a dizer 100 por cento, não 99 ou 95. Esta medida seria eficaz? Sim, mas é tecnicamente impraticável uma vez que, por um lado, não é possível resguardar, ou esconder do vírus, 100 por cento da população, por outro, as fronteiras não podem permanecer isoladas para sempre, e finalmente bastava que um único indivíduo permanecesse infetado para poder voltar a propagar. As medidas de isolamento rigorosas funcionam, mas só temporariamente.

– Defende que deve haver exposição ao vírus.
N.O. – Sabemos que o vírus é relativamente benigno para a maioria. Parece haver alguma evidência de que uma vez infetados os indivíduos desenvolvem imunidade. Quando um grande número de pessoas está protegida – o número exato é discutível, mas vários especialistas apontam para cerca de 70 por cento – o vírus já não tem como se propagar. Esse é o objetivo último. Obviamente que requer uma estratégia que ainda assim isole e proteja os indivíduos mais suscetíveis, como os idosos.

– O que se passa em Pequim comprova que tem razão?
N.O. – Como já afirmei, não há certo ou errado, há apenas diferentes estratégias que produzem diferentes resultados. Estamos todos ainda a aprender.

– No início, desconhecia-se o vírus. Agora, já não é totalmente assim. Quer isto dizer que as soluções também devem ser outras?
N.O. – As soluções devem ser adaptadas à medida que o conhecimento evolui. Neste momento, o volume de conhecimento sobre SARS-COV-2 e COVID-19 duplica a cada 20 dias, portanto, as soluções têm de ser dinâmicas.

– A vacina ou mesmo um medicamento parecem longe. De que forma se poderá retomar a vida normal sem que isso nos conduza a uma situação de calamidade?
N.O. – À luz do conhecimento atual, provavelmente a solução passa por manter medidas generalistas de higiene, como a lavagem frequente das mãos e a higienização de superfícies – o que aliás devia existir sempre. Mas, ao mesmo tempo, permitir a retoma das atividade para que indivíduos saudáveis possam ser expostos a pequenas quantidades de vírus e assim criar imunidade. Para os grupos mais vulneráveis, as medidas de proteção devem ser reforçadas.

– Como olha para a descoberta da equipa da Universidade de Oxford que diz ter encontrado o primeiro medicamento para COVID-19 com resultados?
N.O. – Existem vários medicamentos em estudo e alguns mostram bons resultados. O futuro passará por perceber que doentes e que critérios para cada tipo de medicamento, nunca esquecendo que de momento nenhum medicamento é 100 por cento eficaz.

– A OMS tem sido fortemente criticada. Desde logo, por ter sido benevolente com a China, acusada por muitos países de omitir informação, e pelas posições contraditórias que foi tomando sobre as máscaras, encerramento de fronteiras, entre outras questões. Como poderá a organização recuperar a confiança num momento em que era determinante e há a perceção de que falhou?
N.O. – Há claramente um erro de perceção do papel da OMS e, em grande medida, houve uma falha por parte da comunicação social em explicar os factos. A OMS é uma organização normativa, formada por Estados-membros. Os Estados são autónomos, independentes e livres de implementar as políticas que entenderem tendo em consideração os acordos de que são signatários.

– Mas houve recomendações.
N.O. – As recomendações da OMS são elaboradas à luz do conhecimento científico disponível à data da recomendação. No começo da pandemia, havia muito pouca evidência disponível, o que é natural porque os estudos levam tempo e requerem grandes números de casos para serem significativos. Desde então, como será fácil de entender, se o volume de informação duplica a cada 20 dias, é normal que as recomendações evoluam à luz do novo conhecimento. Isso não significa que alguma vez tenha havido uma falha ou contradição, mas sim atualizações de acordo com a evolução natural da evidência científica. Falha, seria manter recomendações que estão ultrapassadas pela evidência científica acumulada, o que não é o caso. 

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